A Felicidade é uma mentira, feita verdade!
A felicidade é uma mentira, feita verdade!
Nos
meus devaneios mentais, que acreditem são muitos, e que em tempos chegaram a
causar alguma instabilidade psíquica, hoje elaboram reflexões sérias, que
posteriormente obrigam-me a procurar se apenas sou um idiota compulsivo, ou
alguém já chegou lá primeiro e, não poucas vezes essa é a verdade, alguém já refletiu,
estudou, e concretizou trabalho sobre o assunto.
Parece
que já estou a ouvir uma das minhas professoras a dizer que preciso cuidar a
linguagem, “está pouco cientifica”, tipo “fiz uma observação” ou “ a minha
abordagem”, prometo que vou tentar, porque a creditem ou não a academia
moldou-me, mas só um pouco, continuo a falar uma linguagem acessível e ainda
menos um sussurro dos corredores académicos.
Do
nada, e durante a higienização dos meus dogs (banho) uma frase surge completa
nesse meu pavilhão reflexivo, onde se lia: “A felicidade é uma mentira repetida
vezes sem conta, até se tornar numa verdade, uma verdade assumida pelo hábito!”.
Penso
que seja senso comum que ninguém é feliz de fato, o que define uma pessoa feliz,
é a frequência com que ela experiencia momentos de felicidade, e perante esse número,
possivelmente subjetivo, porque ninguém está de fato a apontar numa agenda
quantas vezes foi feliz no dia-a-dia, a pessoa terá em si esse saber.
Assim
e como disse fui procurar quem me poderia de alguma forma justificar esta frase
feita que havia surgido meio que do nada, durante uma atividade que mais do que
um ato de higiene é um ato de amor para com os meus pequenos que de fato se me
traduz num momento de felicidade. Nessa procura tentei encontrar quatro pontos
de vista sobre a felicidade, e a partir daí compreender a minha frase.
Posto
isto, procurei entender a felicidade segundo a Sociologia, Filosofia, Poesia e
Psicologia, se bem que devem ter em conta que não deixa de ser uma abordagem
ligeira, porque na verdade muito mais poderia ser revelado sobre este
sentimento extraordinário que está revestido de uma importância extraordinária
no sucesso das sociedades como veremos justificado por quem já se debruçou seriamente
sobre este sentimento de felicidade.
A Perspectiva
Sociológica sobre a Felicidade:
Comecemos,
portanto, pelo olhar da Sociologia. O tema da felicidade é analisado
frequentemente enquanto um fenómeno coletivo, que sofre influencias a várias
dimensões, como fatores sociais, culturais e económicos. Um dos autores que se
debruçou intensamente sobre o assunto, Émile Durkheim, nomeadamente quando do seu
trabalho “O Suicídio”, descreve que a sociedade representa uma força, que
exerce uma grande influencia sobre o bem-estar do individuo, e consequentemente
sobre o seu sentimento de felicidade. Argumenta que o meio social fornece ao
individuo os meios necessários para a sua realização pessoal, por meio da
partilha de valores e normas comuns a essa sociedade. (Durkheim, 1897)
Mas
logo aqui temos uma questão, que precisamos ter em conta, e que pode traduzir
muito do sentimento de infelicidade sentido por muitos nessa sociedade, o fato
de que nem todos, talvez uma grande maioria, não está munido de saber e ou
capacidade a diversos níveis para fazer uso desses meios que a sociedade lhe
fornece para o alcance dessa felicidade, desse sentimento que eventualmente
todos desejamos experienciar com frequência.
Durkheim
é acompanhado por outro sociólogo que surgiu nas minhas pesquisas, Max Weber
que observa a felicidade com uma lente racionalista e burocrática. Weber
identifica a racionalidade como “A gaiola de ferro da racionalidade” onde o
individuo estará “aprisionado”, e que dessa forma o individuo é mantido
afastado de um sentimento de bem-estar pleno. (Weber, 1905) Refere que a
modernidade pode conduzir o individuo à despersonalização, traduzindo esse
processo de forma negativa no que tem a ver com a felicidade.
