Nenhum de nós está sozinho!

 


Nenhum de nós está sozinho!



Provocado pelo elogio de um amigo, atualmente uma espécie de meu compadre, já que adotei como meu sobrinho emprestado o seu filho, onde ele dizia que, ia ter gostado de ter um JP como eu nos tempos da sua juventude, e adicionou a esta afirmação uns quantos elogios que obviamente agradeço, enquanto fico assim que meio sem jeito porque não sei lidar muito bem com elogios, mais que não seja porque o que faço e digo vem de um sítio onde a mentira, a agenda, o protocolo não funciona.

 

Pegando na provocação, eu tenho de dizer a todos os jovens e menos jovens que possam eventualmente ler estas linhas, vai depender de quanto se partilha o meu texto, “NENHUM DE VÒS ESTÀ SOZINHO ou SOZINHA!”, não mesmo, porque seria até ridículo pensar assim, sendo que somos milhões de seres humanos neste mundão, e acharmos que passamos determinadas agitações na vida sozinhos, que só a nós é que isto acontece, e que esta ou aquela razão é apenas a nossa razão, infelizmente a nossa razão é a mesma de tantos outros, que como nós atravessam momentos das suas vidas que NENHUM devia experimentar.

 

O ser humano é um agente muito complicado, para além da construção que envolve todo o processo do nosso crescimento, há características com as quais nascemos, e que expostas a certos elementos desencadeiam respostas, e mesmo dois indivíduos com as mesmas características de partida, não respondem sempre da mesma maneira, porque no processo dessa nossa formação como pessoas, são milhentos os elementos que interferem na provocação dessas respostas.

 


Penso que um bom exemplo, até pelo seu extremismo, são os “serial killers” que podemos na análise das suas personalidades, coisa que faço nos inúmeros programas que falam desses indivíduos, e outros onde eles mesmos expressão os seus sentimentos, avançar com a hipótese de que se alguns deles não fossem expostos a um conjunto de estímulos, eventualmente NUNCA teriam matado, ou até da mesma forma os violadores, a hipótese de que se esses indivíduos (maioritariamente homens) tivessem tido uma vida sexual inteiramente satisfatória talvez NUNCA teriam violado. Hipóteses, sim, mas que em falta de melhor análise não podemos dizer que não é bem assim, que quando se nasce com determinadas aptidões sem dúvida vai acontecer, …será!?

 

Dizem que ser-se mãe é algo intrínseco á mulher, diz-se, mas a realidade mostra outra coisa algo diferente dessa premissa. Há inúmeras mulheres cujo o seu plano de vida não contempla ser mãe, não porque não tenha aptidão física, biológica e cognitiva para isso, mas porque tendo em conta todos os demais estímulos obtidos na sua construção como pessoa e mulher na sociedade, ser mãe, não representa mais um objetivo. Da mesma forma tem mulheres que cumprindo com o “desígnio” biossocial de ser mãe, na verdade nunca passaram de progenitoras e apenas isso, porque na verdade essa criança, no seu dia-a-dia não representa uma prioridade, aquela criança não é mais que uma satisfação da pressão social, e eventualmente familiar (sendo esta também pressionada pela sociedade), para ser mãe.

 

Quantas vezes não ouvimos alguém dizer que uma mulher sem ser mãe não está completa, e se andarmos um pouco para trás (não precisa ser muito na verdade), as mulheres que optavam por não ser mães eram olhadas com desdém, e as outras que por razões da biologia, não alcançavam, eram vistas como coitadinhas, mas ambas olhadas e apontadas como incompletas.

E quantas vezes, ou melhor, quantas não são as histórias que conhecemos de pessoas, enquanto casais heterossexuais, que achamos que NUNCA deviam ter sido pais, progenitores, quantas vezes olhando as condições físicas e de tratamento de certas crianças pelos seus progenitores nós mesmos dizemos que esses nunca deveriam ter trazido aqueles inocentes ao mundo.

Seja, temos uma dualidade de raciocínios, por um lado criticamos as mulheres (os casais) que não querem filhos por opção, e depois os que têm e descuidam também criticamos, mesmo tendo esses últimos cumprido com a pressão social, e até política, (precisamos aumentar a natalidade, a sociedade está envelhecida, incentivos financeiros e outros à natalidade).

 


Aqui chegados, foquemos o discurso nos inocentes deste processo opressivo do que cada um tem ou não de fazer enquanto pessoa, os filhos.

Gente a vossa vida de humilhação, abandono, até maltrato físico e emocional, nada tem a ver convosco, mas antes com aqueles que depois de vos trazer ao mundo têm a obrigação de cuidar e amar acima de tudo que exista nas suas vidas. Trazer um ser humano ao mundo é transformar a nossa vida num redemoinho onde tudo corre no mesmo sentido, para o centro, para o cuidado e criação desse ser humano que durante algum tempo será, indefeso e necessitado de uma atenção única. Nesse processo de atenção e criação, deve ser competência do adulto apresentar instrumentos vários de defesa – não ponhas os dedos nas tomadas – e de autoafirmação enquanto pessoas. É responsabilidade do adulto, apresentar o mundo como ele é, sem coloridos onde apenas tem cinzento e negro, e sem tons opressivos onde tem mais é cor. É responsabilidade do adulto abrir o mundo a esse jovem ser, fazendo-o sentir que seja qual for o lugar que o conforta como pessoa, esse será o lugar que os seus adultos responsáveis vão celebrar com ele, celebrando em conjunto a sua individualidade.

