Vale tudo no “Pinkwashing”, …se preciso vender a avó!
(photo by: ReportOUT)
O movimento LGBT+, mas não só, tem um percurso marcado de sofrimento, e ele começa muito antes de ser caraterizado como tal, como um movimento.
Ser-se LGBT+ nos
anos pré 69 foi motivo de perseguição, agressões e mortes, impunidade dos
agressores, porque social e politicamente estas pessoas eram alvos a abater, e
esse abate era (ainda é em certas geografias do século XXI), socialmente aceite
27 de junho de
1969 dá-se Stonne Wall, e o mundo ocidental, dito evoluído, inicia um processo
reivindicativo dos direitos das pessoas LGBT+, um processo que toma forma
pública em 1970, quando em 28 junho se realiza a primeira Marcha do Orgulho
lGbt, Christopher Day no EUA. Não foi por engano e ou é erro a forma como
escrevi a sigla (lGbt), porque esta luta como de certo tantas outras de outras
bandeiras, inicia-se contaminada pelo machismo, pela masculinidade estrutural
respirada até aos poros pela sociedade, e por isso mesmo quando tocou a reunir
houve lamentáveis erros que se realizaram e que perduraram demasiado tempo nos
anos que se seguiram, não é por acaso que a sigla era e foi GLBT, e olhando
registos fotográficos desse dia memorável existe apenas uma letra, uma palavra,
que se repete vezes sem conta GAY, GAY
PRIDE; Gay is good; Gay Liberation…
A toxidade do
macho está também presente na cultura LGBT+, tanto que assumir um papel passivo
numa ralação homossexual masculina, era (será que era, ainda não será) motivo
de rebaixamento, de diminuir a pessoa. Poderíamos até pensar num ato sexual
como uma luta de espadachim cada um com a sua gaita a bater na gaita do seu
namorado ou engate, …valha-me S. Christopher.
O movimento
cresceu, o movimento cresceu tanto que numa sociedade capitalista se tornou apetecível,
sendo olhado sempre com desdém, “cães de pelo na casa do vizinho a mim não me
incomoda”, este grupo social gostava de andar de terra em terra a acompanhar as
festividades, este grupo como todos os grupos, precisa comer, beber, viajar,
ter uma cama, e o capitalismo não tardou a olhar para este grupo como os olhos
do Tio Patinhas.
(photo by: Blog Eduardo Lamas Neiva)
Não faz muito
tempo que Portugal viveu uma situação idêntica, com outras cores. Um preto na
Louis Vuitton, ou nem entrava, ou era perseguido fisicamente pelos
funcionários, mas assim que Angola explode financeiramente, exibindo ganhos
absurdos, um preto na Louis Vuitton significava dinheiro em caixa, mas desengane-se
quem acha que com isto acabou o racismo em Portugal, tal como os LGBT+ os
pretos passam a ser classificados, como de resto em toda a sociedade, por classe,
diz-me o que vestes dir-te-ei se te persigo ou não quando visitares a minha
loja.
Neste processo de
luta e consciencialização económica, houve de fato quem aprende-se alguma
coisa, e dentro da sua empresa implementou regras tendo em conta os seus
colaboradores LGBT+ (sejamos realistas LGB), mas no geral o que temos mais é
uma espécie de uma ação predatória, desde que paguem eu gosto de vocês do lado
de fora do muro da minha casa. E se pensamos que este processo é realizado
apenas por héteros homofóbicos estamos no mínimo a ser ingénuos para não dizer
ignorantes e estúpidos.
Pega-se numa
pessoa da comunidade, com sede de protagonismo e ou ascensão social e económica,
alicia-se essa pessoa para uma empresa, um partido de ídolo fascista, ou um Estado,
e essa pessoa surge na capa do prospeto promocional disponível para um determinado grupo dessa população desprovida de visão critica, e capacidade de ler nas entrelinhas, e
temos a festa feita, …um pequeno pormenor, não nos podemos esquecer de pintar o
nosso logotipo, mesmo que contrafeitos, com as cores do arco-íris, pelo menos no
mês de junho, dirão os empresários sem escrúpulos e as suas mascotes LGBT+, “façamos
um esforço, olhemos para as cifras esqueçamos aquela coisa da bandeira, é só este
mês”.
Não estamos todos
à venda, eu não estou à venda, nunca estive, e prefiro morar debaixo da ponte a
abdicar da minha dignidade, prefiro morrer a negar-me todo ou em parte. Eu sou
o João Paulo, que adora comer, relaxado no dress code umas vezes pimpão noutras,
que é branco, que é homossexual, que é ativista, que tem imensos defeitos e o
mesmo número de qualidades, eu sou isso e mais, e não posso em plena consciência
negar nenhum dos de mim.
