Porque hoje faço anos, porque como eu tantos gritamos LIBERDADE!

 


Primeiro porque hoje faço anos, depois porque este ano os que como eu nasceram antes celebramos o grito!

 

Não é todos os dias que num mundo que está cada vez mais poluído alguém celebra 56 anos de idade. Um mundo poluído por escapes, mas também por guerras múltiplas, por jogos de cintura no entremeio com o desejo de calar os canhões, e o evitar de um escalar de violência que mais que aquele ou outro país, leve o mundo para a tão temida 3ª guerra mundial.

Por isso acredito que cada vez mais, não será todos os dias que alguém celebra 56 anos de vida, afinal quantas crianças, quantos jovens, quantas pessoas mais jovens que eu morrem hoje, se não de privação de comida ou água, talvez porque está na frente de batalha com o corpo exposto ás balas, ou porque na tentativa de sobreviver, um qualquer instrumento bélico lhes ceifa o teto, o caminho para o pão, a carteira da escola, a vida, quantos bem mais novos que eu perderam ou ainda vão perder a vida hoje, quantos nunca vão celebrar 56 anos de vida?

 

Mantenho o pensei faz alguns anos e transmiti como frase minha:
“Tenho mais que aquilo que talvez mereça e, muito menos que aquilo que desejo!”

 

Tive a felicidade de no meu país ser naïf, criança, e não perceber que nasci num país de mordaças, que nasci num ano, que logo no mês seguinte ao meu nascimento, a revolta do Maio de 68, era prenúncio de que a mudança estava por aí a chegar, mas criança e ingénuo, nunca senti travo na língua a não ser a educação que a minha mãe e o meu pai me deram, e que fizeram de mim um miúdo bem comportado, “Nunca fui chamada à escola ou onde seja, por o meu filho ser malcriado com alguém”, diz vezes sem conta a minha mãe elogiando a minha falta de atrevimento, a minha pacatez, que só no pensamento não o era.

 

Tinha seis anos quando a minha irmã nasceu, num país que antes dela, havia dado o grito de Ipiranga. Tinha apenas seis anos, e a 21 de Novembro quando a minha mãe foi a caminho do hospital para dar à luz uma mulher de armas, me disse “vai direitinho para casa filho, é muito perigoso andar na rua, que a mãe vai buscar uma Maria”, e a minha irmã nunca se chamou Maria, esta era uma personagem de uma série de televisão que eu dizia querer ter uma.

 

Mesmo depois do meu país ter gritado e ensinado ao povo que poderia gritar com ele, eu continuei calado, porque a educação assim me castrou, e porque sempre fui muito feliz cá em cima no “sótão” do meu ser, o silêncio do verbo falado, dava espaço ao colorido, mesmo ainda num país a preto e branco, dos meus sonhos e pensamentos, sempre fui a minha melhor companhia.

 

Nunca pensei chegar a esta idade, nunca pensei sobreviver até aqui, e confesso que aqui chegado tenho um misto de satisfação e desespero, de orgulho e lamento.

Não faz assim tanto tempo quando comecei a tornar público que, estou pronto para ir embora. Não sei se nos é permitido ficar zangados porque morremos, mas se o é, eu não fico, afinal como disse “tenho talvez mais que aquilo que mereço,…”, sou amado, amo loucamente, tenho saúde, tenho amigos, sou no resumo um privilegiado, mas sobreviver para ver o meu país a andar para trás, é demasiado frustrante, desgasta, anula-nos o sorriso, e eu não queria ter vivido para ver isto.

Quando disse que estava pronto a primeira vez, referia-me a um mundo em guerra, à natureza que manifesta o cansaço do seu mau-trato desde a revolução industrial, esses eram os meus itens de desanimo, mas quase que na má intensão de fazer coro, numa nota desafinada, o meu país mostrou-se também ele um desalento, num canto desafinado onde viver ou sobreviver é hoje mais sufocante que ontem. Eu não quero viver num país assim!

 

Hoje celebro 56 de vida, daqui a três dias o meu país celebra 50 de um grito que parece incomodar, os que negam sermos imigrantes, os que querem esconder a história de um colonialismo opressor, os que querem prender no fogão as mulheres pobres, e enganar as ricas com laivos de poder sobre a empregada. Que mentalidade é esta, que cobardia, que mediocridade, o nosso país é muito mais.

 

Por isso mais que celebrar o meu aniversário, quero que o meu país celebre o seu grito dado faz daqui a três dias 50 anos, e que neste aniversário reaprendam a gritar LIBERDADE


Comentários

Mensagens populares deste blogue

30 Anos, não são trinta dias!

Entre o Arco-Íris e o Esquecimento, num banho de Pinkwasshing

Democracia! Será que vivemos em democracia?