Porque é, que queremos ter filhos?

 


Estes dias assim meio do nada surgiu-me as seguintes interrogações:

 

- Porquê queremos ter filhos?

- Porque queremos no nosso íntimo sermos pais e mães (?), ou porque fomos doutrinados nesse sentido?

- Seremos uma espécie de vítimas da síndrome de Estocolmo, perseguidores dos atos dos nossos progenitores no processo de procriação?

- Será uma destas coisas ou todos em conjunto, ou mesmo uma outra qualquer razão, que nos empurra para a paternidade/maternidade?

 

Uma quantidade de interrogações certo!? Como faço parte desta sociedade sistematizada, formatada, claro que já me passou (literalmente) pela cabeça ser pai, usando qualquer uma das possibilidades existentes para atingir esse fim, mas como disse já me passou, e essa vontade foi-se, não tanto pelas questões que acima coloco, porque na altura elas não se me apresentavam, mas por outras, essa vontade acabou sendo residual, até hoje nem pensar no assunto para mim, para nós, mas talvez porque se eu já era curioso, com os estudos essa curiosidade, (termo do povo), passou a interrogações e daí o, porquê termos filhos?

 

Outra coisa que reforcei com os estudos, foi que quando te apresentas com uma teoria convem que ela não seja uma mera opinião, mas antes algo fundamentado, e ou partilhado, e por isso lá fui eu  à procura, fui ler um pouquinho antes de expor aqui a minha teoria, que se baseia alem das leituras em 55 anos de observação e de vida. Dito isto, dei conta que não estou sozinho nesta minha interrogação, reflexão. Até fui descobrir que existe uma associação de pessoas sem filhos de seu nome “No Kidding”, olhem como as coisas são!

 


- Acidente ou imitação –

 

Partimos assim para a primeira parte desta reflexão, que começa por questionar o que NUNCA saberemos, apenas podemos teorizar, sobre oque terá levado o ser humano primitivo a fecundar um novo ser?

Terá sido um acidente que ele foi repetindo até encontrar o método certo (à época) para que o recém-nascido sobrevivesse às agruras de respirar, e quando descobriu isso se afeiçoou ao fato?

Terá sido por imitação, ao ver os outros animais com seres menores, vendo a copula e até assistindo a um parto por exemplo de um bisonte, que percebeu que se fizesse o mesmo o resultado seria idêntico?

Terá visto estes processos nomeadamente junto dos predadores, observando posteriormente que em conjunto essas famílias de predadores tinham mais sucesso na caça pelo número de elementos, e por isso concluído que se também eles tivessem mais crias juntos conseguiam capturar não só com mais sucesso, mas também presas maiores?

Não sabemos, mas como temos feito até aos dias de hoje, podemos teorizar sobre.

 

(photo by: União do Saber)

- Crianças como mão de obra, força de trabalho –

 

Não será novidade para ninguém que no passado (anda hoje em determinadas geografias, que o digam as marcas nomeadamente desportivas), as crianças representavam uma força de trabalho significativa, e em muitos casos o sustento das famílias. Karl Marx e Engels entre outros sociólogos, referem essa utilidade. As crianças desde cedo, primeiro no pré-industrial, seja na agricultura, representavam ativos válidos na lavoura, pecuária e manufatura. Com o evento da industrialização essa valência da força de trabalho infantil, tornou-se ainda mais vital, para ambos os protagonistas. Por um lado, para as famílias, que recebiam com a exploração dessa mão de obra, pelo outro os detentores dos meios de produção que obtinham maior lucro, sendo que a força de trabalho de uma criança, em tantos casos idêntica á de um adulto, ficava, no entanto, mais barata na compensação salarial a ser atribuída.

Podemos observar esta realidade não muito longe na história do nosso país, nomeadamente na indústria do calçado e da confecção.

Assim as crianças, os filhos, representavam um “investimento” a médio e longo prazo.

Posto isto questiono-me, tínhamos desejo, vontade, predisposição ou vocação para sermos pais e mães, ou temos filhos primeiro pela maior probabilidade de sobrevivência, ou num segundo momento pelo seu valor enquanto foça de trabalho?

 

(photo by: WordPress.com)

- Afirmação Social –

 

Então se é verdade que ter filhos, no passado, representava aumentar as chances de sobrevivência, ter muitos filhos era também uma forma de compensar a mortalidade infantil que foi diminuindo com a evolução da ciência e das condições de vida. A verdade é que com a o progresso científico, industrial e de condições de habitabilidade ter filhos, tornou-se, entretanto, num “statement” social de virilidade do homem casado, e de fecundidade da mulher casada, e de uma alegada felicidade matrimonial, esta muito patrocinada pela ICAR. Um casal só o era aos olhos de Deus e da sociedade se com filhos, e muitos filhos representava (talvez ainda hoje represente em medida), saúde financeira, já que com a evolução social, promovendo leis que impediam a exploração da mão de obra infantil na maioria das sociedades, ter filhos e muitos filhos, poderia ser visto como um “luxo”, e assim os filhos deixam de representar um investimento, mas antes uma despesa, mas também uma espécie de mascote, ou talvez  melhor dizendo de estandarte publicitário de sucesso, e em outros casos de vergonha.

