(foto durante as filmagens)

Decidi que este texto fosse ainda mais pessoal, fosse até de certa forma um agradecimento, ou vários!

 

A vida tem sido de uma generosidade comigo que me deixa num lugar de grande humildade, sendo que a esta generosidade eu respondo sempre, que “tenho mais do que talvez mereça, e muito menos do que aquilo que desejo” porque na verdade me conheço e sei que não sou um ser fácil, (pelo menos de vez em quando), mas também sei e conheço a dimensão das minhas ambições e sonhos, que mais que me servirem a mim, serviriam tanta gente, mas tanta gente.

 

Nesta generosidade da vida estão as pessoas que conheci ao longo destes anos, muitas delas se calhar dispensava alguma vez ter trocado com elas se quer um bom dia, com outras lamento não as conhecer há mais tempo, dada a sua abundancia e por isso a riqueza que acrescentaram à minha vida, mas a vida é mesmo assim, uma espécie de rio que corre sem parar, com ondulações várias provocadas pelas encostas, e pelos leitos mais ou menos regulares, e uma vez o rio salta em alvoroço outras segue suave, é a vida.

 

Não serão muitas, mas são algumas, que pela sua personalidade, pelos afazeres que desempenham nas suas vidas, mas também pelas partilhas que fizeram comigo dos seus sonhos e que muito me honra a sua confiança, me arrebataram, e talvez mesmo sem querer me incluíram nesses seus desejos, sonhos, expectativas.

 

De entre todas essas pessoas hoje destaco uma senhora, uma força da natureza, que dada a sua idade avançada seria se esperar vê-la relaxada num qualquer sofá, mas é mais fácil encontra-la de pleno pulmão a marchar algures numa qualquer Marcha de defesa dos Direitos Humanos.

 

Imortalizada pela objetiva de muitos, é na verdade a objetiva de Jorge Pelicano que faz dela figura pública, no filme documentário “Até que o porno nos separe” onde ela é a mãe sofrida que descobre que o seu filho (Sydney) é ator porno, a viver num país distante, …não vou contar o filme, procurem e vejam por vocês mesmos, como sempre um excelente trabalho de Jorge Pelicano a não perder.

 

Conheci esta Senhora, claro está com S grande, nas minhas andanças ativistas, e foi amor à primeira vista, sendo que posteriormente tive oportunidade de trabalhar ao seu lado, numa associação de apoio aos sem abrigo, e foi nas nossas deslocações entre casa e a ação, e na volta, que pôde conhecer mais em pormenor este ser humano extraordinário.

 

Mulher menina ainda, tinha 13 anos quando agitou as águas do seu bairro na defesa dos direitos dos moradores perante as investidas desmedidas dos serviços camarários, mais à frente volta à carga inibindo os serviços de novo camarários de colher a fruta existente nas arvores de fruto que davam sombra às ruas do bairro, e que era levada alegadamente para as chefias camarárias enquanto o povo não tinha acesso a uma alimentação variada e de qualidade. Ativista contra a violência domestica num contexto que aqui não desvendo, não se inibiu de enfrentar o agressor em defesa da vitima.

Enquanto elemento dessa associação, dinamizou os seus conhecimentos no sentido de aumentar a nossa oferta às pessoas em condição de sem abrigo, e juntos nós e restante equipa, fomos felizes por ajudar, porque na verdade quer eu quer ela concordamos que na verdade quem estávamos a ajudar era a nós mesmos, dado que recebemos muito mais que aquilo que damos,…vou contar-vos um relato curtinho.

- Quando iniciamos estas andanças de apoiar pessoas em situação de sem abrigo, levamos a minha carrinha cheia de roupa na mala e sentados cinco inexperientes algo nervosos e ou excitados ao pensar quando lá chegarmos como fazemos? Na volta e depois da missão cumprida um amigo e companheiro nessas andanças disse: - Parece que a carrinha vai mais cheia do que quando vínhamos para cá!

Não percebi logo, nem eu nem ninguém, mas depois demos conta, …os nossos egos, o nosso coração, o nosso espírito tinha recebido mais que aquilo que havíamos deixado.

 

Voltando à minha homenageada de hoje, por vontade desta extraordinária pessoa, teríamos enquanto associação chegado bem longe, as mais de seis décadas de existência que lhe martirizam o corpo em nada lhe impedem a mente de aprender, partilhar saber, e energia que é contagiante e que leva os mais novos a refletir que se ela pode então também nós podemos.

 

O seu nome, Eulália Almeida, sessenta e alguns anos, mãe, avó, ativista desde sempre, com e sem filiação, rosto conhecido da AMPLOS Porto, um ser humano de um coração imenso, e sem papas na língua, de quem tenho o imenso prazer, honra e com um sentimento elevado de humildade de me considerar seu amigo.

A vida desta senhora dava um filme, que teria muita ação, também muitas lágrimas, porque esta estrada, como aquela que eu e ela fizemos muitas vezes entre sua casa e o Aleixo local onde prestávamos o nosso auxilio, tem risos, mas também muitas lágrimas, porque a vida é uma montanha russa, com altos e baixos, muitos deles abruptos.

 

De coração cheio, meu amor, deixo-te aqui publicamente um beijo enorme nesse teu coração imenso!

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