Fizeram do 25 de Abril apenas uma celebração, e esqueceram que o 25 de Abril é luta!
Fizeram do 25 de Abril apenas uma celebração,
e esqueceram que o 25 de Abril é luta!
O que vos quero contar pode até parecer polémico em
medida, mas não tem essa pretensão, é antes um lamento!
Antes de 1974, havia uma ordem. Não escrita — ou melhor, escrita demais — mas
aceite, repetida, ensinada como se fosse natural. Uma ordem onde cada um tinha
o seu lugar, e o problema começava quando alguém ousava perguntar porquê,
porque como alguém já disse, a forma mais eficaz de controlar uma população
é limitar o espectro do pensamento.
As mulheres, por exemplo, tinham um lugar muito claro.
Não precisavam de o procurar — ele era-lhes dado à nascença, com uma delicadeza
quase paternal. Eram educadas para cuidar, servir, obedecer. A lei tratava
disso com uma eficiência notável: o marido podia decidir sobre a sua vida
profissional, sobre os seus bens, sobre a sua mobilidade. Autorização marital
não era uma expressão estranha — era rotina. Mas veja-se o lado positivo:
poupava-se tempo em decisões. Para quê pensar, se alguém já pensava por elas? A
LIBERDADE, essa coisa confusa e exigente, era um luxo desnecessário — afinal, não
se nasce mulher, torna-se mulher, e naquele tempo tornava-se exatamente
aquilo que o sistema precisava que se fosse.
As pessoas negras — quando não estavam nas colónias a
sustentar um império que lhes negava existência plena — eram encaixadas numa
narrativa conveniente. Oficialmente, não havia racismo. Portugal orgulhava-se
até de uma suposta harmonia multirracial. Uma espécie de fantasia bem contada.
Na prática, havia hierarquias, exclusões, invisibilidades. Mas tudo com uma
elegância administrativa: não se dizia, fazia-se. E quando alguém ousava
contrariar essa ordem, havia sempre uma forma de o silenciar — às vezes com
leis, outras com violência, quase sempre com indiferença, porque a opressão
não se sustenta apenas pela força, mas pela normalização.
Os imigrantes — ou melhor, os “outros” — existiam numa
zona cinzenta. Úteis quando necessários, invisíveis quando inconvenientes. Não
eram exatamente cidadãos, mas também não eram completamente ignorados. Eram
tolerados. E há uma diferença enorme entre tolerar e reconhecer. Mas tolerância
já era, para a época, um gesto de aparente generosidade. Não convinha pedir
demais, porque há aqueles que são mais iguais do que outros.
E depois havia aqueles que nem sequer tinham linguagem
para existir: as pessoas LGBT. Não eram um grupo, não eram uma comunidade —
eram um desvio. Um erro. Um crime, em muitos casos. A homossexualidade era
perseguida, punida, escondida. Não se discutia, não se compreendia —
eliminava-se do espaço público. O silêncio era a norma. E o medo, o mecanismo
de controlo mais eficaz. Amar podia ser um ato clandestino. Existir, um risco
calculado. Mas também aqui havia uma certa “coerência”: se não se via, então não
existia. E se não existia, não havia problema. Uma solução simples para uma
realidade complexa, porque o poder produz verdade, e aquilo que não se vê
não precisa de ser reconhecido.
Tudo isto sustentado por um regime que se apresentava
como ordeiro, estável, protetor. E era — desde que se aceitasse não questionar.
Porque questionar era perigoso. Pensar era subversivo. E viver fora do guião
era, no mínimo, inconveniente.
Depois veio o 25 de Abril. E, de repente, aquilo que era
impensável começou a ser discutido. Aquilo que era proibido começou a ser
vivido. Não foi um milagre — foi um rasgo. Um momento em que alguém decidiu que
a ordem não era natural, era imposta, porque a liberdade não é um estado, é
um processo em construção permanente. (para quem acha que as marchas não sã necessárias tem como trabalho de casa ler esta ultima frase em itálico mil vezes)
E talvez seja isso que mais incomoda quando olhamos para
trás: perceber que durante tanto tempo se chamou normalidade àquilo que era, no
fundo, apenas silêncio imposto.
Logo, logo quando, a LIBERDADE se engalanava por
movimentos que percorreram desde Maio de 68 até aqui, que se partidarizava com
rostos conhecidos de quem viveu na clandestinidade, essa LIBERDADE na verdade
trazia uma meia de cada cor, e por isso os passos que deu, foram discretos,
lentos, envergonhados, se calhar porque era algo de novo, e se ingerido rápido
demais dava soluços ou uma valente diarreia, deve ter sido isso que pensaram
quando alguém gritou que “O 25 de Abril não foi feito para putas e paneleiros.”,
mais coisa menos coisa.
Depois o povo foi-se habituando a respirar, sem medos, e
todos os 25 de Abril desde então saiu à rua para celebrar a LIBERDADE – e eu
pergunto que LIBERDADE? E como se não bastasse foram ficando cada vez mais por
casa, pelo shopping, pela praia e ou esplanada, pois afinal em Abril nem sempre
há um convite para colocar os pés na areia.
O povo convenceu-se que respirar era certo, os capitães
de Abril fizeram tudo, para quê vir de novo para a rua, afinal, se quer, há
farturas e cerveja, …assim esqueceram que estas coisas das conquistas são
efémeras, e funcionam como um jardim sem guarda, as ervas daninhas invadem, o
mato torna-se alto, e qualquer um caga nele, e não tarda esse ar que respiramos
oferecido por Abril de 74, fica pesado, poluído pelo cheiro agoniante da merda
fascista, e quando damos conta esse jardim está invadido de silvas e recantos
de medo.
Abril, é LIBERDADE, e por muito deficiente que ela seja
vale mais que qualquer vozeiral, energúmeno que confunde cheiro a naftalina com o suor, de um povo que lhe paga o tempo de antena, e o chicote usado no tronco… —
porque ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, os homens
libertam-se em comunhão — LIBERDADE deve, tem de ser conquistada todos os
dias, pois nenhuma árvore de fruto descuidada dá fruto para sempre.
Por isso amigo, camarada, cuida de manter o teu ar
respirável, junta-te como bem entenderes em mais um dia de luta, este 25 de
Abril, porque NINGUÉM será livre enquanto houver alguém preso nas malhas de
toda e ou qualquer ignorância legislativa, gritemos por isso nem que seja
apenas com a nossa presença: 25 de Abril sempre; fascismo NUNCA MAIS!
E já agora e mesmo para terminar, isto não é só um texto — é: um aviso – uma
provocação – e quase um manifesto, afinal lembra que o 25 de Abril não é apenas
memória — é responsabilidade.
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