O palco de uma alegada liberdade!
É um sonho repetido, sonhado umas vezes a dormir outras vezes acordado, aquilo que nas próximas linhas vos deixo, assim aqui vai o meu sonho transcrito o mais fiel possível.
O sonho começa sendo num palco de uma peça de teatro onde eu era um convidado para fazer parte da peça, como alguém externo ao mundo da representação, seja, não virei ator no sonho, mas sim atuo na peça.
Antes mesmo da peça começar era suposto cada um dos atores dizer umas palavras, uma reflexão, e eu vi-me no sonho a olhar para uma sala, meio vazia, e por isso direcionei o meu raciocínio para falar de um dos possíveis porquês de a sala estar assim tão pouco habitada, e enquanto os outros dois atores falavam eu na minha cabeça achei que a sala estava meio vazia por falta de liberdade, e então disse:
Quero-vos falar desta sala vazia, e daquilo que acho ser a razão disso mesmo, então, temos uma audiência pobre porque na verdade vivemos num país onde as pessoas não são livres, mesmo todos nós sendo usurários dessa alegada liberdade que conquistamos a 25 de abril de 1974.
Mas a verdade é que não somos seres libres de verdade.
Vou convosco dar uma volta grande para explicar esse meu sentimento, para acabarmos aqui nesta sala meio vazia de público.
Como poderemos ser livres, se a nossa sobrevivência é um constante plano de escolhas por vezes demasiado pesadas, castigadoras, opressoras mesmo, não podemos ser livres quando temos de decidir entre educação e um prato de sopa, como não seremos livres quando temos de pensar se pagamos a renda ou a luz e ou a água,…
Que liberdade é aquela que nos oprime com programas escolares parametrizados, castradores da liberdade de escolha dos rumos que cada um pretenderia ser o seu programa, na direção daquilo que de fato deseja aprender.
Será que somos todos livres de vir a esta sala de espetáculos? E como poderemos se não nos foi em momento algum apresentada a cultura, da ficção ás interpretações da historia, da poesia ao cinema, do teatro a uma tela de óleo, se nos entopem com propostas de consumo da loja dos trezentos onde parece ter mais antena uma casa cheia de coisas vazias de conteúdo, que um bailado, um sarau de poesia, ou de um documentário sobre a historia da humanidade, quando temos mais depressa 50 mil pessoas num estádio que 500 numa sala para discutir os resultados científicos de um estudo com potencial impacto na sociedade.
Será que somos de fato todos livres? Mesmo aqueles que tem a possibilidade de aceder a todas estas vertentes da vida social, será que vai porque teve uma educação, uma formação que lhe mostrou e lhe falou da importância que a cultura tem, ou apenas visita estes eventos quando os mesmos conferem status e ou a permanência social de uma determinada classe social, seja nem estes são pessoas livres, são antes escravos de uma posição social que lhes confere um determinado estilo de vida.
Como poderemos falar de uma sociedade livre se as pessoas não podem ser elas mesmas por completo, como podemos falar de liberdade se quando alguém quebra as normas sociais, no que ao dress code se refere por exemplo, é perseguida, é vitima de agressões várias, como podemos falar de liberdade se determinadas personalidades são apontadas como não normativas como se por um acaso houvesse uma norma única capaz de explicar as vidas múltiplas e variadas que são (sobre)vividas todos os dias, de que liberdade falamos quando os corpos, as suas expressões e as suas condutas relacionais são questionadas por uma alegada maioria que mais que criticar quer impor comportamentos e estilos de vida que apenas servem (quando servem) a si mesmas, mas que não estão presentes nas pautas das vidas dos outros.
Não somos por isso, e mais, seres de plena liberdade, porque não temos de comer, nem as roupas certas, não podemos desenhar a nossa educação, nem habitamos em espaços acolhedores, uma vez que somos esmagados pela violência que ultrapassa as paredes entre nós e o vizinho e nos esmaga contra o chão.
Perante tanta falta de liberdade e demais demandas que nos impede de sermos, quem aqui não está eventualmente não é porque não quer, mas antes porque as correntes dos seus rios sociais não estimulam a visita ao teatro, antes a visita ao estádio, ou ao filme de ação com cabeças voadoras, ou porque o preço do bilhete compra uma lata de leite, paga um passe escolar, traduz uma semana de senhas de almoço na escola, a mesma escola que lhes diz ser mais importante saber os reis e rainhas que os generais e os processos da luta por essa alegada liberdade.
“Matamos” o fascismo, ou substituímos o opressor por outro nome, seja, as ovelhas têm um novo pastor, mas continuam a pastar nas mesmas planícies.
E os que aqui estão presentes para nos ver e escutar, são as pessoas privilegiadas que dentro da sua “liberdade” de escolha decidiram por esta sala, e assim vos deixo com esta reflexão, enquanto nos observam e escutam nesta peça que começa agora…
(texto refeito de João Pacheco Paulo)

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