Eu sou do tempo...!

 




Eu e sou de um tempo em que se apelava ao fim de uma guerra, ou de várias, que faziam o mundo morrer de fome.

Cantava-se para parar a fome na Somália, enquanto as imagens de mães que rasgavam as veias com os dentes para dar de beber aos seus filhos sequiosos, ou de corpos moribundos como pratos para os abutres da natureza limparem, ou outros que poderiam ganhar a vida como exemplo de estudo do esqueleto humano tal era a depressão da sua carne, desculpem, pele que contornava um esqueleto demasiado débil.

 

Democracia com fome, sem educação e saúde para a maioria, é uma concha vazia” (Nelson Mandela)

 

Eu sou desse tempo!

Por isso a guerra para mim não é novidade, pelo menos aos olhos. Sou do tempo que a pretexto de alegadas armas, e ou de salvar o mundo de tiranos com piscinas de petróleo se declarou guerra e os nossos noticiários eram invadidos quase numa atitude folclórica de entretenimento com imagens de misseis que rasgavam o céu, e depois da bola de fogo faziam uma vénia e apresentavam a destruição e a morte. Sun Tzu militar e filosofo disse que “energia é o que tensiona o arco; decisão é o que solta a flecha.”, seja, o mundo ocidental o capitalismo voraz, a sede do petróleo que não se bebe, soltou a flecha da guerra, e olhamos, distantes, para a morte como um show de pirotecnia, afinal de contas era lá, longe, numa realidade que não nos tocava, …será!?

 

A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar.” (Sun Tzu)

 

Confesso que agora aos 55 anos não estava mesmo nada à espera de me ver confrontado com a imagem de uma guerra que escuto aqui e ali frases de desvalorização sobre o fato, é afinal na Ucrânia lá, nos países de leste, mas depois no mesmo discurso lamentam apenas que a sua vidinha está mais cara, o sentimento de toda uma sociedade ser desventrada apenas porque sim, porque alguém mal f...dido assim decidiu, parece ser uma questão perdida no vaco, o que importa mesmo é que o pão está mais caro.

 

Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus” (Albert Einstein)

 

Não podemos dizer que não estávamos à espera de uma guerra, afinal fomos todos preparados nesse sentido, foram aos milhares aqueles que montados num patinho de borracha tentaram atravessar um oceano na expectativa de que mesmo preso por ser ilegal, era melhor que escapar a uma rajada de morteiro, e nessa ânsia foram demais os que padeceram não ao agreste das ondas, mas antes à devastadora inoperância de um mundo dito civilizado.

 

Quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem.” (Jean-Paul Sartre)

 

E mesmo perante essa corrida sem destino que não fosse andar em frente, houve quem se incomoda-se com a imagem que lhe invadia a tosta de caviar, num aperitivo, mais um, antes da refeição principal, lia-se algures algo assim: “tem de passar estas imagens à hora da refeição?”, não se tinha, mas sei que os protagonistas das tais imagens não se lembram da ultima refeição que haviam tido, e mal podem pensar na próxima, tal era o seu apetite …por liberdade.

 

Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.” (Audre Lorde)

 

A liberdade que nós aqui gozamos é uma ilusão, nenhum de nós é realmente livre enquanto viver com medo, e não é medo das sombras, basta o medo de não saber se consegue pagar as contas no fim do mês, medo de sair na noite para um copo com os amigos, medo de deixar a sua descendência ir para a escola sozinho, …medo que aquela guerra ali para os lados do leste chegue aqui e tudo acabe, deixando de ser mais um problema dos outros, mas antes nosso, tarde demais quando pensarmos assim porque a carne já nos cai dos ossos.

 

Para ouvir o coração de um povo não precisa ser médico, basta ter um coração” (Che Guevara)

 

As guerras podem vir de todo lado, do vizinho que acordou menos bem, ao que legalmente se impõe iluminando a iliteracia de um povo, cantando-lhe ao ouvido o que esse povo quer ouvir, outros o fizeram antes, apontaram na direção do bode, e o povo gritou queimem o bode, e legitimamente o bode foi queimado. Tivemos neste mundo acidental experiencias menos boas desse segredo conhecido, no Brasil, nos EUA, na Itália, e sussurros constantes, repetidos na França, vejamos Espanha centremo-nos aqui na terra lusa onde o sussurro é mastigado lentamente, e que se nos distrairmos seremos vitimas de nós mesmos.

 

Nunca se esqueça que tudo o que Hitler fez na Alemanha era legal” (Martin Luther King Jr)

 

Como é possível chorar ao escutar em unisse o cantar de uma multidão num qualquer concerto, ou numa multidão que na rua se manifesta em massa contra a guerra, ou perante mais um nascimento, mais uma vida chegada a este mundo dilacerado, mas choro, e muito, acreditem!

Pouco mais de meio século de existência eu esperava celebrar os nascimentos, e pensar nas minhas caminhadas, viagens, idas aqui e ali, como momentos de aprendizagem, convívio com culturas e saberes diferentes dos meus, LIVRE, por isso sem medos de ser roubado, torturado, assassinado apenas porque sim, porque alguém precisa dos meus sapatos, …não esperava aos 55 anos ter de viver em constante alerta, porque a minha liberdade não chega a todos, e um pouco por todo o mundo existem milhares, milhões e milhões presos na fome, no relento, na sua identidade,…

 

A paz é a maior arma para o desenvolvimento que qualquer povo pode ter” (Nelson Mandela)

 

Claro que desejo a paz, claro que desejo o fim da fome, claro que quero que todas as pessoas tenham uma vida digna, com um teto, educação, saúde, e sei que tudo isso já foi possível, porque a verba gasta na segunda guerra mundial em armamento de toda a espécie, dava para salvar o mundo, dando a todos uma casa, saúde, educação e mais.

Mas a parca sabedoria que a vida me deu, (mesmo que saibamos muito, nunca saberemos tudo), diz-me para não ser ingénuo, porque o ser humano parece mais disposto para o ódio do para o amor.

Sintam este texto como um desabafo, uma reflexão, e votos de que sejamos mais, cada vez mais a construir do que a destruir, e termino de novo com “Madiba”

 

 

Ser pela liberdade não +e apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros” (Nelson Mandela)

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