19 Anos a Marchar em nome da LIBERDADE! E tu onde tens andado?

 


Aproxima-se a 19ª Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto, uma luta que tive o prazer de ver nascer, mesmo que pelos piores motivos, estive lá a cada momento e sei apontar cada um(a) dos protagonistas deste parto violento, e talvez também por isso lamente que algumas pessoas já não estejam entre nós (fisicamente) para celebrar o quanto est@ filh@ cresceu, e diga-se está enorme e ainda em fase de crescimento.

 

Quase vinte anos de luta, tantas vezes de dentro para dentro, mais que de dentro para fora. Foram algumas as pessoas que correram atrás da posse de algo que é de todos, ou desejaram aproveitar a boleia ostentando não uma luta, mas um lucro, querendo fazer de um momento de luta um spot publicitário.

 

 A MOP – Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto resistiu a tudo isso, tendo tido na sua organização gente competente e consciente de que esta Marcha, como deviam ser todas, não está à venda, é um momento de LUTA e não um pregão do tipo “olha o cocktail fresquiiiinho!”.

 


Rostos que nos deixaram ficariam orgulhosos daquilo que começaram, um dos rostos, o do nosso saudoso António (Tó) ainda bebeu desse orgulho no último ano que esteve connosco. Ainda teve o desprazer de enfrentar o pregão, e saborear a multidão. A nossa Lurdinhas se aqui estivesse, ia dar abraços sentidos, porque não era muito de expressar a euforia, por ver que as salas que disponibilizou para o parto desta Marcha, valeram a pena. Das margens do Orgulho imagino outros rostos como o de Cátia Baião do SOS Racismo do Porto, ou Ana Afonso da ATTAC, pensarem, “bem a discussões e lutas que houve no nosso ceio, valeram cada uma delas, est@ miud@ está enorme”.

 

Uns rostos partiram deste plano, outros partiram destas batalhas, mas tenho a certeza que nenhum deixou de olhar mesmo que de fora, o resultado obtido também com a sua colaboração, e todos sabemos que tivemos (temos) muitos lobos dentro deste rebanho. Mas se me permitem a figuração, não somos um rebanho ovelhas fofinhas, somos sim de caprinos de várias espécies, e quando nos tentam derrubar nós marramos, e marramos violentamente se preciso for.

 

Figurações aparte, não tarda fazemos 20 anos de pé na estrada aqui no Porto, 20 anos onde demos apoio a tantas outras Marchas que nasceram a norte e a sul de nós, fomos tantas vezes pessoalmente ensinar os tramites legais e pessoais necessários para escancarar as ruas das localidades d@s noss@s irm@os, a nossa Patrícia Martins que o diga,  porque mesmo que alguém tenha dito que o 25 de Abril de 74 não foi para putas e paneleiros, a verdade é que a luta não terminou aí, porque num país livre não pode haver cidadãos de primeira e de segunda, e por isso saímos à rua desde 1974 ano da primeira Marcha do país que imagine-se aconteceu no Porto, entre a Cordoaria e os Aliados, com mais ou menos umas 300 pessoas, e que resultou ou foi resultado do manifesto do MAHR -  Movimento de Ação Homossexual Revolucionário escarrapachado nas páginas do Diário de Lisboa, o nosso António Serzedelo ainda está aí par nos contar como foi.



No que se prende com o nosso país, é a ess@s corajos@s que eu me vergo numa vénia sentida de agradecimento, pela vossa coragem, mas estas guerras deram-se um pouco por todo o mundo, reconhecemos como a mais próxima de nós a primeira Marcha pós Stonne Wall Inn, a 28 de Junho de 1970 em NY, mas o mundo já lutava fazia tempo, em outras geografias, como no Brasil onde havia uma contra corrente, nomeadamente artística, que resistia à perseguição e à morte.

 

Por isso que quando alguns privilegiados expressão o seu desprezo por Marchas como a Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto alegando ser ridícula, uma palhaça, na verdade estão a ignorar primeiro o seu lugar de privilégio de viveram num meio onde não há armários ou se os há não tem portas, e depois todas as outras pessoas LGBT+ que não vivem nesses lugares de privilégio e que por isso os seus armários estão reforçados, alguns ganharam caruncho e as portas emperraram, e quando viram pelo buraco da fechadura que algures no mundo, no seu país, pessoas como elas vieram à rua gritar e expressar as suas identidades, olharam para essas Marchas como um farol extraordinariamente brilhante, e de repente eram essas pessoas a empurrar a porta do lado de dentro e milhares aqui e no mundo a puxar do lado de fora.

 


Aos privilegiados deixo a mensagem de que, não precisamos de concordar com o modelo, não precisamos concordar com a forma, mas temos de olhar as Marchas além disso, e perceber que há neste mundo, mesmo neste século XXI, quem ainda sobreviva em armários de pau “santo” desejos@s de fazer rebentar com essas portas pesadas da opressão e dos falsos moralismos que todos os dias @s sufoca.

 

Da minha parte, fica o agradecimento de quem antes de mim começou esta caminhada, como fica o meu bem-haja por quem veio depois de mim, este caminho será eterno, porque poderemos até um dia conquistar a plena igualdade (coisa que duvido, basta olhar a condição das mulheres), mas as Marchas terão sempre de existir como uma espécie de vigilância constante aos bichinhos da traça, aos caruncheiros que sorrateiramente na calada das sombras teimam em subverter o sentido da LIBERDADE!

 

E nunca foi tão IMPORTANTE sairmos TOD@S à rua, de todas as cores, orientações sexuais, credos, expressões e identidades de género, de todos os sexos e condições socioeconómicas, porque quando tirarem a LIBERDADE a um, estarão a tirar a LIBERDADE a TOD@S.

 

Dia 29 a gente vê-se pelas ruas do Porto!


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