Graças a Deus!

 


Graças a Deus!

 

Ouvi esta frase toda a minha vida de criança e jovem, e graças a Deus isto e aquilo, e tudo era graças a essa entidade. Na ausência de sentido critico, mas cheio de duvidas, uma questão residia na minha mente, se graças a Deus tínhamos coisas boas, então porque é que essas coisas eram sempre mais pequenas que as coisas que outros recebiam, e que da mesma forma diziam “Graças a Deus?”, será que por eu ser pobre não tinha direito a receber determinadas benesses?

 

Quando questionava sobre porque é que esse tal de Deus não nos presenteava com mais, ou o mesmo que outros, a resposta era pronta, “não se brinca com Deus!”, mas não era brincadeira era uma pergunta.

 

Passado esse tempo, o convívio com as famílias que escolhemos, com pessoas interessantes e de saber, e curiosamente alguns ateus, que pareciam saber mais da bíblia que aqueles que a ela se referiam como se fossem poços de saber sobre a matéria, quando na verdade não passavam de ecos daquilo que ouviam nas igrejas, os excertos e os contextos, a histórias contadas segundo um enredo bem escolhido, para a manutenção do medo, e a imagem do inferno segundo S. Mateus, S. Pedro, S. Paulo ou S. João segundo a devoção de cada um.

 

Então se é graças a Deus que a criança se salvou, é graças a quem que a outra morreu?

Se é graças a Deus que terminou a guerra, foi graças a quem que ela começou?

Porque segundo a fé cristã (e na verdade todas as demais fés), segundo a ideia de que por Ele tudo acontece, que Deus é esse que deixa morrer milhares de pessoas tantas delas crianças.

 

Que Deus é esse que deixa aqueles que alegadamente o “representam” aqui na terra, executarem ao longo dos séculos as maiores atrocidades em seu nome? Que Deus é esse que deixa que as crianças deixadas á sua guarda sejam violadas e mal tratadas por esses mesmo que falam em seu nome, onde tudo é pecado e motivo de penalizar de alguma forma, …é graças a quem a dor e sangue que transborda por todas as brechas das igrejas?

 

O ser humano precisa de ancoras, precisa de cordas de segurança que os prendam ao chão, ou não os deixem cair em delírio, é sempre mais simples aceitar que existe alguma coisa capaz de mover terra e mar, do que questionar porquê as coisas se movem, questionar é visto em determinados ambientes como rude, como uma manifestação de falta de educação, quando na verdade, questionar é avançar, é progresso, questionar é na verdade, verdadinha ter os pés bem assentes na terra.

 

Hoje acredito mais em trocas de energias, em acontecimentos que dão lugar a outros acontecimentos, atitudes que dão lugar a atitudes, e que se tivermos boas atitudes e planearmos bons acontecimentos, promovemos bons ambientes, bons relacionamentos.

 

A minha fé hoje é a natureza, escutá-la, observa-la, senti-la, saber que chego mais depressa quando ando devagar, e assim chego melhor, a fé do “graças a Deus” essa não me serve mais, pois já encontrei as respostas para as minhas questões as antigas e as atuais, e tu vais continuar a ignorar as tuas questões em nome de algo ou alguém, ou vais questionar-te, questionando aquilo que tu ainda não encontraste explicação o bastante clara para justificar as tuas e as ações dos outros?

 

O inferno não existe, foi-nos apresentado pela igreja, e construído por nós!


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