Será
que podemos observar nesta perspectiva de Weber, o consumo crescente de
antidepressivos no nosso país (pelo menos)? Será que podemos relacionar esta
observação de Weber, com os milhentos amigos que cada um tem nas redes socais,
e a solidão que vive no mundo real? O “milhão” de selfies de uma pessoa só,
porque não tem mais ninguém que segure a câmara. A própria tecnologia, terá ela
criado o “self timer” para fotos de família, ou a pensar que numa sociedade
cada vez mais competitiva a solidão seria uma realidade?
Mas
não nos fiquemos pelos clássicos, a questão da felicidade é algo importante
para as sociedades contemporâneas e por isso um tema de constante observação
por parte de diferentes áreas de estudo. Richard Layard, economista e sociólogo
britânico, diz que ninguém é feliz sozinho (Layard, 2005). E aqui chegados ao
ler esta afirmação na sua obra “Happiness: Lessons from a New Science”, de
imediato observei mentalmente aqueles vídeos de jovens no exercício de alcançar
feitos vários que quando conseguem que a bola de basquete enceste, num arremesso
bastante invulgar, saltam de alegria, de felicidade, mas que quase no mesmo
momento, cortam essa manifestação porque ela só faz sentido quando partilhada,
nem que seja apenas com uma pessoa, logo podemos aceitar como verdadeiro de que
ninguém é feliz sozinho, há uma necessidade urgente de partilhar essa
felicidade com alguém, nem que seja apenas dizer “olha o fiz”, “olha o ganhei”,
e seguir o resto do dia a absorver não apenas o feito, mas a razão de que
outras pessoas sabem-no e estarão a comentar com terceiros.
Da
mesma forma Layard refere que a felicidade é coisa pública, ela depende de coisas
como o “income” do individuo, o seu estado de saúde ou aceso a ela, educação e
as relações sociais, elementos que tem um impacto voraz na vida dos indivíduos,
e representam muito sobre o sentimento de felicidade.
Um
outro autor, mais focado na realidade americana, Robert Putman, o autor argumenta
que os americanos têm vindo a participar menos nas questões cívicas e
comunitárias, o que tem tido como resultado um decréscimo acentuado nos níveis de
felicidade e bem-estar da população. Terá esta observação a ver com o fato de
nos estados unidos o nível de pobreza ter passado de 7,8% em 2021, para quase o
dobro em 2022 (12,4%)? Ou como Layar refere as crises económicas várias aleadas
a consumos de estupefacientes, por isso uma debilitação da saúde destes
consumidores, tem contribuído em conjunto para esta infelicidade, ou um será consequência
do outro?
Escreveu
o site “dianova” num dos seus artigos, e referindo-se ao “Relatório Mundial
sobre as Drogas 2020”, o seguinte sobre os EUA: “Na América do Norte, o uso de opióides sintéticos como o
fentanil tem sido responsável por duas décadas de aumento das mortes por
overdose. Em 2018, esta droga foi a causa de 2/3 das 67.367 mortes por overdose
nos Estados Unidos e no Canadá, embora neste último em menor proporção. As
mortes por overdose atribuídas ao fentanil são, em parte, causadas pela
imprevisibilidade da sua potência.” Será que podemos incluir sobre Portugal o aumento
de ano para ano de antidepressivos?
Mas não podemos esquecer um outro autor que tem
compilado dados globais sobre felicidade. Ruut Veenhovem, afirma que a felicidade não é um reflexo
único, seja, não se feliz apenas porque temos poder de compra, é necessários políticas
públicas, sociais e culturais que promovam o bem estar dos indivíduos. O autor refere
mesmo que a qualidade das condições de vida dos indivíduos é sem sombra de dúvida
mais importante que a quantidade e os materiais disponíveis para a sociedade
(Veenhoven, 2008)
Esta
perspectiva do autor, leva-nos ao constatar de que inúmeros governos não têm em
conta esses fatores, e quem diz governos, podemos ainda observar a educação
formal obtidas nas escolas que caracteriza por exemplo determinadas profissões
como menos valorosas que outras. Talvez seja verdade que ser-se médico ou juiz
será mais elevado na estratificação social, que um varredor da rua ou um
lixeiro da recolha de lixo. Mas a questão que fica por responder neste momento
é, será que podemos na atual sociedade viver sem um destes profissionais?
