Foi um domingo, e a FOX pensou num filme para entreter os seus clientes, a família portanto, uma vez que é domingo. Poderia ter sido “Música no Coração”, com a Julie Andrews a saltitar prado fora, mas talvez fosse, quem sabe, muito forte para um domingo em família, e então escolheram algo mais soft, o Jocker.
Enquanto não era domingo, a FOX anunciava o filmaço, e eu comentava com o marido que não ia ver, porque o filme é de uma violência atroz a vários níveis, contudo e quando já era domingo, estava eu a vegetar no sofá quando no zapping ali estava ele já a meio. Não resisti puxei atrás e vi o dito desde o início, e munido de um bloco de notas improvisado, onde fui tomando notas como estas:
- saúde mental
- vicio do percurso
- elos de ligação
- impunidade da agressão de classe (I, II)
- delírio do bailado
- mãe presa, casa, ignorância
- não somos nós, és tu
- abuso de poder, ignorar
- quem fez isto?
Quase dez notas (pouco) num filme perturbador, onde decerto havia muito mais para anotar, mas gente o filme toma-me de tal forma, que acabo entrando no filme e fico preso por lá.
Saúde Mental
O desespero com que as doenças mentais com maior ou menor limitação das ações diárias são tratadas, é desesperante para quem as tem e precisa lidar com elas no sentido de obter alguma funcionalidade e sobreviver a uma sociedade NADA preparada para lidar com estas e outras pessoas.
Junta-se a esse fato o (des)investimento feito (ou não) pelos diferentes governos no sentido de apoiar utentes e seus cuidadores nesse processo de sobrevivência, procurando que esses utentes tenham uma vida com a maior dignidade possível, isto tendo em conta as suas limitações, e já agora não sou eu quem o diz (apenas faço coro), é por exemplo Hernâni Carvalho, Jornalista: “ A saúde mental em Portugal, é tratada com os pés!”, quando é.
Observando o ciclo de entrevistas do jocker com a assistente social, que talvez o escute ou apenas o ouça, e que serve de ponte para uma medicação que funciona como rédeas do sistema para a manutenção da paz social, é confrangedor observar que o nosso Jocker não é a única pessoa dispensável num sistema de números sem rostos, sem vidas, que dispensa a assistente social, e quebra assim as linhas ténues de uma alegada harmonia.
Quase podemos (se quisermos) imaginar a degradação intelectual e de saúde também da assistente social, agora sem trabalho.
Vicio do percurso
Chamei-lhe assim, para me referir às rotinas que de alguma forma estabelecem funcionalidades, que permitem as engrenagens sociais se manterem relativamente lubrificadas, numa harmonia funcional, intelectual, psicológica, manobrada com e por outras interações tidas entre aqueles que fazem parte da nossa pauta, e na forma como circulamos nos espaços, estes tornam-se parte desse nosso (des)equilíbrio, débil por vezes, mas muitas vezes o único possível. As mesmas ruas, as mesmas lojas, os mesmos passos repetidos uma e outra vez.
Estes movimentos funcionam como adição a uma droga, a mesma que permite uma imagem de sobrevivência, ao Jocker, as drogas que a assistente social conseguia depois de cada visita.
Elos de Ligação
Nessa droga reside ainda o que chamo de elos de ligação, ou seja, os cuidados com a mãe, as idas á assistente social, o trabalho, todas ações que servem como fio terra, mesmo que precário, mesmo perante descargas, como os espancamentos, o roubo do cartaz, ou a adversidade das pessoas com a sua patologia (Sindrome Pseudobulbar), mesmo perante tudo isso os pés mantem-se no chão, e as desculpas na ponta da língua.
Porem quando estas ligações se desfazem, é despedido, o serviço de assistência é desmantelado e a assistente social despedida, a morte da mãe, fazem esse frágil equilíbrio descarrilar e tudo tem o seu aos quando Robert De’Niro aka Frank Murray goza no seu programa com a atuação falhada de Jocker num clube de humor, e desta forma Murray torna-se o padrinho desta personagem, batizando-o, com o nome que dá título ao filme.
Jocker deixa de ter amarras e tal como um navio sem leme ele fica à deriva, contudo um à deriva aparente uma vez que na sua mente cria-se um caminho de resposta e vingança por lhe roubarem em diferentes dimensões esse equilíbrio. O sistema seja ele qual for, todos os pontos de equilíbrio se desprendem brusca e violentamente, afinal ele não é filho de quem a sua mãe dizia ser.
