A educação é um parque de elefantes, onde memória de rato não cabe!
Desde cedo quando fui como todos nós empurrados para as carteiras de uma escola, que senti que aquele espaço da forma que estava desenhado não era para mim, não estava em conformidade com a minha loucura, com uma imaginação fértil que voava mais que a velocidade do som permitia, mas também como todos os demais tive de me conformar com as formalidades de um sistema demasiado viciado para ser mudado por um puto de pouco mais de seis anos.
As artes sempre foram a minha praia, e descobri cedo o gosto pelo desenho e pintura, e o audiovisual sempre foi mais que uma companhia, representava um mundo de possibilidades,…mas!
Então terminado o obrigatório, o sexto ano (à época), ainda tentei aumentar o meu nível de formatação pela via noturna, mas entre outras razões de ordem familiar, trabalhar e estudar não funcionou, e a coisa ficou por aí mesmo. No lugar dos livros ficou a evolução dos tempos, seja, o audiovisual tornou-se de novo presente na minha vida, com documentários sobre tudo e mais alguma coisa, fenómenos naturais, vida animal, sociedades, comportamentos, e mais recente, pelo menos nos últimos seis anos o crime, a delinquência, a investigação, e não, não estou a falar de séries de entretenimento daquelas que os resultados de ADN surgem de um minuto para o outro, estou a falar do dia-a-dia das policias.
No entretanto e mais concretamente em 2019 decidi candidatar-me à universidade, e ao curso de sociologia, afinal mais de 20 anos de ativismo pelos Direitos Humanos, pareceu-me um curso que fazia sentido, e agora que terminado, fez mesmo, mas o bichinho da criminalidade não se tinha ido, e depois de no terceiro ano ter experimentado duas unidades curriculares (UC) do curso de criminologia, o mestrado pareceu-me óbvio, teria de ser em criminologia, e está a ser, e estou a gostar, mais que não seja porque o meu objetivo é mesmo a dissertação, e digo isto com algum, se não bastante pesar, porque aquilo que tinha experimentado na minha primária e secundário, agora é ainda mais evidente e diria tortuoso, este não é um sistema de educação, é um sistema de formatação, um esquema que vem de longe, e que pôde verificar durante a licenciatura, menos presente agora no mestrado, mas ainda assim presente. Formatados a ouvir, captar e calar. Contestar, questionar, atrevermo-nos a outros pontos de vista por muito idiotas que sejam, não estão incluídos nos currículos educativos, o debate não está presente na sala de aula, salvo muito raríssimas excepções.
Vamos começar por esclarecer um ponto de vista do qual não abdico, há disciplinas como sociologia, filosofia, historia, e a própria criminologia, onde são formados, tendo a perspectiva de conseguirmos seguir profissionalmente a disciplina que estudamos, INVESTIGADORES, não engenheiros, ou médicos, sendo que até estes recorrem durante a sua vida profissional aos manuais, mas as disciplinas que nomeei, essas pessoas vão estar ligadas à literatura, à observação, à investigação toda a vida, contudo e durante a sua formatação é-lhes EXIGIDO que tenham memória de elefante.
É exigido aos discentes que num semestre DECOREM seis, oito, doze (já tivemos disso), autores e as suas teorias e conceitos, para depois os despejar num exame, onde com sorte apenas dois dessa mão cheia de autores saem no exame, e se foi esses dois que estudaste e fixaste mais, ainda bem, mas se não foi, pensa e refazer o exame.
Se por outro lado não fores um forte em memória, nem mesmo com “memofante” então o teu curso, a tua formação, o teu caminho na educação será um verdadeiro inferno, uma tortura, que não poucas vezes rebenta em lágrimas (foram algumas as vezes que tal aconteceu em pleno exame com algumas colegas).
Quando questionamos os docentes ou as direções das faculdades, incluindo os conselhos pedagógicos, a resposta é que não é possível haver outra forma de avaliação, contudo em 2020, o argumento caiu por terra com os alunos a serem avaliados por trabalhos, alguns extensos, que se refletiu numa subida de notas no geral, porque é isso mesmo para o que estamos a ser formatados para investigar, fazer revisão da literatura, e concretizar a partir dai os nossos trabalhos, relacionando teorias, ou até mesmo opinando sobre as mesmas contestando ou questionando as mesmas.
Mas não nos fiquemos por aqui, eu fiz parte de um pequeno grupo que durante os anos de licenciatura contestou os exames junto a direção da faculdade (que nunca se dignou a responder) e junto do conselho pedagógico que em reunião de conselho levou o assunto a debate para concluir o de sempre. Mas como somos investigadores fizemos o nosso trabalho de casa, e então ficamos a saber que os modelos de avaliação são uma coisa do género “á la carte” e cada faculdade tem a sua, seja, na verdade não estamos na presença de um sistema, mas sim de sistemas, segundo mentes mais ou menos criativas, ou se preferirmos, mais ou menos preguiçosas, porque na verdade é mesmo muito mais simples corrigir exames que trabalhos de 10 ou 15 páginas vezes vinte, vezes trinta, vezes…
Mas se nestas licenciaturas que acima faço referência não me parece fazer sentido os referidos exames, bem como a forma como o sistema educativo está FORMATADO, capaz de deixar as notas de alguns professores amarelas do uso perlongado, desde o dia que começaram a dar aulas, a verdade é que quando pensamos que a segunda fase de estudos, o mestrado, não se desvia nem um milímetro do método anterior, vá um pouquinho, uma vez que nem todas as UC tem exame, esses elefantes brancos continuam presentes na formatação, e se na primeira fase de estudos, na licenciatura, já eram um absurdo, no mestrado parecem-me mesmo é ridículos, isto no mínimo.