Precisamos
dos médicos para garantir a nossa saúde, dos juízes para garantir a justiça,
como precisamos dos lixeiros (varredores e recolha) para garantir a salubridade
das nossas ruas, perante o consumo e o desrespeito de uns quantos, que fazem
das ruas os seus baldes do lixo. Estes últimos profissionais só precisam de paralisar
três a quatro dias, para causar o caus.
Mas
então como poderemos interpretar aquela frase que espontaneamente surgiu na
minha mente: “A felicidade é uma mentira repetida vezes sem conta, até se
tornar numa verdade, uma verdade assumida pelo hábito!”
Resumindo
a visão sociológica sobre o abjeto, podemos ver que Layar refere que a
felicidade do individuo é moldado por fatores externos, como as relações
sociais e, económicas, apresentando esta influência como uma construção social
fortemente influenciada por políticas públicas e estruturas socias.
Mas
quando falamos de “hábito” falamos da teoria do “habitus” de Pierre Bourdieu, um
conjunto de disposições duradouras e internalizadas que orientam as práticas e
percepções dos indivíduos. Este “habitus” é construído tendo em conta as experiências
sociais, bem como as condições de vida dos indivíduos, que em conjunto moldam a
forma como os indivíduos percepcionam a felicidade. Diz Bourdieu o “habitus” se
trata de um princípio que gera práticas e representações, que podem ser
reguladas, seu que representem um produto de obediência a determinadas regras.
(Bourdieu, 1977)
Esta
observação do autor, levou-me de volta à Índia, onde tive oportunidade de
observar os jovens em diversas ocasiões e em diferentes contextos, a conviverem
com o mínimo, tendo em conta os standards europeus, e sempre com um sorriso, e
preparados para a pose sempre que um turista aponta a objetiva da sua máquina fotográfica.
Estes jovens são felizes à sua maneira, o seu comportamento pode muito bem refletir
e “hábitus” de que nos fala Bourdieu, essa repetição de disposições duradouras
e internalizadas que orientam as práticas e percepções dos indivíduos.
A Perspectiva
Filosófica sobre a Felicidade:
Se
a sociologia toma especial atenção sobre o tema da felicidade, aliada ao
bem-estar, a filosofia debruça-se desde sempre sobre este tema, a felicidade é diríamos
um tema ancestral, Aristóteles no ano 350a.c. (a.c., não é ar condicionado), definia
a felicidade como o fim ultimo da vida, que só era alcançada através da prática
das virtudes, acrescentava mesmo que a felicidade se tratava da atividade da
alma em cooperação com as virtudes,
sendo que as virtudes em Aristóteles trata-se de qualidades morais do individuo
que permite que este viva de acordo com a razão.(Aristóteles, 350 a.c.)
Uma
moral que é explorada também por Immanuel Kant, que associa a felicidade com a
moralidade. A felicidade em Kant não se prende apenas com um estado emocional,
mas antes, trata-se da consequência da ação moralmente correta. (Kant, 1788)
Seja,
quando todos atuamos no sentido de fazermos aos outros o que gostaríamos que
nos fizessem a nós, ou vice-versa, não fazer o que não gostaríamos nada que nos
fosse feito, a tendência para uma sociedade mais feliz aumenta. Numa sociedade
onde a razão impera, onde as pessoas contribuem intencionalmente para aquilo
que poderemos chamar de bem comum, essa sociedade mesmo na presença daquilo que
não é controlável, como intemperes ou doença, e que invariavelmente altera o
nosso sentimento de felicidade, tende a ser capaz de ultrapassar esses
percalços com um ânimo mais elevado, e capaz de se sentir energizado para
reconstruir, para recuperar, no sentido de retirar do seu dia-a-dia esse
elemento “destrutivo” de bem-estar anterior. E sendo assim tão simples,
pergunto-me, porque não o fazemos então?
Porque
é que cada vez mais estamos mais individualistas, porquê que a saudação que em
tempos se dava a toda a gente, fosse vizinho, amigo ou um completo
desconhecido, quando se pratica hoje esse ato de afeto, de humanidade, ao não
se conhecer alguns (muitos) olham de soslaio para quem faz a saudação? Este mundo
em mudança, precisa reorganizar-se, evoluindo sim, mas não perdendo valores de convívio
social importantes para a felicidade e o bem-estar de todos, uma sociedade
feliz, produz mais, produz melhor.
