Os números da luta LGBT+, absorvidos pelo capitalismo rosa!
Os números da luta LGBT+, absorvidos pelo capitalismo rosa!
Não
é de hoje que me deparo com alegorias que num primeiro olhar parecem inócuos,
mas que na verdade tem reflexos vários a diferentes níveis, ambientes, movimentos,
e esse olhar mais a miúde teria um reflexo positivo de nós pessoas LGBT+ se fôssemos
de fato uma comunidade, enquanto sentido de “todos por um e um por todos”.
Seremos
uma comunidade enquanto objeto sociológico, sócio-científico, mas segundo o meu ponto de
vista ainda não o seremos socialmente, nas nossas atividades sociopolíticas e do
quotidiano, falta-nos esse sentimento de “família” global, somos tão aguerridos
em determinados contextos e temas, mas depois esquecemos a importância de
manter a nossa “casa” arrumada, protegida, presente.
Quantos
de nós ativistas, já não escutou que as Marchas do Orgulho são ora
desnecessárias, ora um carnaval. Comentários vindos de pessoas que partilham
connosco a orientação sexual ou a expressão ou identidade de género, e que embora
desdenhando essa actividade sociopolítica, depois aproveitam tudo que dela sai,
como o alargamento da lei do casamento civil para comtemplar casais do mesmo
sexo, como a coadoção e a adoção por estes, como as uniões de facto, como a
proteção das pessoas trans promovendo a sua maior integração na sociedade
facilitando o acesso à saúde e à transição documental de cada pessoa no sentido
de ter documentos que se identifiquem com o seu género e expressão.
Estas
coisas não saíram dos corredores da AR, estas coisas podem ter serpenteado por
lá depois de reclamadas nas ruas, depois de muitos anos com petições e Marchas,
não sejam ingénuos, não foi nenhum político da política institucional que
acordou bem desposto um dia qualquer, talvez porque viu passarinho azul ou de
outra cor qualquer que decidiu que se calhar seria interessante legislar sobre
uma determinada “franja” da sociedade, no caso sobre a sociedade LGBT+. Os políticos
que o fizeram foram pressionados por anos de trabalho continuo por parte de
pessoas que chamamos de ativistas.
Depois
temos outro lado do movimento, o lado festivo da coisa, os arraiais orgulhosos
ou os prides. Um lado que pode ser, e deve ser repleto de glamour, e muita
purpurina, um espaço onde “luz; cor; som; acção” devem ser “guidelines” de
muita festa, mas um não tem de ter a ver com o outro, poderá, se assim
quisermos, mas não tem, porque uma coisa é a luta por uma sociedade melhor, a
outra é o celebrar do até aqui conquistado.
No
filme “The Young Karl Marx”, disponível no youtube legendado em português, e na
cena primeira e de elevada violência a diversas dimensões, podemos escutar o
seguinte texto:
“Para
coletar madeira verde, deve-se arrancá-la violentamente da arvore viva. Enquanto
coletar madeira morta não remove nada da propriedade. Apenas o que já está
separado é removido da propriedade. Apesar dessa diferença essencial, ambos os
atos são chamados de roubo e são punidos como tal.
Montesquieu
cita dois tipos de corrupção. Um, quando as pessoas não observam as leis. E outro,
quando a lei as corrompe. Vocês apagaram a diferença entre roubo e coleta. Mas,
estão errados em acreditar que é do vosso interesse. O povo vê a punição, mas
não o crime.”
Lembrei
desta citação, porque insistentemente as Marchas do Orgulho (mas não só)
inflacionam os números das pessoas presentes, muitas vezes apoiados pelas
autoridades que fazem o garante da segurança de quem se manifesta, mas a
verdade é que quem profere tais absurdos números pensa que se está a beneficiar,
mas na verdade estão não só errados, como estão a beneficiar nomeadamente aquilo
que contestam.
Se
por um lado dizer que estiveram milhares nesta ou naquela Marcha, dá à sua comunidade,
ou à sua luta uma força simbólica que empurra quem tem o poder de legislar, a
produzir leis que protejam aqueles que ainda são obrigados a sobreviver nas
sombras, a verdade é que com essas ilusões numéricas estão a promover
indiretamente outras atividades, que me desculpem os interessados, são tudo
menos luta, em nada vão beneficiar as vidas dos que ainda não conseguem marchar
com os demais, tratam-se de eventos meramente comerciais promotores dessa
máquina voraz que é o capitalismo.
Do
que falo? Falo do EuroPride que está agendado para invadir o nosso país no próximo
ano, onde os organizadores terão de desembolsar perto de 50mil/€ só em
comissões e taxas, (mas tem mais), no entanto e durante a pandemia faltou verba
para apoiar profissionais liberais como os transformistas, e outras pessoas
LGBT+ que ficaram sem trabalho durante esse período. Tivemos centenas de
pedidos às Marchas de Lisboa e Porto de apoio para alimentos, e terá havido
milhares que sobreviveram no silencio da fome, ou na caridade local, mas agora
não só conseguimos esta e outras verbas para fazer do nosso país uma pista
gigante de dança, álcool, e o que mais vier, quando não houve disponibilidade
alguma, diria mesmo que nem interesse, em apoiar quem desesperou por não ser
colocado na rua, quem não quis voltar para casa dos pais onde a violência os
esperava, e isto nos casos em que o opressor se deleitou com o regresso da
vitima e lhe abriu a porta, porque outros houve que nem escutaram o nock, nock,
da porta da rua.