A impunidade da agressão de classe (I)
Jocker está numa corrida vertiginosa para o fundo, ou para o topo da loucura, sem eira nem beira, enfrenta uma agressão perpetrada por três jovens brancos de classe alta a uma jovem negra. O nervosismo que lhe provoca o exteriorizar da sua patologia de forma extravagante, expõe-se.
Salva a jovem da atenção dos três jovens, que recai sobre ele, e numa ação de agressão sobre si, o Jocker mata a tiro os três jovens, e dá-se as pancadas de Moliére, dá-se o primeiro ato, o cidadão estar prestar a dar á luz o Jocker.
Nas noticias sobre o incidente o Jocker é acusado de cobarde porque se esconde atrás de uma caraterização, enquanto é enaltecida a memória dos três jovens, sendo-lhes atribuídas personalidades imaculadas, pessoas de uma integridade sem reparo, e por isso não merecedores de tão medonho fim. Não vou tecer considerações nesse sentido, contudo esta situação leva-nos a uma outra.
A mãe presa numa casa, ignorância
A debilidade da mãe não é apenas física, mas também cognitiva, e embora esta ultima seja de fato patológica, a verdade é que a sua mãe é o exemplo do consumo tóxico das noticias, dos programas de entretenimento onde se atribui aos seus protagonistas o dom da verdade, da pureza, da sapiência, tornando quem os assiste em pessoas alienadas, incapazes de fazer uma leitura critica no intervalo das linhas, de perceber os guiãos, as ironias, os esquemas consumistas, deixando-se embriagar e assumir a fantasia (o guião) como realidade.
Impunidade da agressão de classe (II)
Voltando atrás nas minhas notas e no filme, esta rubrica é exemplo de um sistema fazedor de Jockers. Como dizia antes, as notícias sobre o homicídio dos três jovens pelo Jocker (ainda cidadão) no metro, pintam três jovens portadores de uma respeitabilidade, de um caráter irrepreensível, sendo que na verdade não é o que observamos.
Primeiro os três jovens parecem visivelmente intoxicados com alguma substancia (ou apenas pela estupidez, e impunidade), depois são opressores, agressivos, comportam-se como bullys, uma ação que faz desencadear os risos incontroláveis do Jocker que absorvido pelo ataque de riso, se vê impossibilitado de expressar-se e comunicar que se trata de uma patologia, como tinha feito no autocarro, os três jovens, de bem, resolvem que a melhor forma de lidar com a situação é espancar violentamente o ainda cidadão Jocker.
Qualquer pessoa na vida real, que visse as notícias em casa, sem ter assistido ao que assistimos, estaria com o raciocínio noticioso, ou seja, Jocker delinquente, jovens inocentes, o que perante isto nos leva a refletir sobre a importância de observarmos as noticias e outros veículos de informação por diferentes ângulos, e sempre com um sentido critico, e abertos a novas leituras, porque em casa, e perante um noticiário NUNCA temos toda a informação, e a que temos passou num crivo que poderá ser mais ou menos perverso.
Este tipo de lavagem, cria diferentes leituras, por parte das diferentes classes sociais, e parte dessas classes olha o incidente como um ato de retaliação perante o caos socioeconómico que se vive no filme, enquanto outras vêm como uma agressão sem sentido.
A impunidade a que me refiro no título da rubrica, é aquela que é exteriorizada com o exortar das personalidades imaculadas dos três jovens mortos, dos três jovens agressores, delinquentes, mantendo mesmo que incorrendo numa inverdade, a imagem de que quem habita as classes sociais altas são pessoas integras e não bullys, delinquentes.
O Delírio do bailado
Após este seu primeiro ato exorcista, o Jocker refugia-se num WC público. Ele primeiro foge porque o cidadão Jocker reconhece o ato como errado, mesmo que temporariamente, mas no WC, o seu consciente e inconsciente executam um bailado de reconhecimento de que é possível responder também de forma violenta à violência, é um bailado comemorativo da morte do cidadão e do parto violento do Jocker.
É nesta dança que o cidadão Jocker se despe do esforço que fazia para se encaixar numa sociedade de normas, talvez demasiado espartilhadas, e se torna num outsider dessas normas em falência, revelando um Jocker revoltado, sem filtro, louco se quisermos, mas será que é?