A Perspectiva
Poética sobre a Felicidade:
Quem
mais fala de felicidade ou o seu contrário que o lirismo poético, onde as emoções,
os sentimentos, são vividos no seu mais extraordinário esplendor, onde não
raras vezes os poetas se espantam no seu frenesim, dizendo que o vocabulário existente
não contém em si expressão maior para descrever uma panóplia de sentimentos,
sensações, experiências, sejam elas mais ou menos positivas.
Sendo
esta arte povoada de uma autentica enciclopédia de nomes uns mais famosos que
outros, sermos seletivos, ou decidirmos por este ou aquele é importante no
sentido de limitarmos não apenas a nossa análise, mas também a nossa redação,
que não sendo nenhuma das duas profunda, mesmo que ligeira muito há para ser
dito.
Assim
Fernando Pessoa e Eugénio de Andrade foram os escolhidos, neste breve olhar
sobre que um e outro nos fala de felicidade, que também aqui tivemos de nos
limitar.
Fernando
Pessoa, pelo punho do seu heterónimo Álvaro de Campos tem num dos seus poemas a
complexidade da felicidade, combinando neste a alegria e a melancolia, sendo
que estes não tem de ser antagónicos, muito embora o seu significado primeiro,
o de melancólico, representa uma tristeza profunda, mas podemos eventualmente nos
sentir melancólicos enquanto reflexivos de tempos idos, melancólicos enquanto nostálgicos,
mas a verdade é que o tempo não anda para trás, e essa melancolia pode dever-se
a isso mesmo, algo vivido lá atrás, que nos ofereceu momentos de grande
felicidade e que não voltam mais.
Fui
encontrar essa perspectiva no seu trabalho intitulado “Aniversário”, onde A.C.
recorda uma felicidade assente na ingenuidade, uma felicidade ida porque a
idade adulta é contida por normas sociais e outras que limitam o acesso a esse
bem único que é a felicidade, o bem-estar do individuo. Podemos observar esse
afastar do sentimento durante a leitura do poema, a felicidade havida na infância
perde-se, esbate-se na chegada da idade adulta e da consciência existencial.
Assim
nesta obra de A.C. a felicidade é um retrato ligado à simplicidade da ausência da
consciência presente e maior ou menos medida nas crianças, e que com o passar
do tempo, leva a que a felicidade se transforme num sentimento nostálgico, um
desejo profundo de voltar atrás. Neste poema e na sua análise podemos encontrar
a natureza efémera da felicidade. Como dizia antes, nós não somos felizes pér sé,
apenas seremos mais ou menos felizes, tendo em conta o número de momentos que
vivemos esse sentimento, uma vivencia que de certo muitos de nós experiencia
muito mais vezes quando somos “jovens inconscientes”.
Eugénio de Andrade, faz uma abordagem mais
naturalista, digamos assim, dado que frequentemente ele explora a felicidade
ligada à natureza e ás coisas simples da vida. Dele escolhemos o poema “Urgentemente”
da sua obra “O Sal da Língua”.
Urgentemente
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor,
é urgente permanecer. (Eugénio de Andrade, 1995)
Uma
obra de 1995, que parece um grito nos dias de hoje, dada a urgência de celebrar
cada vez mais, o amor, os abraços, os beijos, a felicidade, diz E.A. que “É
urgente inventar a alegria”, que olhando o número crescente de consumo de
antidepressivos, de uma sociedade cada vez mais individualista e por isso a
viver cada vez mais uma solidão que podendo ser povoada, essa alegada densidade
acontece longe da pele, ela é uma realidade virtual.
A Perspectiva
Psicológica sobre a Felicidade:
Olhando
as perspectivas anteriores, fiquei com a sensação de que nos faltava um outro
olhar, uma olhar que de tão óbvio quando constatei a sua falta sorri. Sendo a
felicidade uma construção, que depende de elementos exteriores para se
concretizar, logo precisamos encontrar o olhar da psicologia sobre a
felicidade.
Na
psicologia damos conta que para haver felicidade tem de haver a ausência de “afetos”
negativos sobre o individuo, e que este para se sentir feliz, e ou experienciar
a felicidade precisa receber afetos positivos e, haver uma satisfação com a
vida.
