O Poder dos lugares de poder!

 

                                                                    (photo: Mundo Educação - UOL)


Começo por salientar que não estou de lado nenhum, seja, não estou a incriminar Boaventura Sousa Santos, até porque ainda não acabei o curso, nem do lado das mulheres que nos últimos tempos se tem dado a conhecer como alegadas vítimas de assédio por parte do catedrático.

Mas estou do lado das pessoas que eventualmente queiram esclarecer, e aquelas que se queiram esclarecer, antes de dizerem alarvidades, sobre as alegadas vítimas, e já agora sobre o alegado abusador.

 

Os abusos em forma de assédio podem ter diversas nomenclaturas, e desenrolarem-se aos olhos de todos, mas mesmo assim invisíveis porque as relações humanas e em particular as latinas, tem contornos por vezes tão íntimos, sem o serem, que para nós enquanto sociedade latina não observamos negatividade no seu exercício, contudo, existem em determinadas relações, outras que antecedem as públicas e que são tudo menos consentidas e, se quer parte de um comportamento sociocultural, e a ser verdade as alegadas acusações, Boaventura devia saber disso melhor que ninguém.

 

Entre quatro paredes, durante a leitura de uma tese, um texto, um trabalho onde docente se apresenta como orientador e, discente como orientada, e quando esta ultima depende de uma bolsa, de um qualquer subsídio que financia um determinado projeto, então o orientador acrescenta ao seu poder de discente, outro, o poder de fazer continuar esta pessoa no projeto, de lhe tirar a bolsa, caso esta se insurja perante o docente, no caso de ele ter uma qualquer atitude, chamemos menos própria.

 

Dirá o comum dos mortais, paciência, haverá outros projetos e outras bolsas!’

 

Não é bem assim que se rege a vida de um estudante, ou de um investigador, ele precisa para chegar ao mercado de trabalho com valências que lhe permitam um lugar mais confortável, de cumprir tempos, prazos, e a sua vida não pode ser um salta em banco de projetos, bolsas, faculdades, porque a vida não espera.

Junta-se a isto, o fato de uma vez denunciado o docente, uma vez confrontado, a vida dessa estudante e ou investigadora enquanto tal pelo menos na tugolândia está minado, (desculpem a expressão). Diria mais ainda se o docente indiciado for do calibre de Boaventura Sousa Santos, catedrático com umas quantas obras publicadas que fazem parte da formação académica dos estudantes de Sociologia, pelo menos, o poder relacional com os seus pares é de tal ordem que como se diz no sermão “uma palavra sua e serei salvo” só que no caso será punida.

 

Não podemos nunca ser inocentes e achar que se fossemos nós, seria diferente, porque não o seria, a menos que desejássemos abdicar de toda uma vida de estudo, de sonhos, de objetivos, …gente do que a vida me ensinou, ou me tem ensinado, uma grande maioria nós não está disponível para colocar esses “goal” na gaveta, ou de viver feita truta a nadar contra a corrente, porque esta posição tem consequências desgastantes com implicações ao nível da saúde.

 

Assim e segundo o meu “Ponte de Vista” o problema está lá atrás, tão ao fundo que muitos terão eventualmente esquecido, obliterado das suas reflexões, e dando ao problema uma configuração mais contemporânea.

 

A educação é sabido que no seu inicio foi ministrada pela igreja, e quem tinha acesso a essa educação era uma casta muito especifica da sociedade, e é igualmente sabido (talvez menos), dos abusos vários, e nem falo dos sexuais, mas da violência, que muitos educadores infligiam aos estudantes, que à época canas da índia, palmatorias, orelhas de burro, e outros contorcionismos eram vistos por todos como “normais”, (está entre aspas porque não gosto da palavra normal, outro dia se quiserem explico), o problema é que quando deixou de ser “normal”, quem ainda usava dessas violências não foi nunca repreendido, chamado atenção, tão pouco enfrentou uma investigação e ou a justiça.

 

Como alguém já escreveu publicamente, uma coisa é convidar uma vez, e como resposta receber um não, outra é insistir no convite torcendo as palavras, muitas vezes, para não ser entendido como pressão, assim se comportam alguns indivíduos que acham merecer uma resposta que vá no sentido do seu babar, e muitas vezes não só se continua com alarves vários como lhe damos uns quantos adjetivos que se ouvem como facas, mas que porque detemos o poder continuamos na impunidade, …gente quem não conhece o poder do porteiro, um pequeno poder cheio de poder.

 

Dito isto, é natural que todo um sistema de poderes se tenha implementado e tomado por quem detém poder como capaz de abusar dos que abaixo na hierarquia a si estão subjugados, e esse poder tem consequências por vezes devastadoras sobre as pessoas abusadas, e se é bem que as coisas mudaram, e hoje estas denuncias tem pernas para andar, a verdade é que elas, demasiadas vezes, só chegam á luz do dia anos depois de terem acontecido, dificultando investigações, e apuramentos da verdade, mas a serem verdadeiras, o dano está feito, e como disse, por vezes, demasiadas vezes, sem reparo, tornando-se num sentimento que é revivido uma e outra vez até nos atos inocentes de carinho de um amigo, e ou até dos seus companheiros (e companheiras, não se julgue ser um exclusivo das mulheres, embora sejam estas a vastíssima maioria).

 

Assim e em jeito de remate, não desejo mal a nenhuma das partes envolvidas, mas desejo vigorosamente que seja possível apurar a verdade e exemplarmente castigada a parte abusadora, no sentido de incentivar a todos uma convivência na base do respeito mútuo, porque só assim seremos todos pessoas livres.


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