Não somos nós, és tu
– ou –
“Shut up freek, this is not funy, the ciy is on fire”
Depois de o já Jocker assassinar em direto Murray, ele é detido e vai no carro da polícia a caminho da esquadra, no percurso observa babado a rebelião levada a cabo por palhaços, jockers como ele, realizando o que já havia percebido antes de que a imagem do Jocker, a cara do palhaço, que fará paralelo com a mascara do Anónimos, se tornou num símbolo de diversas revoluções, são a imagem do descontentamento de uma sociedade reduzida a números sem rostos, sem vidas. Jocker com o assassinato dos três jovens no metro passou o testemunho à restante população oprimida, precária, a ideia da possibilidade de reposta, junta-se a este fato a situação de até ao assassinato de Murray em direto, nunca ter sido descoberto, sendo-lhe atribuído o título de justiceiro, e ele ao perceber isso ri mesmo que suavemente.
Seja a própria polícia alienada talvez pelos códigos de uma conduta profissional, talvez absorvida, incapaz de ler para lá do protocolo, não reconhece o desvario que o poder financeiro e político criou, deixando uma enorme massa humana desprovida da possibilidade de sobreviver com dignidade onde o benefício foi absorvido pelo custo, seja, para quê pagar, mesmo que precariamente a alguém (assistente social) para manter o desequilíbrio minimamente equilibrado?
Depois de o já Jocker assassinar em direto Murray, ele é detido e vai no carro da polícia a caminho da esquadra, no percurso observa babado a rebelião levada a cabo por palhaços, jockers como ele, realizando o que já havia percebido antes de que a imagem do Jocker, a cara do palhaço, que fará paralelo com a mascara do Anónimos, se tornou num símbolo de diversas revoluções, são a imagem do descontentamento de uma sociedade reduzida a números sem rostos, sem vidas. Jocker com o assassinato dos três jovens no metro passou o testemunho à restante população oprimida, precária, a ideia da possibilidade de reposta, junta-se a este fato a situação de até ao assassinato de Murray em direto, nunca ter sido descoberto, sendo-lhe atribuído o título de justiceiro, e ele ao perceber isso ri mesmo que suavemente.
Seja a própria polícia alienada talvez pelos códigos de uma conduta profissional, talvez absorvida, incapaz de ler para lá do protocolo, não reconhece o desvario que o poder financeiro e político criou, deixando uma enorme massa humana desprovida da possibilidade de sobreviver com dignidade onde o benefício foi absorvido pelo custo, seja, para quê pagar, mesmo que precariamente a alguém (assistente social) para manter o desequilíbrio minimamente equilibrado?
Abuso do poder, ignorar
O poder grande parte das vezes corrompe, que o diga nomeadamente os nossos políticos (PT e no mundo) de um espetro ao outro. O que ontem defendem, hoje não é prioritário, o que ontem diziam fazer, hoje precisam relativizar. Hoje temos de nos conter com mais uma desilusão, uma mentira e uma opressão imposta por um poder político escravo do poder financeiro.
A verdade é que um não vive sem o outro, numa economia cada vez mais global, uma diretiva política pode fazer deslocar um forte tecido empresarial para outro país, e um país sem empresas colapsa, logo, a rédea é curta, aquela com que políticos adestram o poder financeiro/empresarial.
Assim esse abuso de poder que falo, não é um abuso provindo de um só lado, ele tem como num assalto quem rouba e quem vigia a chegada da autoridade. Uns criam leis, normas, que permitem os outros executar essa opressão, e ao abrigo da lei escravizar a mão de obra, do povo, dos que dependem do seu trabalho para sobreviver.
É desta forma que o título desta rubrica se explica, ou seja, quando digo que o poder abusa, é no sentido que vale tudo e qualquer coisa para enriquecer, ignorando as dificuldades de quem submetem, oprimem, ou como disse antes, escravizam, os escravos do século XXI.
Quem fez isto?
Esta é a questão, para mim pelo menos, esta é a verdadeira questão, quem?
Quem produz os Jockers da nossa sociedade?
Parece até que vos ouço dizer de pleno pulmão, que são os ricos e os políticos!
Lamento, no entanto, desapontá-los, mas não, na verdade quem produz e ou se preferirem, deixa que se produza os jockers somos nós, nós quase todos.
E vocês retaliam, dizendo, que não é bem assim, o que é que nós podemos fazer, se são sempre os mesmos!?
Errado, de novo!
Quem elege os governos?
Quem trabalha nas fábricas?
Isso mesmo, nós! A grande massa social.
Sabem quando damos espaço á criação de jockers?
