Durkheim o crime só é natural, porque como Marx disse, existe desigualdades sociais,...!

 


(photo by: News24Hindi)

Porque a criminologia faz parte dos meus interesses, porque estou no mestrado desta disciplina, porque passei pela sociologia, tudo isto junto com os recentes acontecimentos, dei por mim a pensar porque é que as pessoas cometem crimes, seja de que nível for, quero dizer, crimes violentos, ou pequenos delitos.

 

A primeira razão que me surge logo é que as pessoas comentem crimes/delitos porque a montante um conjunto de fatores vários se reúnem de uma determinada forma que ao individuo (felizmente não a todos) a única resposta que se lhe apresenta como solução é uma carreira criminosa. São vários os autores que explicam esta reposta, um deles é Merton com a sua visão da teoria da anomia (strain), ampliando a ideia de anomia de Durkheim, argumenta que a sociedade cria pressões e expectativas desiguais para alcançar o que é entendido como sucesso, o individuo, diria eu, menos estruturado, perante estas pressões e na falta de meios (vários) legítimos para responder positivamente a essas pressões sociais, encontra no ato criminoso a resposta para alcançar esse sucesso. Penso até que o ginásio é um bom exemplo disso mesmo. É pedido aos homens que sejam musculosos, grandes, malhados como dizem os nossos irmãos brasileiros, contudo nem todos os corpos respondem da mesma forma ao exercício, por isso e perante um alegado insucesso visual, quantos não procuram obter esse corpo exigido, por meio de drogas várias, algumas ilícitas, colocando em risco a sua saúde, a sua vida, em nome de um visual que nem era seu, mas sim resultado de uma construção efetuada pelos meios vários que a sociedade usa para impor uma “moda”. O mesmo se passa com outros consumos, todos nós devemos ter um iPhone de última geração, o último modelo, mas um telemóvel desses custa mais que um ordenado mínimo. Na impossibilidade de legalmente o obtermos, alguns indivíduos obtêm o mesmo no mercado negro, um mercado que se abastece por meios ilícitos, pelo que a nossa compra é ela mesma ilícita, cúmplices de um crime.

Reckless, outro autor, fala-nos de maiores ou menores controles havidos pelo individuo, controle interno que seria definido pelas habilidades que o individuo terá para contornar essas pressões, e controles externos que será a influencia que a pressão social tem sobre o individuo, podendo estas serem anuladas pelo controle interno.

Alguns autores no caso, sociólogos como Durkheim apontam o crime como necessário, com algo “natural” existir em sociedade, contudo tendo a descordar, porque o crime existe dado vivermos uma sociedade assente no capitalismo, na exploração de uns pelos outros, um pouco dentro da linha de Karl Marx que aponta o crime como uma consequência de uma sociedade capitalista, o autor acreditava que se as desigualdades na distribuição da riqueza fossem eliminadas o crime deixaria de ocorrer. Não vou tão longe, porque na verdade as desigualdades vão sempre existir, contudo se essas desigualdades fossem esbatidas, se TODAS as pessoas tivessem acesso a bens de primeira necessidade como é habitação confortável, educação gratuita, e saúde seria bem provável que o crime fosse visto como algo menos “natural” (Durkheim) e mais repudiado, e perseguido por todos, porque o crime é um elemento desestabilizador da harmonia social e da paz. Se a sociedade mundial fosse mais gerida por pessoas para pessoas, e não para ricos ou pobres, cores de pele, géneros ou orientações sexuais, o mundo que conhecemos seria bem diferente, e os exemplos seriam outros, e os sonhos teriam outros desenhos e menos escuros.

Acrescento ainda um outro fator que levará as pessoas a enveredar pelo caminho do crime/delinquência, a ausência de um controle institucional eficaz, imediato, sentido como presente, talvez omnipresente.

Quem escreve as leis que nos regem?

Pessoas! Indivíduos numa posição de poder, e quase invariavelmente advogados e juristas. Que por defeito redigem essas leis, de uma forma que parecem ter uns quantos afluentes ou linhas de água, que permitem na prática do dia-a-dia contornar o rio maior, porque a alínea a) do artigo Y) reverte a lei X), e a sua alínea j), uma espécie de dar o dito por não dito.

Contudo estes tramites não são alcançados por todos aqueles que cometem crimes/delitos, porque a “justiça” não é um prato acessível a todos, a “justiça” é uma espécie de caviar de uma espécie em vias de extinção, decorado a folha de ouro, e por isso mesmo tem uns quantos que se vão escapando nessas entrelinhas, fazendo das autoridades policiais uns brilhantes idiotas, uma espécie de moço de recados que tem de se desunhar em busca de evidencias, umas depois das outras, porque as primeiras, as segundas e as demais estão ainda demasiado curtas para justificar a aplicação da “justiça”, e assim indivíduos a quem se conhece crimes vários, vão-se esquivando uma e outra vez, até a merda ser demasiado óbvia, cheirar demasiado mal, ou as suas ações interferirem com as pessoas erradas, que umas para afastar as atenções sobre si apontam o dedo na direção do mais fraco, outras porque se cansam de usar esses ditos “fracos” e decidem que para os afastar basta tirar-lhes o apoio, e proteção que sempre ofereceram.

 

Assim e visto de fora esse hiato entre os crimes e a detenção efetiva do delinquente, inspira outros desprovidos do controle interno de Reckless, expostos por isso ás pressões sociais, olham os seus delinquentes de referencia (desculpem esta comparação) expressarem uma vida de acessos fáceis a diversos materiais e bens de consumo, por imenso tempo, sem qualquer castigo inspira esses aspirantes a delinquente, a também eles iniciar os seus percursos criminosos, por vezes transformados em carreiras no mundo do crime.

 

Dito isto a ausência de eficácia das instituições, e por vezes (muitas vezes) punições aquém do espectável, pode funcionar como uma espécie de “incentivo” à delinquência, uma delinquência que deixa pelo caminho uma enormidade de materiais subtraídos, consumos fatais, e vitimas, muitas vitimas diretas e indiretas, e ainda aquelas que mesmo não se sentindo vitimas o são, nomeadamente enquanto financiadoras de um sistema de autoridades, instancias várias de justiça, falido, que promove o crime até como arma politica usada a seu belo prazer, nomeadamente pelos mesmos que fizeram as leis que deviam colmatar grande parte da atividade criminosa.


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