Mas
quem é que ensina os menores, os indivíduos em geral a apreciar de forma
positiva as suas condições de vida. Não precisaremos todos de ser pessoas com
capacidade de aceder a todo e qualquer bem material ou serviço pata sermos
felizes, podemos encontrar felicidade nas pequenas coisas do dia-a-dia. Darei um
exemplo pessoal: claro que eu gostaria de poder andar rio acima, rio abaixo,
numa qualquer embarcação “fancy”, mas a minha realidade limita-me esse acesso, por
isso encontrei esse sentimento de relax, de uma sensação de felicidade, quando
experimento esse exercício de andar rio acima, rio abaixo, numa prancha de “stand
up paddle”, e porque não tem motor posso absorver dimensões da natureza como o
canto dos pássaros, ou o cheiro das plantas, e dessa forma consigo experienciar
momentos por vezes intensos de felicidade. Mas eu sou apenas um individuo,
talvez tenha tido a oportunidade algures na minha formação de encontrar forma
de retirar prazer nas coisas simples da vida. Mas quantas pessoas tem a mesma
oportunidade?
Um
dos autores responsáveis pelo estudo do bem-estar subjetivo, refere a
felicidade como sendo a avaliação que cada individuo faz da sua vida quer em
termos cognitivos quer em termos de afetos. (Diener, 1984) Esta definição revela
que depende da capacidade cognitiva de cada um sobre a avaliação que faz da sua
vida, logo se tivéssemos nomeadamente nas escolas alguém com a responsabilidade
de promover um bom desenvolvimento cognitivo, positivo, que inspirasse os
jovens a serem eles mesmos, a encontrar nas dificuldades da vida desafios, e
não impedimentos, onde “não” representa-se mais um sinal de partida, mais que uma
amarra. Mas Diener na sua definição inclui tanto essa avaliação cognitiva sobre
a satisfação dos indivíduos com a vida quanto as experiências emocionais
positivas e negativas, que o individuo tem.
Outro
autor é Martin Seligman, que identifica cinco elementos fundamentais para se
alcançar a felicidade (Seligman, 2002), emoções positivas; envolvimento – como referia
Weber, a interação do individuo com a comunidade; relacionamentos –
relacionamentos afetivos e ou familiares positivos; significado – um dos pontos
quanto a mim mais relevantes nesta demanda da felicidade, e meio caminho para
se enfrentar as dificuldade, as limitações da vida, com a certeza que todos os
objetivos tem mais que um caminho, e que só precisamos de os explorar. Um dos
problemas da juventude (mas não só) é precisamente os indivíduos não terem um significado
para as suas vidas; e por fim a realização – quantos de nós se sente realizado?
Quantos de nós encara o lugar onde está como um ponto e vírgula, e não como um
ponto final? E neste ponto voltamos à necessidade de haver quem desde o início da
nossa formação nos empodere, nos apresente ferramentas várias, que no decorrer
das nossas vidas nos vão permitir, não só encontrar um significado para as
nossas vidas, como nos vai impulsionar para corrermos atrás dos nossos “goals”.
Ainda
Aaron Beck, um dos fundadores da terapia cognitivo comportamental, sugere que
um pensamento repetido vezes sem conta, podem criar realidades percebidas, capazes
de moldar a nossa experiência emocional da realidade. (Beck, 1976) De tão repetida,
a ideia de felicidade, internalizada, transforma-se na visão do individuo sobre
o seu mundo.
Olhando todas as referências
observadas até aqui, que começaram em volta da frase “A felicidade é
uma mentira repetida vezes sem conta, até se tornar uma verdade, uma verdade
assumida pelo hábito”, concluímos:
A integração das perspectivas observadas, oferecem
uma visão holística da felicidade. A frase "A felicidade é uma mentira
repetida vezes sem conta, até se tornar uma verdade, uma verdade assumida pelo
hábito" ressoa com as abordagens apresentadas, oferecendo um ponto de
convergência interessante.
Na sociologia, esta frase pode ser interpretada
como uma crítica às construções sociais da felicidade, que são perpetuadas por
normas culturais e institucionais. A repetição de determinadas normas e
expectativas sociais sobre o que significa ser feliz pode, de facto, levar à
internalização destas ideias, transformando-as numa verdade aceite socialmente.