Não posso
aplaudir uma empresa que financia (ou pretende financiar) um Pride, mas que despede
e ou penaliza de alguma forma as pessoas LGB suas colaboradoras, e ou se recusa
apenas baseado no preconceito contratar pessoas T, e ou que despede estas
quando elas precisam de tempo nos seus processos clínicos de redesignação
sexual. Como não posso aplaudir organizações comerciais que alegadamente reivindicam
direitos para as pessoas LGBT+, mas que tem a seu cargo imigrantes com contratos
precários e os despede na primeira oportunidade sem direitos alguns. Não posso
aplaudir um Estado que persegue pessoas, desenvolve com elas uma guerra, que as
priva da paz e que em guerras silenciosas lhes subtrai elementos básicos de sobrevivência
como água, e que surge depois como um santo no cume do monte, com festas Pride.
Como neste ultimo exemplo Israel, nação de um povo vítima de perseguição e extermínio que
parece sofrer do síndrome Estocolmo que os leva a repetir ações do seu carrasco,
apropriando-se de um rio que não é seu, e perseguindo um povo, a Rússia não tem
o exclusivo, apenas um preconceito instalado pelo resto da Europa, mas no mundo
tem mais opressores, até os que se apresentam tantas vezes como salvadores, e
lutadores pela paz.
Exemplo único?
Não, claro que não!
Enquanto pessoas
ativistas ou não temos a obrigação de estudar quem apoiamos, não podemos andar
louquinhos a beber coca-cola e achar que por isso podemos aceitar de animo leve
que esta marca patrocine eventos de luta pelos Direitos Humanos, sem averiguar
o seu comportamento enquanto empresa não só para com as pessoas que são
bandeira desse evento, mas com todas as pessoas, indiferente das suas características
sociodemográficas. Não é pelo fato de ser gay rico (não sou) que os problemas que
afetam o dia-a-dia das pessoas gay como eu, mas menos abastadas, me são
alheios, e ou não me afetam, porque antes de ser gay eu nasci pessoa, e é a
esse nível que temos TODOS a obrigação de nos vigiarmos, apoiarmos, estar
presentes nas lutas uns dos outros, as sociedades não são (exceção das
ditaduras como china ou coreia norte) monocromáticas, e para se viver em
sociedade e em democracia e LIBERDADE essas sociedades não podem NUNCA serem monocromáticas,
mas antes uma mescla de cores, orientações, ideologias, politicas…
Assim antes de
pagar um bilhete para uma festa patrocinada, antes de subir na carroçaria de um
qualquer veículo promocional questione-se:
- Será que devo?
- Quanto é a ação
social desta entidade?
- Qual os
processos de seleção, contrapartida, apoio social, esta entidade dá aos seus
funcionários?
Dizia faz muito
tempo uma parkarta de um amigo numa Marcha do Orgulho algures aqui no burgo
tuga, “Não é por seres gay que és meu amigo!”, amigo no sentido de que, não me
representas, não falas por mim, não me impões uma ideologia.
Eu enquanto
ativista LGBT+ não represento ninguém, se não apenas as pessoas que de alguma
forma se revem no meu discurso e ação enquanto tal, não é por ser gay que
represento todos os gays, eu até nem tenho a vivencia de um gay classe baixa, a
viver num ambiente problemático, sobe o teto de uma família opressora, eu não
posso representar estes indivíduos mesmo eles sendo gays como eu, eu tenho uma
teoria do que será as suas vidas, mas não tenho propriedade para falar em nome
dessa vivencia, essa fala cabe a essas pessoas e apenas a elas, em todas as
narrativas possíveis, porque não há duas pessoas iguais. Aliás não eu que digo
que, duas pessoas expostas às mesmas circunstâncias respondem, ou podem responder,
de forma distinta.
Assim e pegando
no titulo deste meu texto reflexivo e a pretender (como sempre) chamar atenção
dos demais para as coisas, eu não vendo as minhas avós, até porque cada uma do
seu jeito eu amava, e porque já cá não estão só poderia vender a sua memória,
como não vendo nada do que me faz enquanto ser humano, não estou à venda nem
nenhum dos valores que me construíram, e por isso mesmo não embarco em
folclores que não sejam os etnográficos que compõe a cultura do nosso país e outros.
Os folclores subversivos, fantasiados de gladiadores não me servem, e sinceramente
espero não sirvam a uma grande maioria, para continuar a haver esperança na
luta contra o machismo, xenofobia, LGBT+fobia, sexismo, racismo e todos os
demais ismos e fobias sociais que constantemente aprisionam as pessoas numa
prisão sem igual, são prisioneiras dentro de si mesmas.
A LUTA ESTÁ NA
RUA, PELA LIBERDADE EM TODA A SUA GRANDEZA!
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