Uma dissertação tem sempre revisão da literatura, que será muito mais alargada se essa tese for conseguida apenas por esse método, seja, podemos estar a falar de quê trinta, cinquenta, não sei quantas publicações a serem lidas, analisadas, descritas, citadas, referenciadas. Se a dissertação incluir a aplicação de inquérito ou de entrevista, estamos ainda a falar de mais envolvimento, porque a revisão da literatura tem de ser feita, talvez mais reduzida depois de alguma seleção, mas depois no caso dos inquéritos, há a sua elaboração, posterior aplicação e depois inserção dos dados em programas estatísticos para a partir daí se proceder às múltiplas leituras que esses programas permitem fazer, terminando com a redação da tese, e sua posterior defesa. Se estivermos a falar de entrevistas, seja de uma tese qualitativa, temos a preparação do guião da entrevista, a sua aplicação, a sua transcrição, e posterior análise (felizmente hoje apoiada por programas de análise), e redação da referida tese e sua defesa.
Mas chegar aqui implica passar por um primeiro ano de aulas, onde a avaliação devia estar presente em trabalhos, trabalhos que fossem já a preparação teórica da nossa tese, uma espécie de treino na investigação e redação, mas não, aquilo que temos em algumas das UC é a memorização de autores, teorias e conceitos, para despejar em exames uma vez mais, seja, ao invés de estarmos a treinar por um lado, e a aproveitar para irmos fazendo a revisão da literatura que vai servir de fundamento à nossa tese por outro, estamos ás voltas com matéria geral. Não estou a dizer que essa matéria não é importante, mas não vejo no exame a resposta a esse interesse. Vejamos um dos meus exames que está para acontecer, o exame de um UC ligada ao direito, e mais concretamente ao Código Penal e Código do Processo Penal, vamos ter um exame, sendo que alguns de nós presente no mestrado não teve contato com direito de uma forma muito formal, ou não teve de todo qualquer aproximação, contudo temos de saber responder ás questões que nos vão ser colocadas, e saber consultar com a avidez necessária os referidos códigos para responder a essas questões no tempo estipulado para o exame.
Pergunta: Porque é que não nos é dado um caso, uma questão, um contexto, e nos é pedido um trabalho a ser apresentado em dez páginas, um trabalho que responda à questão colocada? Teríamos de investigar, ler, andar com o referido código para trás e para a frente, e construir esse trabalho.
Outra unidade tem a ver com a criminologia e as suas escolas e teóricos, quantas questões vamos ter? Tantas quantas as escolas, ou tantas quantos os teóricos, ou talvez tantas quantos o conceitos e teorias? Ou será que no meio dessa nomenclatura vamos ser confrontados com duas, três questões sobre uma escola, um teórico, um conceito? E se essas foram mesmo aquelas que menos conseguimos absorver, e se formos memórias de rato, lá se foi, podemos até ser presentes em sala de aula, questionar, debater, mas porque alguns teremos memórias de rato, apresentamos um 16 em sala de aula, e um 3 no exame, tendo em conta que essa avaliação da participação em sala de aula vale 0,01, sabemos o que acontece, mesmo estando nós a nos formar para sermos investigadores, e não matemáticos.
O ensino como o conhecemos é uma caixa de fósforos, onde estamos empilhados e ficamos felizes quando saímos, mesmo que com a cabeça queimada.
Neil deGrasse Tyson, astrónomo conhecido das redes sociais, num dos seus inúmeros vídeos, critica o sistema educativo, fazendo referência que algo tem de estar muito errado quando os alunos terminam o ano e saem sorridentes, aliviados, das suas escolas, quando na sua opinião, não precisam sair tristes, mas talvez menos eufóricos por terminarem, ou por fazerem uma pausa longa na sua aprendizagem.
Não cumprimos nem de perto, a meu ver o pensamento de Paulo Freire, de que “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”, porque essa possibilidade está cativa, vedada nas malhas da exigência de estarmos sempre reféns das teorias dos clássicos, só mesmo muito lá na frente seremos mais livres, e considerados por isso criadores nós mesmos de conhecimento.
Embora haja “mil maneiras de se colaborar na obra da educação. Há terreno para todas as vocações. Assunto para todas as penas.” (Cecília Meireles, jornalista) a verdade é que o modelo é mais ou menos uno, e por isso castrador, dessa multiplicidade possível.
Jean Piaget disse que “O principal objetivo da educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas e não simplesmente repetir o que outras gerações fizeram.”, mas quando não se educa, mas antes se formatam pessoas, usando os mesmos manuais de sempre, as notas amareladas conseguidas no primeiro ano de aulas, evitar e ou corrigir os erros do passado fica difícil, e talvez por isso continuemos em guerra desde o principio dos tempos.
Depois quem disse, que o poder, venha ele de onde vier, quer pessoas pensantes, que questionem, …nem os chamados revolucionários gostam de ser interrogados!
Comentários
Enviar um comentário