Já alguém escutou o silêncio?
Já alguém escutou o silêncio?
Estes dois últimos dois dias, (seg. e ter), aconteceu em
Coimbra o 𝟭𝘀𝘁 𝗜𝗻𝘁𝗲𝗿𝗻𝗮𝘁𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹
𝗙𝗼𝗿𝘂𝗺
𝗼𝗻
𝗟𝗚𝗕𝗧𝗤𝗜+
𝗔𝗴𝗲𝗶𝗻𝗴
𝗶𝗻
𝗦𝗼𝘂𝘁𝗵𝗲𝗿𝗻
𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗲!
do qual tive a oportunidade de estar presente, e onde orgulhosamente participei
como um dos speakers, tendo reavivado um tema que para mim é caro, mesmo sem
entender porquê que sempre me interessei por ele, mas talvez porque tive um avô
que amei e muito aprendi.
Em 2004 quando do VIII congresso Afro-Luso-Brasileiro passou
por Coimbra e pelo CES, tive a oportunidade de ter sido convidado a apresentar
algo relacionado com o tema desse congresso, “A questão social no novo milénio”.
Antes de mais quero que percebam que continuo na mesma, o
meu nome não mudou, apenas tenho uma coisinha hoje que não tinha na época, uma formação
superior, porque muitos saberão que me formei em sociologia, e me encontro
agora a fazer o mestrado em criminologia, mas de resto o meu nome continua a
ser o mesmo.
O que quero dizer com o paragrafo anterior, é que na minha
mesa constavam títulos como mais que um professor doutor, e doutores, e eu
apenas o João Paulo, ativista e editor do PortugalGay.pt. Os meus pares de
sessão iram falar tudo aquilo que eu gostaria de falar, juventude, educação, e
por aí ia, então foi num passeio pela baixa que me ocorreu a ideia de um tema
até então nunca abordado, pelos vistos no mundo, mas já lá vamos.
“O eu jovem; O eu idoso, dois temos a mesma realidade!”,
confesso que não me apetece ir agora procurar onde guardei a minha apresentação,
até porque, entretanto, mudei de PC e houve arrumações, mas o meu título era
mais coisa menos coisa, isto mesmo. E com este tema pela primeira vez falou-se
em Portugal da terceira idade LGBT+. O meu ponto na altura foi, que quando
estamos na primeira idade, vamos entender teenager, e na minha geração e
anteriores, trocávamos os “ós” por “ás”, seja, na nossa agenda não tínhamos amigos
tínhamos amigas, não era o Mário, era a Maria, e por aí ia. Mas quando chegados
à terceira idade, ora porque somos institucionalizados, ora porque vivemos sozinhos,
e porque de alguma forma perdemos a nossa rede de apoio, voltamos a trocar os
pronomes, mas desta feita, não na nossa agenda, mas na nossa vida. Nós fomos
felizes não com o Carlos, mas com a Carla, negando assim todas as referências simbólicas
e nominais da nossa história, no sentido de sobrevivermos a mentalidades,
sistemas, processos, da nossa sociedade, que descobrindo a nossa orientação sexual
tem o poder de tornar a nossa existência um inferno, o poder de nos fazer vítimas
de bullying por parte de vizinhos e ou funcionários de instituições de cuidados
a pessoas de terceira idade.
Quando disse antes que parece que também no mundo nunca se
tinha abordado o tema, de uma forma séria, e consistente, foi porque quando
terminei a minha apresentação (cagado de medo), os referidos doutores e
professores doutores, vieram a mim querendo saber mais.
Passados 20 anos precisamente, esta segunda-feira trouxe de
novo o tema, desta feita centrado apenas nos idosos LGBT+, com o título “Da
primeira à terceira idade, …que liberdade?”.
E acreditem não é porque tenho uma formação académica diferente
de 2004, e almejo outra, que fiquei menos ansioso, afinal os meus pares ali
presentes, tem muito mais experiencia no que se prende com a investigação que
eu, e o meu trabalho é baseado numa observação participada, e alguma, pouca,
literatura por mim lida, seja, a base da minha fala é ainda bastante insipiente,
mas mesmo assim parece ter sido válida, tendo em conta que foi aplaudida, e posteriormente
referenciada em intervenções posteriores.
Sendo que desta feita, a questão que levei, foi a falta de conteúdos
na formação nomeadamente de gerontólogos, que mais que a fluidez da sensibilidade
do docente, seja um ponto obrigatório e de base na formação de gerontólogos e
cuidadores, sobre as questões especificas que envolvem as pessoas de idade
LGBT+.
Assim e porque hoje assino como sociólogo, além de ativista,
e porque em breve se espera assinar como mestre em criminologia e licenciado em
sociologia, o tema pegou, fará parte do futuro, a recuperação dos testemunhos
do passado, recolha de novos testemunhos, uma metodologia definida, no sentido
de construir um trabalho fundamentado, sobre a terceira idade LGBT+ no nosso
país.
Assim este que foi o primeiro fórum, terá nova edição ano
que vem, dado que correu muito bem, debateu-se pontos de vista diversos,
conheceu-se realidade que por vezes temos ideia de que serão distantes da
nossa, mas que na verdade algumas, parecem tiradas a papel químico, com as
devidas distâncias culturais e geográficas que lhes assiste. Houve mesas que se
tivéssemos juntado os trabalhos apresentados teríamos conseguido um produto
muito rico, ou ainda mais rico.
Porque, já alguém escutou o silêncio que reside na vida de demasiadas pessoas cuja a idade, lhe chamam terceira, talvez porque muitos, demasiados, são tratados como cidadãos e cidadãs de 3ª?
Fica um grande agradecimento à organização do CES – Centro de
Estudos Sociais, pela oportunidade de mais uma vez fazer parte de um evento de
grande interesse onde o conhecimento surge como uma refeição deliciosa.
A tod@s o meu elevado bem-haja.
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