Um dia de luto nacional, e um milhão de posts na internet!

 


(photo by: Aida Duarte - Orgulho de ser bombeiro)

Uma vez mais se chora – quem chora – a perda de militares que em tempos de paz e no combate contra a ignorância e a falta de senso e respeito pelo que é seu, pelo que é de todos, e que por isso colocam a vida destes e dos que ao lado do delito vivem, em risco!

 

Não vi as notícias, mas acredito que os “altos” dignitários do nosso país algures tenham denominado também estas vítimas de HEROIS, num discurso retorico e impregnado de politiquice, que como aquelas publicidades muito coloridas para atrair clientes, e esconder uma panóplia de ingredientes nocivos à saúde.

 

- Não deviam os nossos heróis e heroínas – que são mais que muit@s e em diferentes áreas que por isso aqui não nomear – serem pessoas reconhecidas pela sua ação de todos os dias, uma ação de prontidão em nome do outro? Não devíamos TODOS e sem malicias e ou aproveitamentos de espécie alguma, trata-@s como HEROIS que de fato são?

 

Mas tenho outra questão!

- Não deviam os nossos heróis e heroínas – que repito são muit@s nos mais diversos ambientes – serem mais bem remunerados? Melhor, e talvez até mais importante, não deviam as suas famílias serem remuneradas com algum tipo de compensação financeira porque perderam muitas vezes a única fonte de sustento, acrescento não deviam as famílias destes heróis e heroínas VOLUNTÁRI@S serem compensados de igual forma?

 

Melhor não, vamos fazer uns quantos eventos organizados pelas suas corporações, convidemos este ou aquele artista habitual, e o dinheiro arrecadado distribuímos pelas famílias como um gesto de agradecimento, ou devemos dizer caridade? Sim porque não raramente estas famílias sobrevivem à perda dos seus entes queridos por atos de solidariedade e caridade.


  • Intervalo salarial máximo e mínimo da maioria dos trabalhadores Bombeiros - a partir de 617 € para 1 041 € por mês - 2024.
  • Um/uma Bombeiros ganha normalmente entre 617 € e 786 € brutos por mês em início de carreira.
  • Após 5 anos de serviço, aufere entre 658 € e 885 € por mês com uma semana de trabalho de 40 horas.

(by: Meusalario.pt)





(photo by: TVI)


Lamentamos enquanto nos debruçamos sobre mais uma cervejinha e um prato de tremoços na versão pobre ou hippie do proletariado, ou então um belo rose acompanhado de um cocktail de camarão enquanto olhamos ou o mar lá da cidade, ou as águas cristalinas de umas férias mais que merecidas num qualquer paraíso tropical (enquanto os há), o cansaço brutal dos soldados da paz como são chamados, se bem que enfrentar as chamas é um ato que pode ser tudo menos de paz.

 

Dormem o que podem nas margens das chamas ou da terra queimada, ou bebem um copo de leite banham-se cabeça abaixo com um pouco de água, e quais Joana D’Arque regressam ao campo de batalha munidos da escassez da água nas mangueiras, da impotência perante o rugido feroz das chamas, da incerteza dos seus estarem a salvo ou não deste monstro com mais braços que um polvo, numa dança possuída como quem está numa trip de ácidos, e fazem isso tudo não hoje, mas também amanhã e depois, até caírem sobre a terra seca e queimada num colapso mais que anunciado de quem corre sem parar, sem se abastecer, sem descanso, sem memória, …o que faz um(a) bombeiro(a) seguir enfrentando a mais feroz das bestas?


(photo by: Jornal Público)

 

Desta feita os elementos que conhecemos com manutenção das leis e regras sociais vigentes, o corpo da GNR, faz também parte desta equação, enquanto “bombeiros” aerotransportados e nessa modalidade combatem ou apoiam o combate aos incêndios desde o ar, perderam a vida já no regresso a “casa”, depois de alguma anomalia na aeronave ter obrigado o piloto a amarar, um processo que não sendo nada simples, acabou da pior maneira possível.

 

Decretamos um dia de luto pelas vítimas mortais, e de seguida vamos em busca dos culpados, das razões pela qual uma aeronave, que com toda a certeza era robusta e seguida a sua mecânica com profissionalismo e afinco, caiu, decerto não se percebe, terá sido erro humano?

Porque é que nesta equação das culpas e razões culposas, nunca surge a falta de financiamento e ou financiamento reduzido, pobre, insuficiente, dedicado à manutenção destas e de outros itens moveis e imoveis necessários para um saudável funcionamento das estruturas e dos operacionais nelas envolvidos, ou a exercer funções? Porque é que procuramos culpados em quem exerce, fazendo o milagre da multiplicação apelando aos deuses – sejam eles quais forem – que tenham feito bem as contas e assim mais que ir, consigam regressar à base sãos e salvos? Porque é que a quem está a montante deste “rio” burocrático NUNCA é culpado de nada!?

Já alguém imaginou um cozinheiro fazer omeletes, sem o dono do restaurante comprar ovos?

 

Vamos por isso e mais uma vez lamentar muito, rezar umas quantas missas, inventar “à la minuta” uns apoios quaisquer, e pontuais, e amanhã com uns raios de sol na pele, e na temperatura certa, o povinho já esqueceu e seguimos caminho.

 

Somos uma sociedade que tem medo, tem mesmo muito medo, a diversos níveis e que por isso, continua a tapar buracos com o que tem à mão, sem nunca repensar e refazer a estrada.

 

Ironias à parte, quero deixar aqui o meu respeito por todos os elementos que compõem as nossas forças da autoridade, e corporações de bombeiros, manifestar que vos aplaudo diariamente na minha certeza de que quando for preciso estarão lá com o melhor que tem de vós. Assim como aproveito para dirigir um abraço sentido e profundo de pesar porque quem desta e de todas as demais vezes perdeu os seus quando eles tentaram salvar mais um desconhecido de momentos de aflição e sufoco.

 

Não acredito que tenhamos quem quer que seja com estofo para enfrentar as falhas que temos no nosso sistema, renovando e tornando o mesmo definitivamente eficaz, e por isso mesmo acredito que quando estes de quem aqui falo, baixarem os braços e as pessoas perderem os seus bens, as suas vidas, ou dos seus, o nosso país experimente tamanha convulsão, que só ai vai repensar que a nossa existência tem de ser com base na nossa felicidade e dignidade.

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