 

Lindo, não!?

Mas sabemos que isso nem sempre é o que acontece, na verdade a maioria dos progenitores empurram os seus rebentos em direções que não foram eles que escolheram, até porque demasiadas vezes o caminho desses jovens seres está traçado pelo punho dos seus progenitores, e não raras vezes quando esses jovens se “desviam” desse traçado optando novos caminhos, novas formas de estar na vida, são enjeitados por aqueles que os colocaram no mundo, porque desvirtuaram o que haviam planeado para eles, esquecendo a individualidade dos filhos, as tais características com as quais cada um nasce, e que para além das paredes de casa, vão encontrar estímulos que lhes apresentam outras possibilidades que não as que lhes foram apresentadas em casa.

 

Mas o meu foco maior está naqueles progenitores, e não digo pais ou mães de propósito, que diminuem continuamente os seres que colocaram ao mundo. De que não capazes disto ou daquilo, ou de tudo, de que são uns burros, (quantas histórias de vida conheço com estes e outros verbos), de que foram um erro da natureza, ou num tom mais claro, nunca haviam de ter nascido.

E quando acham que o verbo não basta para humilhar, o fazem acompanhar com violência física, traduzida em tareias e, ou descuidado físico como banhos e, ou o dress code disponibilizado.  Não são poucas as histórias que cada um de nós conhecerá neste sentido, de jovens, crianças, malcuidadas e desprovidas de carinho, de amor, sentimentos que buscam junto dos que os cercam de variadíssimas formas, aliás uma busca que nos levaria numa viagem longa, extensa, e não raramente ultrapassaria dimensões que para o comum de nós, serão até impensáveis. 

 

Perante um quadro de estímulos negativos, por isso pobres de elevação, esses jovens têm tudo para dar errado, no entanto são também imensas as histórias de um aparente sucesso, vidas que se constroem longe desses quadros obscuros, e se afastam da delinquência. Pessoas que no seu papel de progenitores tentam dar o melhor de si, tantas vezes reproduções daquilo que é oferecido pelos meios de comunicação social, que apresentam famílias que nunca tiveram e que veem como “perfeitas”, como aquilo que gostavam de ter tido, e que dentro do que lhes será possível apresentaram aos seus filhos. Mas também os há, os que vão reproduzir quadros de depreciação e reprovação, e até de violência física, aliás um efeito tão comum que foi estudado exaustivamente e que se dá o nome de "Síndrome de Estocolmo".

 


Salva-nos o fato de o ser humano ser um animal resiliente e insatisfeito por natureza, mas também social, gregário. Um animal que precisa de se sentir relacionado com, fazer parte de, e capaz de entender a consequência menos positiva de comportamentos legal e socialmente reprovados, que pela sua maior ou menor integração os introduz ou afasta de caminhos contorcidos da sociedade em que todos tentamos diariamente sobreviver o melhor possível.

 

Por isso aos jovens de hoje que sobrevivem a "famílias" toxicas, fica o anúncio de que não estão sós nessa vossa sobrevivência a pessoas que vos deviam amar, mas que vos apresentam um cenário de violência em diferentes dimensões, e de um quase total descaso. Procurem a relação com o oposto da vossa realidade, apostem na vossa formação, estudem muito e estudem tudo, porque (in)formação é poder, uma ferramenta valiosíssima para enfrentar as milhentas adversidades da vida, que vão inevitavelmente muito além do espaço e das pessoas com quem vivem neste momento.

Aos adultos que sobreviveram a esses quadros negros, de desamor, descaso, até abandono, aplaudam-se todos os dias, por terem sobrevivido e construído caminhos limpos, com cores de todo o tipo, numa relação com os outros de harmonia, respeito e camaradagem. E se encontraram alguém nas vossas vidas e juntos estão a construir os vossos pequenos ou grandes “impérios” amem-se, e amem o que juntos constroem, deão o melhor de vós todos os dias, não esqueçam o passado, mas usem como uma espécie de manual do que não querem nas vossas vidas, e nas vidas daqueles que hoje cuidam, e cuidem não definindo caminhos, mas antes dando ferramentas para que na construção dos seus caminhos, o façam da melhor maneira, da maneira que os identifique, os definam como pessoas boas, muito mais do que como pessoas desta ou daquela cor, desta ou daquela identidade, ricos ao pobres, …dizem que mais importante que o destino é a viagem, por isso absorvam a viagem, todas as viagens, e eu acrescento, mais importante que o que nos move, um Rolls ou a pé, o importante é chegar, e chegarmos acompanhados é sempre melhor que chegar sozinho.

 

Uma homenagem ao nortenho feito algarvio, à sua lindíssima esposa, e fantástico rebento, obrigado por fazerem parte da minha/nossa vida!


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