“Heróis e Heroínas” de escaparate!
(photo composta, photo de Erica by MSN)
De facto a sociedade tem revelado alterações extraordinárias, umas positivas e outras duvidosas, das negativas penso não preciso falar, porque estão à vista, destruíram países (mesmo que parcialmente) e destroem até hoje outro(s) a todos os níveis, mas o assunto não é esse.
A Jovem que
estava a fazer stand up Paddle e foi arremessada mais de 40km adentro do vasto
oceano foi vitima de si mesma, eventualmente porque não conhece as regras,
talvez porque não tem por norma respeitar os sinais que a natureza
constantemente está a transmitir, ou simplesmente por estupidez, coisa comum
nos dias de hoje.
Fui ouvindo aqui
e ali o desenrolar do evento, e confesso que fiquei sentido, não me imagino
40km dentro do mar durante uma noite, que mesmo que fosse de verão é sempre
fria, já para não falar de ondulação, vento noturno, e a fadiga, tudo junto
fica fácil ser derrubado da prancha, alem de a possibilidade de hipotermia.
Felizmente e ao que parece nada disto aconteceu com a Erika, e ela foi
resgatada no dia seguinte “sã” e salva.
Vou partilhar
convosco duas ou três situações que já atravessei na minha pratica deste
desporto: a primeira foi uma vez que tivemos alguma dificuldade em regressar à
margem devido ao vento que se levantou entretanto quando já regressávamos ao
ponto de partida. Estamos a falar de um rio (Douro) que devido ao vento tornou
a ondulação encrespada e estar de pé em cima da prancha dificultava remar “contra
a maré”. Devo adiantar que usamos sempre a prancha com dois conjuntos de remos,
um de paddle (uma pá) e outro de duas pás, usado com caiaques (canoagem),
precisamente para situações como esta que descrevo, onde sentado e a remar com
duas pás fica mais fácil (com o devido esforço) conduzir a prancha na direção e
na velocidade que pretendemos. Dito isto e nesta situação alguns decidimos
sentar e remar com duas pás, mas houve que conseguisse fazer o trajeto com uma
pá, seja de pé, em posição de paddle. Uma segunda situação foi até ver a única
vez que fizemos paddle no mar, em que fizemos o trajeto entre a praia de Matosinhos
e a Foz do lado de Gaia (Praia do Cabedelo) e volta. Na volta e quando saiamos
do Cabedelo reparamos que o debito do rio para o oceano tinha aumentado
relativamente, e por isso decidimos todos sentar e usar o remo de duas pás, com
indicação de remada vigorosa e até ao outro lado da foz do rio, mesmo assim
termos sito empurrados para fora de rota uns bons 15 a 20 metros, e os
pescadores ali no molhe a fazer apostas de qual de nós ia fazer o trans atlântico
ou cair à água.
Os dois casos que
acima cito foram em grupo, e todos tínhamos colete, e telemóveis, este ultimo
foi sozinho e no Douro, pouco depois de uns dias de chuva (muito recente este)
o rio estava aparentemente mais calmo e eu aproveitei para reiniciar a
atividade que esteve em stand by durante o inverno. Contudo e muito perto da
foz do Sousa estava eu a remar (2 pás, sentado) e a observar a margem quando reparo
que eu bem que remo, mas a prancha teima em andar para trás, ao que eu disse
(disse mesmo em voz alta): - Ok não queres que siga eu não sigo, bora lá
embora, desculpa fui!, (chamem-lhe palermice que para mim está tudo bem, mas eu
falo com a natureza).
Com esta ultima e
as outras duas situações, o que quero dizer é que alem de a Erika não dever
entrar no mar perto do fim do dia (é regra de prática) devia ter lido com
atenção o que a natureza lhe estava a comunicar, e devia ter sentado logo de imediato
e remar mesmo com uma pá (fazia tipo canoa de índio) para terra, e depois
navegar no mar ou onde quer que seja sem telele, sério gente!? Desculpem, mas
no meu vocabulário chama-se inconsciência, dela e dos paizinhos que estavam na
margem com jeitinho a tirar fotos à filhota.
Prontinho, está
aqui algum contexto da minha reflexão, seja, não sou uma espécie de treinador
de bancada, posso não ser um “experto”, mas não vou na onda só porque sim.
No meio de tanta noticia eis que se lê: “Jovem que esteve à deriva no mar no Algarve está
estável. "É uma heroína"“, confesso que de repente já estava a ver o
Homem-Aranha ou o Batman com um cartaz a gritar “herofake”, só que não.
Lembram-se
daquele jovem negro (falo da cor da pele de propósito) que escalou um prédio
para salvar um bebe que estava na eminencia de cair em França (penso que foi
França), esse é um herói.
Já ouviram falar
de Martin Luther King, Rosa Parks, Harvey Milk, ou Salgueiro Maia; Carolina Ângelo
Beatriz, e ou até na minha luta mais direta de Gonçalo Diniz, António Serzedelo,
Sérgio Vitorino e Jo Bernardo!? Terão eventualmente ouvido falar de alguns, eu
ouvi falar de todos, e esses são para mim os meus heróis, pessoas que deram o
corpo ás balas (em alguns dos casos literalmente) numa época em que as balas eram
reais e passiveis de serem disparadas, (não que não o sejam hoje, porque as
coisas melhoraram sim mas no papel), para vivermos hoje num mundo mais confortável,
mesmo que repleto de falências.
Desculpa Erika,
não nos conhecemos, mas não posso, porque também não quero, dizer isto de outra
forma, tu enquanto vitima direta, e os teus pais enquanto vitimas indiretas,
não são heróis nem aqui nem na lua, são só inconscientes, para não usar outro
adjetivo mais feio, que colocaram a vida da Erica em risco, e fizeram despender
de honorário público para resgatar essa inconsciência e falta de respeito pelas
regras do bom senso, no mínimo.
Mas a culpa não é
dos intervenientes, é antes de uma imprensa também ela em muitos casos vazia de
profissionalismo desesperada por vendas, que usa palavras, frases, com ênfase
para vender noticias enquanto ao mesmo tempo deturpam o sentido daquilo que escrevem
(Herói: Pessoa de grande coragem ou autora de grandes feitos.),
que feito extraordinário foi esse? Só se for o fato de ter sobrevivido uma
noite ao relento no meio do oceano, em cima de uma prancha de paddle sem cair,
mas isso não faz dela uma heroína, mas antes uma sobrevivente, o que levaria
para um título até mais tuga, e apelar à fé cristã, aqueça fé que salva da
desgraça, mas não impede a mesma: ““Jovem que esteve à deriva no mar no Algarve
está estável. "É uma sobrevivente".
Charles Chaplin
disse “se matarmos uma pessoa somos assassinos. Se matarmos milhões de homens,
celebram-nos como heróis”, hoje confeccionam-se heróis e reality shows onde o
verbo é o enxovalhar da língua de Camões, e atitude um atentado à educação e ao
civismo, premeia-se a estupidez escondendo feitos extraordinários que ocorrem
todos os dias por pessoas que nunca são notícia.
Herói para mim são
os pais e mães, as pessoas em geral que multiplicam 24 horas com esforço, numa
luta diária pela sobrevivência, não uma miúda que no total desrespeito pelas
regras e falta de consciência se atira mar adentro …Erika não é nenhuma heroína,
mas antes uma sobrevivente da sua própria inconsciência.
Disse!

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