Até já meu amigo, "estas despedida!"
(photo by: PortugalGay.pt)
“Estás deeespeedida!
Conheci Miguel Rodrigues Pereira ou o Conde, como era apresentado entre nós, devia ter uns 16 aninhos, e foi admiração à primeira vista, tenho 56, quase meio século de amizade e cumplicidades.
Não conheci o ROXX, (no mundo da música e do DJ não era Miguel era "Fifi"), mas posteriormente vim a conhecer partes da história deste mítico espaço ali na encosta de gaia, e do quanto esse espaço transpirava a Conde.
(photo by: PortugalGay.pt)
A nossa amizade intensificou-se, e o início das nossas cumplicidades, (mesmo muitas), quando ele abre o espaço Boys’R’Us, apenas um espaço mítico da sociedade LGBT+ tripeira da época, um espaço que foi abrigo de centenas de nós se não milhares, a catedral da Invicta. Ser-se LGBT+ vir ao Porto e não ir ao Boys’R’Us era o mesmo, tal e qual, que ir a Roma e não ver o Papa.
O meu amigo Miguel como sempre o tratei e chamei, tirando aqueles momentos de diversão que para o afinar lhe chamava condensa, coisa que nunca o fragilizou, pelo contrário, pegava nas palavras e abria um quase ritual de piadas, também inspiradas por um qualquer evento televisivo onde alguém dizia “não me chame condensa que me põe tensa”, e por ai íamos. Fui barman, o marido “ligthj”, éramos figuras presentes num lugar que nem era nosso trabalho, mas que nos dava gozo fazer parte, e porque o Miguel nos abriu as portas de par em par.
Fui por tempos gerente num momento de transição e ai como funcionário, e fui tantas e tantas vezes confundido como dono e ou sócio do Boys’R’Us, principalmente quanto ele, Miguel, não estava com paciência para aturar determinadas pessoas, dizia ele : “tem de falar com aquele senhor que é o dono”, a primeira vez que o fez fiquei num stress, tipo o que posso e não posso dizer…
A dimensão do Miguel vai muito para além dele, e neste momento refiro-me a um dos eventos que tinha o seu cunho e que a primeira edição chegou mesmo a conquistar o troféu de Melhor Evento do Ano nos Danceclub Awards 2001, falo da Elektro Parade. Este evento se fosse organizado hoje com o fluxo turístico que temos, e a projeção da marca Porto nos sete cantos do mundo, seria ainda mais monstruoso de bom, mas para falar de cunhos, tenho também de falar do evento que teve ocasião no mesmo ano e se estendeu até 2012, o PORTO PRIDE.
(photo by: PortugalGay.pt)
Vinha eu de uma reunião em Lisboa com a sugestão de um amigo de organizar no Porto um evento Pride, 320kms depois, foi o meu amigo Miguel que procurei para dividir a ideia, e juntos convidamos as outras casas LGBT+ da época a se juntarem a nós, e durante 12 anos esse foi o evento LGBT+ por excelência da Invicta, um evento que NUNCA foi transmitido a NIGUÉM, foi antes "roubado na secretaria", por gente sem imaginação e escrúpulos. Nesses 12 anos doamos pouco mais de 30mil euros à chamada sociedade civil, primeiros 9 anos à Liga de Amigos do Hospital Joaquim Urbano, nos restantes à Associação SOL.(photo by: PortugalGay.pt)
Porque falo dos donativos, porque o meu amigo Miguel era isso mesmo, e se calhar por isso nos dávamos tão bem, muito não poucas vezes andássemos “à turra e à massa”, porque amigos são assim, não estão sempre de acordo, discutem, mas nunca esquecemos o que nos une.
O coração do Miguel está na génese da Associação ABRAÇO, onde ele com mais uns quantos, financiaram do seu bolso este espaço de esperança numa época em que o VIH/Sida parecia uma ceifadora mecânica, obliterando vidas umas depois das outras. Mas se esta instituição é algo grande em dimensão, o Miguel também pagou contas a muita gente alguns seus colaboradores, muito alem do ordenado, e desses ainda não sei os verei na sua derradeira despedida.
(photo by: PortugalGay.pt)
Eu, como tantos outros, experimentei várias vezes esse coração maior que os himalaias, uma dessas vezes foi quando nos encontramos nos Gay Games na Austrália, que a propósito meu amigo, vais-te embora sem me dares a cópia dos vídeos malucos que fiz com a tua “handycam” e que várias vezes comentaste que te mataste a rir com a tua mãe ao visionar os mesmos.
