Entre o Arco-Íris e o Esquecimento, num banho de Pinkwasshing

 

(photo by:Dreamstime)


EuroPride: Entre o Arco-Íris e o Esquecimento, num banho de Pinkwasshing

Dá-se hoje um fenómeno que, embora pintado em tons vibrantes, tem um fundo cinzento e preocupante: a transformação da luta LGBT+ num produto vendável, inofensivo e esvaziado. O EuroPride — evento que, em teoria, deveria ser um momento de celebração da diversidade e da resistência — tornou-se, na prática, a epifania de uma comunidade politicamente alienada, capturada pelo consumo, pelo entretenimento, e por um discurso cada vez mais plastificado.

É inevitável dizê-lo: este EuroPride não é nosso. Não é das pessoas trans sem habitação. Não é das lésbicas que vivem na invisibilidade. Não é das pessoas negras queer, nem das que vivem com VIH, nem daquelas que que fazem do sexo profissão porque lhe negam outro trabalho. Este EuroPride é das marcas. É dos patrocinadores. É da selfie com glitter que esquece Stonewall.

Chamam-lhe “orgulho”, mas não tem luta. Chamam-lhe “evento político”, mas não incomoda ninguém — e se não incomoda, não é político. Porque o orgulho, como nos ensinaram Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera, nunca foi um desfile para agradar, mas uma afirmação feroz da existência de quem a sociedade insiste em apagar.

Enquanto a Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto (MOP), por exemplo, luta há 20 anos pela ocupação política do espaço público, enfrentando o boicote direto da Câmara Municipal do Porto, o EuroPride de Lisboa é servido com bandejas de champanhe e conferências climatizadas, sem que ninguém se pergunte quem ficou de fora. E muitos ficaram.

É aqui que entra o pinkwashing: quando empresas, instituições e até governos usam a causa LGBT+ como verniz de inclusão — não para transformar a sociedade, mas para se protegerem da crítica, para ficarem bonitos num fotografia europeia ou mundial. Pintam o logotipo de arco-íris em junho, mas não contratam pessoas trans. Financiam eventos, mas não se posicionam quando os nossos corpos são alvo de violência. Pagam festas, mas negam o financiamento a marchas e coletivos locais que realmente fazem trabalho político durante todo o ano.

Mais grave ainda é ver parte da própria comunidade a aplaudir.

Somos uma comunidade tão fustigada pelo silêncio e pela rejeição, que confundimos qualquer forma de visibilidade com conquista. E é assim que muitos de nós trocam consciência política por DJ sets e marketing emocional. Não é só que o mercado tenha sequestrado os nossos símbolos — é que nós próprios, muitas vezes, lhos entregámos de bandeja.

E o caso do EuroPride 2025 em Lisboa é o exemplo mais gritante.

Desde que foi anunciado, o evento está ferido de morte. As principais organizações que o propuseram — ILGA Portugal, AMPLOS e a rede ex aequo — abandonaram o projeto, levantando questões sérias sobre a sua legitimidade, representatividade e integridade. Ficou apenas uma entidade, a associação Variações, hoje sozinha à frente da organização. E mesmo essa entidade vê-se envolta em sombras: o seu ex-presidente encontra-se sob escrutínio do Ministério Público por alegadas irregularidades na gestão de fundos públicos - quem confere os mais de cem mil euros patrocinados pela CML?

É legítimo perguntar: é esta a entidade que vai representar o “orgulho europeu”? Com que base ética, com que legitimidade social e comunitária?

Tudo isto reforça a nossa crítica central: este evento, embora se chame "Pride", nada tem de luta, nada tem de consciência coletiva, nada tem de resistência. É uma feira de marcas num espaço altamente higienizado, sem rasto de memória, sem vestígios de confronto, sem espaço para o incómodo.

Quem se lembra hoje que em 2022 se denunciavam os campos de concentração para pessoas LGBT+ na Chechénia? Quem se lembra dos nossos camaradas na Rússia de Putin que foram presos por se manifestarem enquanto pessoas LGBT+? Quantas pessoas LGBT+ que irão ao EuroPride conhecem, sentem o assassinato de Gisberta? Que parte da nossa comunidade sabe sequer o que é pink money, pinkwashing ou interseccionalidade?

Este vazio de consciência política, esta cultura de festa que não se pensa, é também uma forma de opressão — suave, colorida, mas eficaz. Porque enquanto estamos distraídos a celebrar a aceitação simbólica, perdemos o que realmente nos faz livres.

A luta LGBT+ não cabe num palco patrocinado. Não se mede por quantidade de purpurina, nem por número de eventos no Instagram. A verdadeira revolução continua a acontecer longe dos holofotes: nos bairros, nas ruas, nos coletivos que não recebem fundos, nos corpos que ainda hoje são assassinados por serem quem são.

Podem chamar a isto EuroPride. Mas não confundam o nome com o seu significado. Pride é ocupar o espaço que nos querem negar. Pride é ter consciência. Pride é luta.

E, sejamos claros:

"Sem luta, não há orgulho. Há só performance."
— Parafraseando Angela Davis: "Numa sociedade racista e heteronormativa, não basta não ser preconceituoso. É preciso ser antissistema."


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