Por
isso e voltando à citação do filme “The Young Karl Marx”, os números mirabolantes
de quem dá o peito às balas, de quem sai à rua para reivindicar paz,
solidariedade, amor, direitos iguais, nesta altura do campeonato não lhes
favorece, mas favorece os discursos gulosos da organização do evento aqui em
Portugal.
Li
algures que a organização esteve representada na Marcha do Orgulho LGBT+ de
Lisboa, será que esteve, que representação foi essa, quantas pessoas de cada
entidade esteve representada, como é que numa Marcha alegadamente de milhares e
milhares de pessoas o silencio visual sobre o evento europeu foi o que mais se
notou? Noutras geografias podemos ver as representações tugas desta organização
presentes em outras Marchas, mas que pobreza franciscana é essa que se faz
representar com uma mão cheia de elementos? No mínimo um autocarro seria de
esperar, sabemos que são fãs dessas estruturas, por isso que tal um desses veículos
cheio despejado nas representações desejadas? Não pois não!? Claro que não
porque em nada a organização do evento aqui em Portugal representa essa tal comunidade
LGBT+ portuguesa, a menos que estejamos a falar da comunidade caviar, que tem
poder de compra para férias paradisíacas, cruzeiros gay, e outros eventos
festivos que requerem poder de compra, para esses o evento em questão talvez
faça sentido, mas para os que são parte do proletariado explorado, para os que tem
de se satisfazer com idas à praia com os amigos e umas noitadas de copos, o
evento em questão não passa de uma imagem viva das revistas cor-de-rosa, do género
quem me dera ter uma noite de loucura com o Brad Pitt.
Não
se pense que sou contra eventos festivos, seria até hipócrita da minha parte
ter essa postura, afinal organizei durante doze anos com o meu amigo Conde um
evento LGBT+ na cidade do Porto, que me foi depois roubado por um energúmeno,
que hoje é alegadamente processado por ser bom rapaz, por uma das entidades
organizadoras desse euro-evento.
Acho
muito bem que eventos LGBT+ festivos existam, mas que os mesmo tenham uma
função sociopolítica e solidária para a comunidade que simbolicamente exploram.
Seja, se o evento pretende celebrar a comunidade, então usemos o poder do privilégio
de alguns para ajudar os que ainda não beneficiam desse privilégio, pelo menos
é o que eu acho.
Mas
olhando por exemplo o relatório de contas do EuroPride2020, olhando os números,
não vejo em lado algum, essa dádiva à comunidade, vejo antes um “income” interessante
para a entidade responsável.
Dirão
os de sempre, que a cidade de Lisboa vai ganhar com a vinda de turistas para o
evento, tá bem, vou fazer de conta que acredito nisso, e nesse fingimento
questiono, mas que foi que a cidade deu à nossa comunidade, enquanto estruturas
de apoio aos elementos da nossa comunidade? Onde estão as casas abrigo, ou
outras estruturas que achemos necessárias no garante da sã sobrevivência destas
pessoas, que mesmo perante todos os avanços legislativos continuam a observar
as suas vidas no fio da navalha, perante retrocessos políticos vergonhosos, e
instituições contaminadas por ideologias fascistas!?
Nós
enquanto comunidade não devemos NADA ao poder politico do nosso país, tenha ele
a cor que tiver, pelo contrário em muitas dimensões ou geografias, em muitas
vidas ainda é aguardado o nosso 25 de abril.
Este
já vasto texto que estou breve a terminar, não estará de acordo com alguém que
estimo muito, o tipo de pessoa que se eu pudesse pagaria do meu bolso para ele
poder apenas e só dedicar-se à política social LGBT+, mesmo não estando sempre
de acordo com ele. Ao telefone discutimos precisamente a questão dos números e
da utilidade que eles tem neste momento mais a favor do capitalismo rosa do que
da politica de luta das Marchas, e ele alegou que outras frentes mais
preocupantes merecem maior atenção, e não sendo mentira essa atenção necessária
sobre outros temas opressores, a verdade é que já ouvi demasiadas vezes esse
compartimentar, esse sentimento de que haverá lutas mais importantes ou mais urgentes que outras, e à conta desse sentimento, houve pessoas da nossa
comunidade que viram as suas vidas proteladas, diria mesmo desvalorizadas, do
tipo, “passe por cá amanhã, que hoje não pode ser nada”. Eu não concordo com
isso, sei que somos poucos realmente interessados em fazer algo de positivo por
todos nós, sei que as energias por vezes faltam para encarar as diferentes frentes,
mas não podemos protelar lutas em detrimento de outras, correndo o risco de no
caminho alguém padecer porque não achamos prioritário, porque dissemos “passe
cá outra altura”.
Talvez
por isso estou a fazer esta parte, para deixar os meus/minhas colegas disponíveis
para outras batalhas, com outras linguagens, com outras expressões de luta, com
outras posturas, porque a nossa Marcha reúne em si não apenas as questões
LGBT+, a nossa Marcha agrega outras lutas, outras posturas, outras formas de
estar na luta e na sociedade, e é isso mesmo que nos torna mais fortes e
diversos.
Assim
e para terminar recordo as palavras do filme “The Young Karl Marx”, e adiciono
aquelas que foram transcritas no mural do nosso amado Tó: "Não sou livre enquanto outra pessoa for prisioneira, mesmo que as suas correntes sejam diferentes das minhas"
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