São balas, facadas, veneno, silencioso que mata!
Duas obras da sétima arte que estes dias tive oportunidade de visionar, que me arrebataram, confirmando muita da minha teoria do dano do amor, “A Man Called Otto” e ontem mesmo “The Whale”.
Este sentimento capaz de derrubar todas as barreiras, com o poder de
terminar guerras ou então começá-las, deixa qualquer ser humano menos amargo,
mas ao mesmo tempo pode matá-lo ruidosa ou silenciosamente.
Quantas vezes quando falamos de gente amarga, demasiado preocupada com a felicidade
alheia, as apelidamos de “gente mal amada”, que a meu ver faz todo o sentido,
afinal quem está de bem com a vida, tende a ter menos tempo para se interessar
com a vida alheia, e mais que isso, tende a ficar feliz por mais pessoas em seu
redor estarem felizes, e não o contrário, seja, não andam a puxar ninguém para
baixo.
Penso que não há muito a dizer sobre a capacidade de Tom Hankes, se bem que
sou suspeito. A sua capacidade de se reinventar é a meu ver extraordinária, desde um
seropositivo em “Philadelphia” a um mentalmente desarrumado em “Cast Away”, sem
falarmos em “Forrest Gump”, Hanks é um camaleão interpretativo na minha opinião, de excelente qualidade. Parece que cada história contada por ele, fica mais bem
contada, e Otto não foge à regra.
Um sujeito de uma personalidade difícil, esta foi atenuada, aligeirada,
durando o tempo em que amou e foi amado, pela sua esposa “Sonya” interpretado pela
atriz, Rachel Keller. Mas o mundo é um organismo em movimento, e Sonya morre, e
Otto perde o filtro, tornando-se “O Pior Vizinho do Mundo”, o titulo dado no
Brasil, e que assenta que nem uma luva. Otto é absorvido por um conjunto de
regras, que comandam a sua vida, o cãozinho que urina onde quer é errado, a rua
tem uma grade, é preciso fechar quando se abre, e só anda na rua quem é da rua,
e… é todo um foco que exterioriza a sua amargura por viver uma existência sem o
amor da sua vida, o Adeus não fazia parte dos seus planos, e parece que o mundo tem
de pagar por isso.
Não sou fã do ator Brendan Fraser, mas não lhe nego o mérito no papel de
Charlie, em “The Whale”, onde interpreta uma pessoa homossexual, que perdeu o
seu amor (Dan) para um mix de religião e desamor do progenitor, também pastor
da referida religião.
Diferente a conceção desta personagem em relação a Otto, logo à partida porque
Charlie é viúvo de um amor “proibido”, onde parece que até a dor, o choro, o
sofrimento da perda lhe é proibido.
Charlie refugia-se na comida e atinge um volume e um peso que lhe limita os
movimentos, ele é uma pessoa “overweight”, e isso trás consigo uma vergonha
imensa, a ponto de não abrir a porta ao entregador de comida, ou ligar a câmara do computador enquanto ministra um curso de escrita online, Charlie está preso mais que no seu imenso
corpo, na sua imensa dor e sentimento de culpa, e digo culpa porque ele repete incessantemente
“i’m sorry” a todos quantos os querem ajudar, mas ele recusa, ele quer partir,
na esperança de que exista vida para além da morte e se possa encontrar com o
seu amor.
O amor como o conhecemos é capaz de nos por em forma, empurra-nos fora da cama, sermos saudáveis para
cuidar de quem amamos, parece prioridade, o amor pelo outro é maior que nós, e
por isso quando ele parte, ficamos sem estrutura, sem alicerce, sem chão, ...quando
assim é, é como se fôssemos engolidos pela terra num terramoto muito para lá
de Richter.
Contudo as semelhanças ficam aqui mesmo, ambos sufocam, cada um do seu jeito, à partida dos seus amores, mas enquanto Otto usa a rua para exteriorizar a sua raiva, e fala abertamente de um amor que tinha e não tem mais, Charlie está encarcerado na sua casa, no seu sofá, por de trás de uma câmara desligada, e o seu mundo resume-se à sua amiga e cunhada, que usa os seus conhecimento académicos de enfermagem para minimizar o sofrimento da carne de Charlie.
Charlie é uma personagem
sufocante, onde os seus gritos silenciosos nos trespassam durante todo o filme.
Penso no entanto que as duas obras primas, tem uma (entre tantas) mensagem
comum, …AMEM quem vos ama, e amem muito, digam-no todos os dias, se calhar
várias vezes ao dia, para que a dor da partida seja insuportavelmente apenas essa, e não
acrescida de todas as vezes que gostaríamos de ter dito AMO-TE, mas calamos por
todas as razões parvas e nenhuma!
AMO-TE meu amor, AMO-VOS meus amigos, ...até os que não conheço!

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