Quando ficamos em casa, vamos para o shopping ou para a praia porque a greve, a manifestação que está na rua, dizemos, não é connosco, é com ou para os…
Querem saber quem é para mim o mais poderoso, entre as profissões do século XX/XXI? O lixeiro, o varredor ou aquele que recolhe o lixo.
Não acreditam?
Olhemos um pouco o passado recente, quando a recolha de lixo em Lisboa este em greve. Três dias depois já havia artérias da cidade que era difícil circular de carro e complicado fazê-lo a pé. Eram já os cidadãos, aqueles que achavam que a greve não tinha nada a ver com eles, que exigiam do Governo uma tomada de posição para resolver o impasse.
Os lixeiros que a maioria finge não ver, e ou prefere ignorar estes corretores da falta de civismo de alguns, que num protesto deixaram Lisboa quase de joelhos. Mas tem outra profissão com enorme poder e que em várias ocasiões mostrou o seu poder, os camionistas, transporte de mercadorias, eles param e as prateleiras dos supermercados ficam vazias num ápice, dão-se os açambarcamentos, o racionamento, a escassez, a fome, a revolta.
O problema é que para isto funcionar é preciso um esquema, planeamento, estratégia. As famílias dos lixeiros, dos camionistas precisam pagar contas como toda a gente e se não houver todo um esquema montado estas pessoas não sobrevivem muito tempo paradas, e depois tem o problema das represálias, e depois as ambições políticas de alguns acima de tudo tem o ego, o pensamento egoísta acima do pensamento do grupo, o que leva a lutas isoladas, ao desespero, a uma alegada loucura, ao Jocker.
Em Portugal eventualmente, tem-nos salvo a questão de uma cultura social daquilo que chamamos “brandos costumes”, lá nos vamos lamentando, e mais que aspirar subir queremos que os outros desçam, para experimentarem o nosso (sobre)viver.
Olhem um exemplo recente. Acham mesmo que faz sentido que o gasóleo esteja mais caro, ou tão caro como a gasolina? Claro que não, a produção de gasóleo precisa de muito menos laboração química que a gasolina no sentido de obter um produto de combustão automóvel, logo deve ser mais barato.
Dizem que poluem mais, o que poderá ser verdade, e que será para convidar as pessoas a obter o elétrico ou o híbrido, o que não passa de uma mentira descarada, porque que tipo de incentivos, motivações, sérias estão em marcha para se pensar em adquirir um desses veículos?
Já alguém teve coragem de falar da pegada ecológica provocada pela produção de um carro elétrico? Já alguém teve a decência de dizer o que fazem com as baterias mortas?
O veículo elétrico é um empurrar com a barriga um problema, de sobrevivência do planeta e enquanto isso lucrar, e lucrar mesmo MUITO. Deixa de ser um problema dos pais para se tornar num problema dos filhos, seja a história repete-se.
Parece os “novos” políticos que anunciam com grandes parangonas que reduzindo ao número de políticos teremos mais pensões, melhores salários, sério? E se assim é porque é que ao invés de criarem um novo partido, AUMENTANDO ao número de políticos, não realizaram um movimento cívico para reivindicar essa solução miraculosa mesmo que falaciosa.
O dito é antigo, mas penso que nunca esteve tão atual, “nem tudo que brilha é ouro”, e mais que nunca o cidadão, as pessoas, precisam estar atentas para não comerem “gato por lebre”.
Assim quem cria e ou deixa criar os Jockers da sociedade é a passividade de um povo, o preocupar da minha luta e não das NOSSAS lutas, a sociedade, o sistema é um todo, tal como um polvo precisa dos seus oito tentáculos, o sistema precisa de todos e cada um para funcionar.
Não há pobre sem ricos nem vice-versa, não há preto sem branco, nem silencio sem ruido.
Mais que um dever é obrigação, sentido de responsabilidade, estarmos nas lutas uns dos outros, no sentido de puxarmos todos para cima, evitando ou impedindo que quem quer que seja, seja empurrado para baixo
Temos de ler bem nas entrelinhas das notícias que nos contam, devemos exigir todos os dias dos políticos eleitos, e permanecermos em alerta prontos para atuar no sentido de corrigir abusos.
O sistema não é uma coisa abstrata, o sistema somos todos nós, por isso e se presamos a nossa liberdade, a vida que possuímos, mesmo que frágil, não podemos permitir que uma parte do sistema tenha espaço para criar Jockers.
(photo: DeviantArt)

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