Nada está assim tão mau que não posso piorar!
Os fogos parecem ter acalmado, mas a desgraça pode não ter terminado!
Enquanto
o nosso país ardia, algures na Europa afogavam-se a luta de uma vida de
centenas ou milhares de pessoas, lá como cá quem “dirige” os destinos do povo
anda demasiado ocupado a contar votos, mas que a se rodear de pessoal
verdadeiramente competente nas mais diversas áreas, para pensar realmente um
país, uma nação, que se preocupa com os seus.
Os
políticos de lá não são diferentes dos de cá, vamos encontrar bolsonaristas, lepenistas,
trumpistas e cheguitas em todo o lado, eles com a banha da cobra que tudo
resolve, solução de todos os males, os outros, com o verbo pronto emaranhado em
linhas e parágrafos brilhantes quase como um anuncio de bebidas energéticas, e
ano após ano, desgraça após desgraça, nós, uns engolimos, outros ignoram, e
ainda outros levam o protesto para a rua, e por isso são olhados como
agitadores, revolucionários, e não poucas vezes apontados como sendo deste ou
daquele partido do outro lado oposto ao que está em exercício.
A
questão que se debateu em 2017 mantem-se nos dias de hoje, como aliás, já se
questionava antes de 2017, porquê que os eucaliptais das empresas de pasta de
papel não ardem?
Parece
haver uma barreira invisível entre as outras propriedades e essas que sustentam
uma indústria, decerto vão arder quando desejarem obter financiamento através
dos seguros. Não vale dizer que essas propriedades estão bem ordenadas,
vigiadas e com bombeiros próprios e que por isso o fogo não chega lá, porque o
fogo parece consciente e nem se aproxima dessas propriedades.
Pedrogão
Grande foi a prova provada de que enquanto contribuintes somos vistos apenas
como números, como número de votos, e contexto para discursos políticos
empolgados, não somos mais que isso, talvez sejamos ainda os bobos de uma
corte, que em época de campanha babamos, osculamos esses maestros da
hipocrisia, do politicamente correto, do verbo demagógico que qual nevoeiro nos
tolda a visão, e nos faz comportar como serviçais de uma corte putrificada.
Queria muito não ter razão, queria mais ainda
afastar-me da ideia de que tudo isto, todo este comportamento, toda esta
dinâmica politica e social, nada tem a ver com a nossa ascensão à democracia,
que toda esta estrutura e a forma como se movimenta e pensa, nada tem a ver com
o a revolução do 25 de Abril e como ela se apresentou ao nosso país.
Quando
temos uma criança tão brilhante como a LIBERDADE e lhe negamos parte da sua
filiação, então essa criança não filha de ninguém, sobrinha ou irmã de quem
quer que seja, porque esta família que são os portugueses, não é e não pode ser
apenas de brancos, de homens, de pessoas cis, de letrados, de héteros, de
pessoal com posses, …Portugal e os portugueses são uma mescla de pessoas, umas
com mais acesso a bens e serviços que outras, por isso umas mais letradas que
outras, e apenas por isso.
Mas
quando essa criança nasceu, alguém disse que ela não era parente de tod@s os
portugueses, havia uns que não teriam acesso a segurar no colo a LIBERDADE.
Perante
isto a estrutura da democracia cresceu debilitada, e essa fragilidade traz-nos
até hoje, onde os portugueses que não fizeram parte da equação no nascimento da
democracia, e todos os outros iludidos com promessas de mudança, e que não
perceberam que os outros também eram eles, padecem hoje nas margens de uma
corrida nojenta da qual nunca fizeram parte, onde são meros espetadores.
E
aqui chegados, os fogos representam talvez o ápice dessa desestruturação onde
vidas são lavradas de várias formas, pelo desespero, pela perda de bens
materiais, animais e da própria vida, onde os lutos são decorados com palavras
bonitas, e promessas de renovação, onde quem pode se espanta com a sua ineficácia,
e quem está do lado diz ter a solução divina, já para não falar dessas novas
forças que surgem como os messias dos novos tempos, capazes de milagres tais
que confeccionam omeletes sem ovos, e no seguimento dessas atuações as cinzas
misturam-se com o sangue e as lágrimas de quem perdeu tudo, de quem perdeu a
vida derretida no calor da ganancia, do egoísmo, da carreira de mais um patamar
cada vez mais próximo do infinito porque o desejo de poder do ser humano não
tem limites, indiferente de quem serve de piso ou escada nessa ascensão.
Batemos
todos os recordes desde 2017, vítimas mortais, e área ardida, e de lá para cá
nós não deixamos de ser esses parolos, espetadores nas margens dessas corridas,
onde os objetivos são só dois, enquanto uns sobem, os outros aplaudem, e de forma
ordeira perfilam no beija-mão pagando o dízimo, elegendo uma vez mais os
carrascos que no vão sugar a vida, sem consequência quando as feridas expostas colapsam
em hemorragias permanentes, contidas com farrapos de uma vida miserável.
As
matas e os bens das pessoas, ou as suas vidas não foram queimadas, não, antes
são parte de um sistema obtuso e implacável na sua demanda, por isso façam um
favor, poupem-nos dos vossos discursos, dias de luto nacional, até de indemnizações
insultuosas de trinta dinheiros, porque tendo em conta a evolução dos tempos,
as alterações climáticas (que tem o seu papel neste processo), o descaso
sistemático, a falta de meios, e mais umas quantas anomalias, decerto para o ano
estamos de novo, a lamentar muito, e em busca de mais uns quantos bodes expiatórios.
Mas
como diz o ditado nada está assim tão mau que não posso piorar!
Enquanto
Portugal derretia no calor das chamas, algures na Europa países como Roménia, Áustria,
Polónia e Chequia (antiga república checa) afogavam-se em dilúvios que diz quem
sabe, históricos e que levaram na corrente até ao momento 15 vidas, havendo
ainda algumas desaparecidas, mas olhemos então a previsão meteorológica para os
próximos dias, sendo que até já choveu, felizmente pouco.
Ainda
ontem a previsão era de 60 milímetros por metro quadrado para quarta e
quinta-feira próxima, hoje a coisa alterou-se para uns mais agradáveis 20 milímetros,
sendo, no entanto, ainda complicados tendo em conta que temos grandes extensões
desprovidas de proteção. Os incêndios deixam para trás uma armadilha tão mortal
como o fogo, se formos atingidos com altas precipitações estamos sujeitos a uma
erosão hídrica que pode atirar encosta abaixo cinzas e outros detritos que
podem provocar inundações graves, e varrer tudo que apanhar pela frente de
forma violenta, assim como os deslizamentos são também uma possibilidade.
Super
importante avaliar o mais rapidamente pontos críticos, e colocar “travões” ou
elementos de contenção, como estacas espetadas no solo. A replantação tem
também de ser executada no sentido de restituir aos solos a segurança, a
firmeza que as raízes e a ramificação oferecem aos solos e que representam um garante
da nossa segurança, mas como disse acima, decerto que as nossas autoridades e
diferentes entidades competentes já estão todos sentados a planear todas estas
ações e outras que nem fazemos ideia, mas decerto super importantes, já sabemos.
Continuemos
absorvidos pela comida gordurosa dos BigBrothers, da Nsª Senhora, e dos campeonatos
de futebol, porque vão ver que morreram de colesterol, da vossa ignorância, ou
então dos incêndios, das cheias ou das torrentes de lama.
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