"O Grito"
(a foto não é minha e confesso não recordo onde fui buscar)
Desta vez não vos vou massar com reflexões, é uma proza que no entanto pode provocar reflexões, ...chamei-lhe grito, já tem uns anos (2011) que escrevi, e espero que apreciem!
O GRITO
Antes não podíamos falar, que íamos dentro!
Agora vamos dentro mesmo calados!
Depois veio a televisão a cores, e a vida ficou cinzenta
As mulheres puderam votar, e foi a única altura que existiram!
Os paneleiros não vão presos, mas tem a vida amarrada nas teias de um
machismo legislativo
Depois as crianças nasceram, mas fechou-se a escola da freguesia!
Mais há frente matou-se, roubou-se, endividou-se, violou-se, incendiou-se,
assassinou-se, e …Ninguém vai preso porque ninguém fez nada,….
Isto é A PUTA DA LOUCURA
Quando nos enrabam a sangue-frio, enfiando-nos a mão nos bolsos para sacar
o que já não temos
Depois vimos todos para a rua gritar, ABAIXO O GOVERNO
E vimos de novo há rua gritar, VOTA NESTE
Mas o cabrão assim que senta o rabo na cadeira, entra-lhe um vírus
desconhecido pelo cu, que lhe afecta o cérebro
E lá vem de novo a mão, que nos enraba os bolsos, a carteira, a casa, o
carro, os filhos a VIDA PORRA
E ficamos fodidos mais uma vez, se é que algumas vez não estivemos
fodidos!?
Oh, vida macaca
Oh, qual seria o ideal de Abril
Porque a única coisa que ficou claro é que não foi para putas e
paneleiros, disse.
Oh, trabalhinho certo de todos os dias
Oh, as saudades do passeio no parque
Sim porque agora no mesmo lugar existe … mais um centro comercial, onde
também passeamos, mas invés de árvores e flores temos montras que nos deixam
surdos com os gritos dos putos,…QUERO ISTO!
E o perfume foi substituído pelo cheiro de óleo queimado das frituras e das
pipocas do cinema
AI, as pipocas do cinema
Oh, o cinema visto em silêncio
E não, não estou a falar do cinema mudo,
mas do caralho das pipocas a serem apanhadas, mastigas de boca aberta, e
espalhadas no chão e por cima de toda a gente como se não bastasse a enormidade
dos efeitos especiais, já para não falar dos filmes… 3D
Ai que miséria o ser humano se tornou.
Matam-se uns aos outros em guerras manchadas de petróleo, mas não basta
e por isso
Matam-se em casa, tendo a mulher como principal vítima
Matam-se no emprego para o garantir, e depois são despedidos
Matam-se outra vez no emprego para fazer bonito ao chefe, e depois
despedem o chefe
Matam-se no autocarro em hora de ponta, para poderem entrar naquela lata
de sardinhas onde nem os porcos viajam
Matam-se, roubam-se, violam-se, acusam-se, calcam-se, espancam-se, e
gritam, GRITAM
Porque a água aumenta, a luz, a renda, a gasolina, o colégio dos putos,
a comida, gritam e gritam ás gargalhadas nas parcas de alimentação do shopping,
reunidos em família como deve ser, porque a bicha de serviço acaba de passar
colorida e maneirosa.
E gritam, gritam tanto que não se ouve o que gritam
Nem mesmo eles se ouvem uns aos outros a gritar
Até eu estou aqui a gritar, e grito tanto que já ninguém me ouve
Por isso vou-me calar, e gritar em silêncio, porque é em silêncio que os
poetas gritam, como gritam os inconformados, como grita a minha gente, como
gritou a Gisberta, a Joana, a bebé que deu há margem do rio douro, como
gritaram as mulheres mortas por violência doméstica, …nome bonito para se
chamar há autoridade machista ignorante de muitos pseudo machos
Talvez um dia decidamos todos gritar, e aí talvez nos ouçam e sintam a
amargura e a dor que trazemos na alma
Quem sabe é instituído o dia do grito, que obviamente terá hora marcada
para gritarmos todos os mesmo tempo e assim ninguém nos ouvir.
João Pacheco Paulo
25 setembro 2011
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