Só damos valor ao que não temos!

 


São muitas as situações em que as pessoas se veem a contemplar valores alheios, ora a desejar ter igual, ora a desdenhar o que temos, ou até as duas situações em simultâneo, tipo “Aquilo é que é um carro, já eu, olha a lata que tenho!”, esquecendo que aquela lata custou a conseguir, e que todos os dias nos leva ao trabalho longe da chuva, do frio, das filas, dos apertos...

Somos cúmplices do desvario intelectual, mas ao mesmo tempo somos também vitimas,

Quem diz que não temos intelectuais de renome, com conhecimento digno de ser escutado, vejamos um dos mais conhecidos (penso eu de que) António Damásio, o neurocirurgião e investigador reconhecido mundialmente, e até à pouco tempo tínhamos um dos mais importantes médicos legistas e com certeza o mais importante no nosso país, o profº Pinto da Costa. Mas não nos ficamos por ai, por exemplo um dos outros vultos médicos é Doutor João Décio Ferreira, que enquanto cirurgião plástico desenvolveu uma técnica copiada hoje pelos seus pares, na redesignação de sexo, permitindo aos utentes obter prazer nas suas relações sexuais.

 

Estes três vultos que dentro das suas áreas de estudo eram e são referencias para os seus pares e investigadores além fronteiras, a verdade é que nacionalmente são pouco valorizados pelo público em geral.

 

Não podia deixar de vos contar sobre uma artista nacional, com uma voz extraordinária que quando surgiu foi apontada quer pelo público em geral, quer pela critica, falo-vos de Adelaide Ferreira.

A voz dos seus primeiros sucessos, “Bichos”; “Trânsito” e “Baby Suicida” todos de 1981, que embora andassem na boca de toda a gente, eram ao mesmo tempo motivo de chacota geral, e do que me lembro, a sua energia tinha nota negativa na critica. Depois de uma temporada a fazer as delicias das comunidades portuguesas pela Europa, a cantora volta vitoriosa a Portugal e é agora a voz revelação, sério!?

 

Quem não se lembra de António Variações, que hoje é um fenómeno académico, e elevado por todos como uma referencia musical única, mas que durante a sua existência era visto como excêntrico, e em medida desvalorizado, e ou usado então como um estandarte de uma alegada inclusão quer artística quer pessoal.

 

Assim no caminho destes abandonos, destas desvalorizações, acabamos a idolatrar artistas estrangeiros, pois tá claro, disponibilizamo-nos a pagar bem pelos seus concertos, mas pagar metade que seja pela prata da casa, é que já nem por isso.

 

Verdade que as coisas estão a mudar, serão mais ou menos recentes (arqueologicamente pelo menos 😊 ), os concertos de artistas tugas esgotados, terá eventualmente começado lá atrás com, Xutus; GNR, até Madredeus, para os mais antigos, lembrar-se-ão que Madredeus esgotava em minutos lá fora, no Japão (se na estou em erro) eram idolatrados, enquanto que em PT ainda as coisas iam de empurram, com algumas claras exceções.

 

Mas desengane-se aqueles que pensam que este espirito de valorizar o que não temos, é coisa tida apenas com indivíduos que estão longe do nosso alcance. Este comportamento repete-se quase que invariavelmente dentro de casa, no ceio da família, das pessoas amadas, ou alegadamente amadas.

 

- “Alegadamente amadas” JP, ou se ama ou não, certo!?

 

Pois, pois, tá claro, e que é o amar alguém?

Quantas vezes escutamos alguém comunicar “amo-te” a outra pessoa, mas depois o cozinhado da vizinha merece mais elogio que o bife com batatas fritas de quem se disse amar. E aqui cozinhado tem N significados, quantas pessoas mais que desvalorizar, simplesmente não realizam o que têm.

O verbo solta-se eufórico para elogiar o alheio, mas o silêncio é ensurdecedor sobre o que recheia a casa, a vida. Quem se diz amar, está ali, reservado para em momentos, de longe a longe, lançarmos charme, um verbo lindo, uma caricia,… espera as caricias estão presentes na forma de passar a mão, quando cruzamos e o espaço é apertado.

 

O desnível vai mais longe, as pessoas parecem sempre muito mais cansadas para com os que dizem amar, mas sempre disponíveis para quem admiram, e então o espaço entre afagos vários, fica cada vez mais largo. Mima-se com coisas, objetos, afinal se o capitalismo assim convida nós fazemos o que o sistema manda, e deixamos que nos troquem as voltas transformando amor em coisas. Mas também o tempo existente entre momentos, fica mais largo, porque as pessoas tem a ideia de que quem dizem amar é garantido, está ali, tão perto, mas tanto, que achamos que não precisamos verbalizar, afagar, amar com a luxuria que o Amor envolve quem se ama, …quem se diz amar.

 

Alguns dias atrás publiquei um daqueles quadros que a web disponibiliza concebidos por alguém que dizia: “sempre vai existir uma mulher mais bonita que a sua, ou um homem mais bonito que o seu. Quem casa com a “aparência”, descasa pelo mesmo motivo. O tempo passa, a idade chega, as pessoas engordam, adoecem, envelhecem. A flor mais bela também murcha, mas o amor permanece pra sempre”

 

Palavras sábias estas não!? Mas quantos não são os “amores” acomodados com os restos de um qualquer amor, venha ele como vier, num presente, num beijo, numa mão que afaga a pele num cruzamento de rotina, ou no sexo que não se sentia desde o mês passado, ou terá sido faz mais tempo? Perdem a conta do tempo, não por falta de como o contar, mas conta-lo magoa, e por isso tudo em volta passa a ter prioridade, até as coisas mais fúteis.

 

55 anos de vida não me dá a maior sabedoria do mundo, menos ainda a experiência de vida que me levaria à sapiência de um sábio, mas tem-me dado espaço para escutar historias de vida, umas mais apertadas que outras, de amores e desamores, de vidas desenhadas ao minuto e a lápis para dar oportunidade de o tempo, o ar e a humidade apagarem o verbo do sentimento.

 

Damos valor ao que não temos, até perdermos o que sempre tivemos, mas não cuidamos, e ai sentiremos que somos vitimas de nós mesmos.

 

Amem, mas amem de verdade, digam-no repetidamente porque nunca é demais, mas também abracem, afaguem, exercitem a luxuria dos corpos das mais variadas formas, para quando as pessoas que amamos partirem sentirmos saudade do que fizemos, e não o vazio do que queríamos ter feito!


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