30 Anos, não são trinta dias!
Fez este dia 8, trinta anos, trinta anos que nos vimos, e penso (por um acaso acho que nunca falamos sobre este ponto), que nenhum de nós pensou que realmente nos veríamos de novo, eu pelo menos não, mas ele foi à caça de mim.
Trinta anos atrás na madrugada do dia 8 de dezembro de 1995, eu vivia um daqueles momentos que queremos mais é que o mundo vá para o “escambal”, mas eu meio a brincar dizia que queria que me caísse um piano de calda na tola, pois se é para partir que fosse em estilo.
Vagueei pela invicta, e quando achava que nada mudaria o meu humor, (e não mudou), decidi regressar a casa, na saída de uma disco, emblemática na época, o "Swing”, estava na fila do bengaleiro uns ombros largos (tinha sido atleta de acrobática), uma pele morena e um cabelo negro, assim ao estilo cigano – eu queria que me caísse um piano de calda em cima, mas nem por isso estava cego. Nos meus pensamentos o tesão fez-me por momentos desejar muito, mas depois um daqueles anjinhos/diabinhos que nos fala ao ouvido, não estou certo qual, disse: - Esquece, betinho demais, não é carne para o teu canhão!
Meus amigos, mas nada como um dia depois do outro, farto-me de dizer isso a toda a gente, verdade que pode não ser no dia seguinte, mas por vezes acontece.
Na época dava aulas de dança, sábado de manhã, do dia 9, cedo apanhei a camioneta para Oliveira de Frades e lá fui eu dar um dia inteiro de aulas, com as melhores alunas de sempre – terminado o dia, no regresso vinha na camioneta da CP que vinha serra dentro, com curvas e contracurvas e mais solavancos que máquina de lavar. Por norma nunca dormia nessa viagem, era desconfortável, mas nessa noite dormi que nem um anjo até Aveiro, onde apanhava um comboio até S. Bento, para depois apanhar outro na Trindade até Custóias, (vida de pobre é dose).
Por norma nunca saía, mas naquele sábado dia 9 dezembro de 1995, senti que ia acontecer, não tinha nem ideia do que fosse, mas sabia que ía acontecer, quem sabe ía cair-me um piano de calda em cima!?
Cheguei a casa, um duche rapidinho só para tirar o cansaço do corpo, troquei de roupa e sai correndo para apanhar o último comboio Custóias/Trindade. Primeiro um cafezinho no Café da Praça (quem lembra), dali fui para o Moinho de Vento (memórias, quantas), e lá dentro conversava com um amigo, e dizia-lhe: - Hoje vai acontecer-me alguma coisa, não sei o quê, mas o que seja, não está aqui, vou daqui a pouco para o Swing.
Neste preciso momento passa na minha frente aqueles ombros largos, de camisa cinza, que tinha visto na fila do Swing para o bengaleiro, no dia (madrugada) anterior. Ele passa e eu comento com o meu amigo: - Eu conheço estes ombros de algum lado!
Os ombros foram direitos ao bar, e eu bebi de golada o que ainda estava no copo, e fui direto ao bar, peço outro e olhando para os ombros digo: - Olá boa noite, tudo bem!
Na altura eu não tinha nem ideia de que ele tinha ido em busca de rever o tipo que o despiu com os olhos enquanto ele aguardava na fila do bengaleiro, mas também ele não saberia que eu tinha gravado aquele corpo nos meus “files”.
Começamos a conversar e nunca mais paramos, entre afetos, (sexo é bom, mas nem vê-lo), nasceu o dia – depois do almoço, voltamos a nos encontrar, e fomos fazer o que não tínhamos feito na noite anterior, calma, fomos dormir, e fomos dormir algures numa mata qualquer em Vila do Conde, dentro do carro, um Opel Kadett, que foi aliás nosso quarto tantas vezes, até com direito a visita policial e tudo que nunca foi desagradável, bem pelo contrário.
Dizem que as boas relações, nomeadamente de amizade, começam normalmente por desentendimentos, parece que aquelas que exigem um grau de empenho e interesse também foram feitas para durar. Porque aqueles ombros dias depois foi passar a passagem de ano de 1995/96 para Roma com umas amigas e eu fiquei aqui – e se isso não bastasse, chegou de fim de ano e foi para a tropinha, lindo não.
Tornamo-nos clientes da Pensão Aliados, tão clientes que mesmo depois de terem aumentado os preços, nós pagávamos o mesmo que tinha pago na primeira noite que lá estivemos, a noite em que nos conhecemos de fato, 9 dezembro 1995.
Uma relação, exige empenho, respeito, amor, e trinta anos exige muito disso tudo e mais. Tivemos os nossos altos e baixos, vividos entre nós, de nós para connosco, nunca expusemos as dores, apenas as alegrias, porque primeiro ninguém ia resolver os azedos por nós, depois porque quisemos ser inspiração para os demais, e penso que conseguimos, inspirar um ou outro. (digam vocês os inspirados)
Trinta anos, faz trinta anos que nos conhecemos, que vivemos coisas extraordinárias, que eu vivi coisas extraordinárias, porque me ensinou a viajar, levou-me a conhecer mundo, e já fomos a muito sítio. Criamos um projeto que nestes anos ajudou muita gente LGBTQIA+ a sobreviver num mundo hostil, criamos festa, e tudo junto hoje, recordamos as mensagens, as manifestações de carinho, e algumas de agradecimento por esse nosso trabalho, e dedicação, fomos, somos muito mais que nós, fomos os outros, porque afinal ninguém é feliz sozinho, não é mesmo!?
Quando a lei deixou, casamos, e no nosso casamento vivemos um dia de príncipes, porque as pessoas que nos acompanharam nesse dia, queriam talvez tanto como nós mesmos, que casássemos – tipo, casem logo que seca estes dois – esse papel não mudou nada, e mudou tudo. Não mudou como nos amamos, como nos respeitamos, como nos queremos, mas mudou o que somos legalmente um para o outro, e os dois com os demais, com a sociedade.
Se mudava alguma coisa entre nós? Talvez uma coisinha ou outra, nomeadamente em mim, no demais, mantinha tudo como foi – trinta anos, não são trinta dias, é uma vida cheia, repleta, muito bem preenchida, que desejo a todas as pessoas que amam, que se não forem tão amadas como eu, sejam mais amadas que eu, porque o mundo acaba amanhã e queremos levar dele amor não guerra, frieza ou maldade.
A ti ombros largos, amo-te mais que a mim mesmo!

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