Agora os filhos representam aquilo que o pai ou a mãe não conseguiu ser e que projetam nos seus filhos essa responsabilidade de sucesso quase forçado, e ou dos filhos que nascem já encastrados na obrigatoriedade de seguir os passos dos seus progenitores, de continuar os negócios da família, queiram ou não isso para si. Mas e mais uma vez o comprometimento social em evoluir, e em tantos casos uma evolução que busca a felicidade do individuo, nos tempos de hoje resulta em filhos que procuram o seu próprio caminho, com menos amarras à estrutura familiar no que concerne ao seu seguimento, se bem que o mesmo já não se possa dizer sobre a sua dependência.

Se olharmos por exemplo o Pordata sobre a idade média com que se dá o primeiro casamento, e acreditando que “quem casa, quer casa” seja deixa o “ninho”, podemos observar que à trinta anos atrás os “jovens” casavam em média aos 25 anos (H:26.4/M:24.5 – ano 1992– Pordata dc24.07.2023), em 2022 essa média foi de 34 anos, seja casam cada vez mais tarde, o que acreditando no ditado popular, saem de casa cada vez mais tarde. Representando por um lado uma despesa a longo prazo, e em muitos casos podendo representar também um “income” familiar extra, e ou até o sustento familiar dada as baixas reformas. Aliás o nosso país tem um problema grave (se fosse só um seria muito tranquilizante), para resolver, dado que segundo o Eurostat, Portugal é dos países da UE onde os jovens (sarcástico eu), saem mais tarde de casa dos pais, aos 33,6 anos.

Seja não me parece que, pelo menos na nossa sociedade tuga ter filhos seja um bom investimento, o sucesso escolar pode custar milhares de euros, (tá bem não tanto como nos EUA), e os jovens não encontram facilidade na ascensão a uma vida independente dos pais, logo, porquê e para quê que temos filhos? Será que a sociedade tal como a conhecemos, se tornou num antro sado masoquista, que nos permite ter filhos para os ver sofrer?

E não vale a pena vir com oratórias de que não é bem assim, porque a verdade é que a classe social baixa, e média baixa, representa a grande maioria da população do mundo, uma porção limitada está na classe média e média alta, e uma limitadíssima na alta, e ainda uma ínfima parte na estratosfera social, por isso a grande maioria debatesse diariamente com problemas para enfrentar a saúde, ensino, habitação, alimentação, e por ai em diante, se bem que é esta mesma que esbanja milhões em raspadinhas e outros jogos da sorte na esperança de um num milhão, conseguir um prémio para pagar a conta da luz! (tem de ver o filme “Idiocracy”, explica tanta coisa)

 


- Então porque é que temos filhos? –

 

A questão mantém-se, e não serei eu que vou encontrar a resposta, talvez cada um de vós que lê estas linhas possa ter as suas ideias, e ou conclusões, ou apenas propostas do porquê que no atual século continuamos predispostos a fecundar, a dar filhos ao mundo, um mundo em colapso a vários níveis, será que somos de fato seres sádicos?

O mundo apresenta-se com um conjunto de sinais de uma reviravolta, no que se prende com a natureza, com fenómenos cada vez mais violentos, mais devastadores. Também a nível social, com eleições de líderes que parecem vir da idade média, assim como com os valores sociais, que evoluíram tanto no sentido de promover a felicidade e a proteção de cada vez mais pessoas, agora numa clara caminhada para trás.

É este o mundo que queremos para os nossos filhos? Se não é, então porque é que damos filhos ao mundo, sem antes o concertar?

Produzimos muito mais que aquilo que consumimos, o excesso está em aterros, enquanto em outras geografias milhões morrem de fome, e ou numa corrida para a sobrevivência invadem cada vez mais o meio natural selvagem.

Vivemos cada vez mais, mas somos inúteis rapidamente, temos uma sociedade envelhecida, e por isso trazemos crianças ao mundo para renovar gerações, gerações que se perlongam mais no tempo, acabando por sobrepovoar as grandes cidades, algumas sem condições de salubridade material e intelectual, aos níveis aceitáveis nos dias de hoje. Criamos obesos, deprimidos, delinquentes, cavamos valas profundas entre classes, e no meio de tudo isto destruímos o ser humano, os animais e o TODO o meio ambiente onde estes residem, o MUNDO.

 

Então porque é que temos filhos?


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