(photo by: PortugalGay.pt)
Depois dos jogos, questiona ele se queremos, eu e o marido, acompanhá-lo e ao Charlie numa “road trip” entre Sydney e Cairns, e lá fomos, e que memórias meu bom amigo, e que memórias.
(photo by: PortugalGay.pt)
Não, não estou a dourar a pílula, este Senhor é um homem de trato algo difícil, individuo de convicções fortes, e uma personalidade diria algo destemida, não mandava dizer por ninguém, e reafirmava as suas posições com firmeza enquanto acreditava nelas. Porque só não muda quem é ignorante, e se tem coisa que ele não era, era ignorante.
(photo by: álbum do perfil de MRP no facebook)
Dotado de muito saber, essa cultura colocou-o ao lado de grandes empresas como a ABREU, e de grandes estadistas como Mário Soares ou Jorge Sampaio, apoiante incansável do PS, só nas primeiras eleições que elegeram Rui Moreira apoiou um candidato que não fosse do deu partido.
E não se ponham com politiquices sobre este ponto, porque não temos de estar de acordo, temos apenas de respeitar as decisões das pessoas que amamos, e entendê-las segundo o seu ponto de vista.
O meu amigo Miguel é muito mais que aquilo que escrevo nestas linhas, não sou ninguém perante pessoas que conviveram mais de perto que eu com ele, e por muito mais tempo, seremos imensos e ao mesmo tempo poucos para homenagear o seu percurso de vida. Eu não conheci o Miguel empresário nos mais diversos ramos, não conheci o Miguel político da politica formal, mas conheci o Miguel da politica social, o Miguel que financiou a primeira Marcha do Orgulho LGBT+ do Porto, que emprestou o seu carro, que esteve sempre disponível.
Conheci o Miguel que quando todos temiam pela sua imagem, o seu lugar de privilégio não o deixou sentado no conforto do lar, e foi ao programa de Manuela Moura Guedes, “Raios e Coriscos” (1994) falar de HIV/Sida na primeira pessoa, (https://arquivos.rtp.pt/conteudos/sida-parte-i-2/), como conheci o Miguel que perante as alarvidades de alguns sobre esta matéria foi tirar satisfações, este foi o Miguel de guerra que conheci.
(photo by: álbum do perfil de MRP no facebook)
Estas linhas não estão fáceis de escrever, a cada momento a minha visão fica turva de lágrimas porque a ideia de não poder de novo inquirir a tua veia critica para alguns dos meus textos, ou ligar-te para saber de ti, ou saber das tuas viagens, ou os debates mesmos que telefónicos (nestes últimos tempos), servia-me de ti como uma espécie de voz da consciência.
Amo-te muito meu amigo, houve um dia em que no meio de uma discussão eu te disse “pode haver quem te ame tanto quanto eu, mas duvido que alguém te ame mais que eu”, se éramos amigos, ali foi quase um casamento, assinamos por baixo aquilo que nos unia, respeito e amizade.
Também conheci o Miguel que convida para o jantar do seu aniversário e depois não aparece, deixando os convidados a celebrar o símbolo dessa loucura, tornada piada entre nós. Conheci o Miguel que exigia consciência social das pessoas em geral e das pessoas LGBT+ em particular. O Miguel que ao ter conhecimento do hino da seleção portuguesa para o euro 2004, ligou para Deus e o diabo, patrocinadores da seleção a pedir satisfações sobre uma letra que tinha no seu refrão “…quem não chutar primeiro é pa..leiro”, e que depois nessa noite regressado de Cancun onde esteve a trabalho para a ABREU, com o Boys’R’Us cheio, chama todos os presentes de incompetentes, ignorantes, e corre tom todos para fora do bar, e diz que o mesmo está encerrado até novas ordens.
É esse o Miguel que eu conheci, um Miguel saudavelmente louco, afirmativo e lutador. Um Miguel que amava a vida, e que por isso mesmo nestes últimos tempos se expôs a operações e tratamentos sempre com a perspectiva de que é mais uma, depois logo se vê,…
Amanhã, terça-feira, dia 23 de Julho vou despedir-me de ti meu amigo, num breve até já, vais a caminho de te encontrares com a Semmynova, que tantas vezes interagia contigo com a tua frase “está deeessspeedida!” e os dois se matavam a rir.
Meu amigo até já, “estás despedido!”.
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