Como será quando eu morrer,...será que morro!?

 



Nos últimos tempos temos (eu e o marido) perdido alguns amigos, perdas daquelas que vão e não voltam mais, perdas daquelas que temos de velar o corpo, a memoria, e dizer adeus, porque neste plano não os voltamos a ver.

 

Hoje por lapso de nomes idênticos surgiu esse bicho papão que assombra as nossas memórias, as nossas rotinas, mas para nós amigos dessa pessoa com o mesmo nome de alguém que partiu, para nós, foi apenas uma confusão, um sobressalto, a vida continua para nós e para essa pessoa que faz parte das nossas vidas.

 

Pergunto-me muitas vezes como será então no dia em que eu partir, sim porque quero sempre partir antes de toda a gente, e, no entanto, já uns quantos foram antes de mim.

Mas e como será quando a notícia for “o João Paulo morreu!”, as pessoas que fazem parte da minha vida, como os meus pais, a minha irmã, …a minha irmã, o meu sobrinho, …sim o meu sobrinho, como vai reagir o meu sobrinho. O marido, como vai o marido suportar a minha ida, como vai ele encarar o silencio da casa, a cama vazia, e também mais silenciosa, afinal já lá não estou para ressonar, …como vai ele sentir a ausência das minhas excentricidades na cozinha, ou as outras que do nada me colocam a falar sozinho ou numa gargalhada pegada que nem eu sei porquê.

Depois os amigos e ou conhecidos, como vão eles sentir a minha partida, um alivio porque não terem aquele gajo que leva sempre as coisas demasiado sério, o gajo que não se cala, o gajo que tem uma opinião, uma ideia sobre tudo, o gajo que parece omnipresente sempre de braço no ar porque quer verbalizar o que quer que seja, …como será para eles a minha partida?

 

Agora a estudar, questiono-me como será os meus colegas e amigos de faculdade saberem que eu morri? Acreditem ou não fico muitas vezes a refletir sobre isso, sobre os rostos del@s, as expressões, que tipo de falas dirão!

Mas também penso em amigos que estão presentes na minha vida no plano da politica social, como vai ser para o meu amado Sérgio Vitorino por exemplo, como será para a Cristina Santos, ou a Fabíola, ou o Zé do 106, como será para o companheiro de tantos momentos Miguel aka Conde, como será para tanta gente que faz parte das minhas vidas, …sim são muitas, vida familiar, vida de amizades, vida da politica social, vida das viagens, vida das caminhadas, vidas, todos nós temos N vidas, nenhum de nós é apenas uma coisa.

 

Depois também penso que depende muito de como vou partir, porque uma coisa é do dia para a noite eu desenvolver uma doença qualquer que a fdp me apanha na curva e nada tem que se faça e durante algum tempo vou definhando até embarcar, nessa barca de uma moeda de prata.

Outra bem diferente é sofrer um acidente, ou ser vítima de algum laivo de ignorância seja ela qual for, são mortes repentinas que nos retiram o chão, eu ainda não recuperei das mortes dos meus amigos, e de um deles em especial. Não, claro que não, todas as partidas são dolorosas, mas essa dor é também medida segundo o envolvimento que temos com as pessoas, a morte da Júnior apanhou-me de surpresa foi assim do nada, ela lá longe, num outro país decide ir embora, nunca mais ouvimos ela a dizer “oi marido!” que era o seu jeito carinhoso de se dirigir a mim e ao maridão. A morte apressada da Seminova foi angustiante, ontem trocamos mensagem nas redes sociais sobre como estão a correr as coisas no internamento e hoje é-nos comunicado que ela partiu, todas estas mortes são dolorosas, como foi a partida solitário do Domy.

Mas nenhuma partida me impactou tanto como a partido daquele FDP adorado do António, Tó para os amigos, ainda hoje alguns de nós sente, eu sinto, ainda a corda na garganta a sufocar-nos sempre que recordamos a sua loucura e a impossibilidade de lhe poder chamar estouvado, gritar com ele, e depois o encher de abraços e beijos, isso não podemos mais.

 

Imagino como será a minha partida, se terá um adeus tipo Harvey Milk, ahahahahah a louca, ou serei mais um tipo a Tonicha que partiu apenas com a minha presenta e a do Conde, para além da sua família, …quero sempre pensar que terei presente aqueles que de fato me amam, e me aturam até hoje, se assim for já serão alguns, mas gosto de pensar que seria extraordinário ter todos os meus “amigos” do Facebook, eheheheh assim do jeito que já que não consegui fazer uma festa com todos eles, (um sonho que tenho), pelo menos todos eles vinham dizer adeus ao louco sonhador, que acreditou que poderia fazer um tiquinho por um mundo melhor onde TODAS as pessoas pudessem ser libres e viver em paz., e harmonia uns com os outros.

Imagino se seria lembrado pela minha comunidade, pelas pessoas por quem desde 1996 dou a cara, sem medos, e acreditando que de algum jeito faria a diferença, …mas a questão é que eu sei que eu, sou só eu, todos os dias algures no mundo, e no nosso país, morrem pessoas que tiveram importância na vida de tantas pessoas, nas suas comunidades, até mesmo para o seu país, e que morreram rápido, rápido…porque morrer não apenas uma coisa física, morrer é também uma coisa de memória, pessoas como Harvey Milk, Mandela, Rosa Parks, Martin Luther King, entre tantos outros continuam vivos, todos os dias mais moribundos porque a memória social é fraca, e porque mal alimentada sofre já em alguns casos de alzheimer.

 

Penso mesmo muito na minha morte, e no que ela representaria para quem fica, e não, não tenho nenhum medo da morte, ela não me assusta, assusta-me mais morrer sozinho, e morrer definitivamente no dia em que me enterrarem, essa é para mim a pior das mortes.


Sinto muito a vossa falta!

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