A idade é um saco que nem todos queremos partilhar!
(a foto não é estilo, estava a recuperar das minhas costelas, daí a bengala)
Gente as coisas que o dia-a-dia nos reserva são por vezes
tão arrebatadoras, …para quem me segue nomeadamente no FB, que uso quase como um
diário público, andei (ando) meio macambuzio, as energias anímicas parece que
me deixaram por uns tempinhos, mas igualmente para quem me conhece, sabe que
não sou de desistir, é só esperar, porque nada como um dia depois do outro.
O que vos quero aqui falar devia ser o anúncio desta
quebra, cruzei com um dos nossos vizinhos, um senhor de idade avançada que rege
os seus movimentos com calma, e tempero, um senhor dos antigos com visão de
vida recheada de experiencias, que o fizeram grande e por isso, esta disponibilidade.
Então o nosso encontro foi em dois tempos, no primeiro
tempo, dias antes do segundo, vi alguém a entrar no carro dele no lugar do
condutor, dentro da nossa garagem, e quando me preparava para intervir, sei lá,
saber quem era, porquê estava a usar o carro dele, a sua atual esposa acenou e
sorriu como habito, quer dizer então que está tudo bem.
Aproveitando que falei da atual esposa, falemos da anterior.
Este senhor já com oitenta e muitos, estava casado com uma senhora menos afável,
no que tem a ver no contato com os outros, claro que não sei como era no seu
intimo com o seu marido, mas a verdade é que não era de sorrisos e dada a
poucas palavras. Então de repente deixei de a ver, e num determinado período de
tempo vi o senhor sempre à distancia e por isso sem oportunidade para diálogos,
até que um dia cruzamos como era habito na garagem a caminho do elevador, então
no meio da conversa e porque sou uma pessoa educada, enviei cumprimentos à
esposa, que fiquei no ato a saber que já não o era, e não tardou a ver esse
mesmo senhor acompanhado da sua atual companheira, esposa, não sei, nem quero saber,
apenas sei porque é fácil de ver, que os dois se entendem, e isso é quanto me
basta.
Então estes dias, (este é o segundo tempo), cruzamos na
entrada do prédio, ele e ela cada qual com a sua muleta, a descer a escada da
entrada com a calma que lhe é característica, e por ai ficamos a falar um pouco.
Parece que os dois temos a mesma ideia do que é viver,
estar vivo, nomeadamente quando a idade nos limita os movimentos, quando mais
que um fardo para as nossas pernas, para toda a nossa estrutura óssea,
começamos a ser um fardo para os demais que nos rodeiam, que mesmo que por
amor, se vêm limitar as suas vidas segundo a vida dos que precisam cuidar. Vi
isso acontecer com o marido, quando dos últimos tempos de vida do seu pai, onde
os irmãos se revezavam (por sorte são mais que um), para que o “fardo” não fosse
pesado a ninguém em particular, mas onde todos pudessem carregar um pouco. Vejo
isso com a irmã de um outro amigo que vê a sua vida agendada segundo as
condições de saúde do seu pai, mas não só.
Isto poder-nos-ia levar ao chumbo carrasco, escravagista,
da lei da eutanásia, que depois de mais uma conversa com este meu vizinho me fez
refletir, …qual é o medo da legalização da lei da eutanásia? Tem medo da verdade?
Tem medo que os velhos, os idosos, do nosso país assinem enquanto sóbrios,
conscientes, sãos, declarem que este país não é para velhos, que o mundo que
muitos deles sonharam e talvez até lutaram, não é o mundo onde hoje se vêm
sobrevivos.
Receiam que estes velhos com as suas assinaturas, suas
declarações, vos passem um atestado de incompetência? Deve ser isso.
Mas voltemos ás nossas, minhas e dele, avaliações do que
é estar sobrevivo neste mundão atual, e ambos com as devidas diferenças etárias,
não queremos mais, desejamos esse comboio de ida desesperadamente, porque
quando olhamos em volta são mais os prantos que os risos, são mais as lágrimas
que as festas, e mais o sofrimento que o bem estar, e pessoas como ele e eu,
não queremos sobreviver num mundo destes, por muito privilegiados que o sejamos,
este mundo fere-nos.
Quase no final, caíram dos meus olhos lágrimas, de
comoção, surpresa, admiração, e respeito, quando disse:
- Desculpe a indiscrição, que idade você tem?
- Faço cem daqui a uns tempos!
- Sério, que idade?
- Cem, é mesmo, cem no próximo mês!
E desabei, mais umas palavras, e despedimo-nos comigo a
desejar aos dois muita saúde.
Mãe natureza, me perdoa, mas dares-me a mim igual
destino, não seria prémio, seria castigo, deixa-me ir pelas minhas pernas, sem
muletas, sem cadeiras, sem ser algum dia o fardo de alguém que não o meu
próprio.


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