Isto reflete-se na importância atribuída pelas políticas públicas e pelas
práticas sociais em moldar o bem-estar subjetivo. A teoria de habitus de Pierre
Bourdieu é particularmente relevante aqui: habitus refere-se a um sistema de
disposições duráveis e transponíveis que guiam a percepção, a apreciação e a
ação dos indivíduos. O habitus é formado por meio da socialização e da
repetição de práticas e normas, moldando a maneira como os indivíduos percebem
e experienciam a felicidade dentro do seu contexto social.
Psicologicamente, a frase sugere que a felicidade
pode ser moldada pela repetição de pensamentos e comportamentos positivos.
Aaron Beck e Daniel Kahneman destacam como os padrões de pensamento repetitivos
podem criar realidades percebidas que influenciam a experiência emocional. A
psicologia positiva, com Seligman, enfatiza a importância da criação de hábitos
que promovam o bem-estar, sugerindo que a felicidade pode ser cultivada através
da prática regular de atividades que fomentem emoções positivas e um sentido de
realização, e que eu reforcei esta perspectiva.
A filosofia, observa que a frase pode ser vista
como um comentário sobre a natureza da virtude e a prática moral. Aristóteles
argumenta que a virtude é adquirida através da prática habitual e que a
felicidade é a atividade da alma em conformidade com a virtude, a virtude da
moralidade e da razão. Assim, a repetição de ações virtuosas pode levar ao
desenvolvimento de disposições habituais que promovem a “eudaimonia”,
transformando a busca pela felicidade numa prática constante e racional.
Na poesia, a frase reflete a complexidade e a
subjetividade da experiência da felicidade. Através da obra de Pessoa e de
Andrade, vemos como a felicidade pode ser simultaneamente uma construção
ilusória e uma busca sincera, capturando a dualidade entre a realidade
percebida e a idealizada.
Perante tudo isto, a felicidade, emerge como uma
construção complexa e multifacetada, influenciada por fatores sociais,
psicológicos, filosóficos e emocionais. A frase "A felicidade é uma
mentira repetida vezes sem conta, até se tornar uma verdade, uma verdade
assumida pelo hábito" sintetiza a interligação destas perspectivas,
sublinhando como a repetição de ideias e práticas pode transformar conceitos
abstratos em realidades vividas. A teoria de habitus de Pierre Bourdieu
acrescenta uma camada adicional a esta compreensão, ao mostrar como as
disposições internalizadas através da socialização influenciam a percepção e a
busca da felicidade. Esta visão integrada reconhece que a felicidade é simultaneamente
uma construção social e uma experiência íntima, uma verdade que se constrói
através do hábito e da prática contínua das virtudes e das boas ações. É na
harmonização destas dimensões que encontramos uma compreensão mais completa e
profunda da felicidade humana.
Por isso o que falta mesmo para sermos felizes,
ou experienciarmos mais repetidamente o sentimento de felicidade, é apenas e só,
cuidar da comunidade com a comunidade, fazendo aos outros o que gostaríamos que
nos fizessem a nós, percebendo as necessidades de cada um, e em conjunto procurar
soluções que sirvam o individuo. O que falta é termos uma formação que nos atribua
ferramentas cognitivas capazes de nos atribuir uma espécie de superpoder para
encarar as dificuldades da vida, uma vida para a qual devemos ter um propósito.
Bibliografia
- Layard, Richard. Happiness: Lessons from
a New Science. Penguin Books, 2005.
- Putnam, Robert. Bowling Alone: The
Collapse and Revival of American Community. Simon
& Schuster, 2000.
- Veenhoven, Ruut. Conditions of Happiness.
Springer, 2008.
- Diener, Ed. "Subjective
Well-Being." Psychological Bulletin, vol. 95, no. 3, 1984, pp.
- Kahneman, Daniel. Thinking, Fast and
Slow. Farrar, Straus and Giroux, 2011.
- Seligman, Martin E.P. Authentic
Happiness: Using the New Positive Psychology to Realize Your Potential for
Lasting Fulfillment. Free Press, 2002.
- Aristóteles.
Ética a Nicômaco. Trad. Jorge Luís Borges. Ed. Nova Cultural, 2003.
- Pessoa,
Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Editora Ática, 1944.
- Andrade,
Eugénio de. O Sal da Língua. Editorial Caminho, 1995.
- Bourdieu, Pierre. Outline of a Theory of
Practice. Cambridge University Press, 1977.
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