Natal, a quanto obrigas.

 

Estamos em mais uma quadra natalícia, ou devíamos dizer, quadra da ode ao capitalismo e a hipocrisia!?

Parece-me mais isso todos os anos. Todos os anos vemos empresas cheias de boa vontade a querer patrocinar ações de caridadezinha, escondendo que as suas ajudas surgem nas contas finais dos IRS e IRC’s como donativos dedutíveis, mas que fomos TODOS nós que patrocinamos, caidinhos por fazer parte dessas ações, porque não queremos que ninguém fique sem natal, já que durante o ano, nós e as empresas não estão nem aí para quem não sabe se vai comer, com o que se vai agasalhar ou em que canto da cidade vai chamar de “casa”.

Nunca fui fã do natal, e até tinha razões para gostar, enquanto criança os meus pais, mesmo numa coreografia mal ensaiada tentaram dar-me o melhor que podiam, mas se tem coisa que eu nunca fui alienado dos sacrifícios da vida desses dois. Os meus natais, não eram povoados como os natais dos meus amiguinhos da escola que contavam reuniões de família com tios, primos, na casa grande dos avós com montes de presentes. Muito menos eram natais idênticos ou tão pouco próximos dos que víamos na televisão, longe disso, eram natais com presentes sim, nada que fizesse parte do catálogo da moda, numa casa de três divisões, mal aquecida. Família grande, em casa dos avós, não vamos falar sobre isso, por agora!

Depois e se o meu natal não era assim aquilo que se vendia nos imensos programas televisivos, também não eram assim tão solitários, havia outros amiguinhos que tinham natais bem diferentes, com menos comida, menos presentes, e definitivamente menos paz, a única coisa que abundava era álcool e violência, os natais desses amiguinhos faziam-me acreditar que o meu não era assim tão mau.

Mas tem outro natal, o natal da fé, e esse era vendido com muito preceito, embrulhado na ideia de que o importante era ser pobre e agradecer a esse deus por isso, porque tínhamos saúde e família, alguma que fosse, destruturada que fosse. Mas que deus é esse que deixa crianças passarem fome, serem espetadoras de tanta violência, dormirem ao frio? Tantas razões que durante anos me iludiram, mas nada como a idade para nos consciencializarmos de que toda procissão de fé, não passa de um alegorismo para entreter mentes fechadas, e encher os olhos de quem sofre. O resultado, é que hoje olho esse deus que me venderam durante anos como um elemento muito sádico, mais como um carrasco do que como um deus.

O natal não passa de uma corrida consumista, uma ode ao capitalismo, à falsidade, à hipocrisia, uma atuação do parecer bonito embrulhado em risinhos amarelos, e alegados sentimentos de sofrimento pelos coitados que não vão ter um natal, …e que tal irem-se todos pentear macacos para a Gronelândia, essas pessoas não tem dias de semana quanto mais dia de natal, tem apenas um dia de cada vez, na correria das carrinhas da solidariedade, muitas delas também da solidariedadezinha uma vez que acreditam que o que fazem é pelos outros, quando na verdade fazem e expressam esse fazer, para ficarem bem na fotografia social, dos amiguinhos e conhecidos, postando nas redes os seus gestos. Fiz apoio aos sem abrigo formalmente, durante um ano e meio, pôde cumprimentar a miséria humana semanalmente, uma miséria a diversos níveis, e por isso se já não acreditava no natal, ai fechou o livro com lacre para ser solene.

Para mim é natal todos os dias, nos abraços que dou, nos bons dias, no tempo que ofereço para escutar quem me procura, nos gestos sem selfi de ajuda, assim enquanto precisarmos de DATAS para sermos isto ou aquilo, não passaremos de lixo social, alienados, desprovidos de consciência, e desesperados por sermos notados numa rede social perto de si.

Boas Festas, com saúde acima de tudo, e amor, pois como diz o slogan “o melhor presente, é estar presente!”


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