O Bairro, a PSP, e Nós!

 

                                                    (photo by: Noticias ao Minuto)

E aí vamos nós, tipo jogo de ping pong, a atirar calhaus de um lado para o outro!

 

O exercício é antigo, atiram-se palavras como balas, que de verdade o são tantas vezes, acusações de lá para cá e de cá para lá, mas mais devastador que isso, são as teorias criadas, que mesmo que conhecidas porque também já não são de hoje, que dizem que “bandido bom, é bandido morto!”, o que é desde logo uma contradição em termos, já que a definição de bandido é bem negativa.

 

A palavra vem do italiano, e deriva do latim vulgar bannire, que significa "proibir" ou "banir", ainda significa "declarar" ou "condenar publicamente". Na Itália medieval, um “bandito” era alguém banido ou expulso da sociedade como punição por algum crime.

A palavra "bandido" refere-se a uma pessoa fora da lei, o termo historicamente traz a conotação de exclusão social, pois um bandido era aquele que, após ser expulso da comunidade, vivia à margem da sociedade, muitas vezes envolvendo-se em atividades criminosas.

 

---------------------- Primeiro as pessoas comuns --------------------------

 

É nesta última linha que para a mim a “porca torce o rabo” e podemos relacionar vários pontos relativos a esta afirmação “assassina” de que “bandido bom, é bandido morto”.

As pessoas do bairro, seja ele onde for, são pessoas ostracizadas pela estrutura social restante, bem como política, são parte da origem da palavra – bannire; banir; condenar publicamente -. Quando se fizeram os bairros sociais a ideia era dar casa a quem sobrevivia de baixa renda, e dessa forma respeitando a constituição portuguesa e realizar o que lá está plasmado de que “1. Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.”. (CRP, Parte I, Título III, Capítulo II, Artigo 65.º), mas quando o fizeram tiveram o cuidado de colocar esses bairros nas periferias das cidades, ou nos blocos geográficos mais problemáticos, porquê? Porque essas pessoas já estavam “condenadas” à partida, porque essas pessoas não são, nem nunca foram uma prioridade, elas representam votos, bodes expiatórios para decisões políticas, inspirações que resultam em votos, em medidas que angariam simpatias, e que mais uma vez resultam em votos, e tudo junto em carreiras políticas. E não se iludam porque o problema vai de um espectro ao outro, se bem que muito menos evidente no espectro esquerdo das orientações políticas.

  

Posto isto pergunto, como é que acham mesmo que pessoas que são constantemente ostracizadas diariamente em todos os planos da sociedade, acham mesmo que as conversas em casa serão de harmonia, paz e amor para com a sociedade? Acham mesmo que os julgamentos, diários, os olhares, os afastamentos, os sussurros de que “é do bairro” não são parte integrante da educação mesmo que indireta dos jovens de cada família?

E como acham mesmo que tudo vai digerido?

Se tem quem consiga digerir e avançar, e conheço casos, outros tem que nunca deixaram o bairro, e menos ainda tiveram uma boa digestão da repressão, que passou de pais para filhos, os filhos do bairro na escola pública, os que usam o que os outros já não querem, ou os que por uma multiplicidade de razões não tiveram o mesmo desenvolvimento cognitivo que os seus colegas, e depois as sapatilhas de marca ou o último i-phone não condiz com o verbo que lhes transborda os lábios.

Que resultado pensam que poderá vir daí, estes jovens são barris de pólvora aguardar a mais pequena faísca, enquanto o resto de nós relaxa sobre as letras gordas de mais uma ofensa, uma agressão, um insulto, prostrados nos escaparates de qualquer tabacaria, enquanto devoramos com sorrisos mais um cafezinho um queque!

  

Não estou com isto a aprovar as ilicitudes, a vagabundagem, os crimes antes e depois de as coisas correrem menos bem, nem tão pouco estou a encontrar desculpas, apenas a debater que as coisas não surgem do abstrato, as coisas tem explicações que mesmo sabendo que não agradam a quem quer implementar mais esquadras mesmo não tendo efetivos o bastante para as que já existem, nem os que num incentivo claro ao ódio sobre os demais tenham eles a cor e ou a classe que tiverem, afirmam que temos de poupar balas, e deixar de dar tiros para o ar.

  

-------------------- Agora a Polícia ------------------------

 

Depois dos acontecimentos havidos em Zambujal, nas redes sociais podemos ir vendo posts com uma foto de fundo negro e com o escudo da PSP com mensagens de agradecimento e apoio a esta força policial, poderemos todos pensar que quem faz esses posts são pessoas que se preocupam com esta força policial, mas depois de uma breve investigação nos perfis de algumas dessas pessoas verificamos que não estão nem aí para com as forças de segurança. Nuns casos até revelam posições antagónicas a esta que agora exibem.

  

Será que essas pessoas sabem que a taxa de suicídio entre as forças de segurança é de 16,3 por cada cem mil habitantes face a 9,7 da população em geral, creio que não, porque o incomodo, se é que ele existe, é o do momento, pretende apenas ficar bem na fotografia da MOB social, da rede, porque na verdade não estão nem aí para a polícia.

 

As coisas podem ter mudado, coisa que até duvido que se mudaram tenha sido para melhor, mas também sabiam que a polícia em Portugal não faz carreira de tiro tanto quanto deviria ou seria de esperar? Sabiam que numa perseguição automóvel a policia não pode exceder a velocidade estipulada por lei? Sabiam que a policia caso tenha um acidente com a viatura de serviço é o condutor que é responsável quem é responsabilizado pelo arranjo? Sabiam que caso danifiquem a farda no exercício das suas funções, tem de pagar por ela?

Pois foi o que pensei, e como disse a menos que as coisas tenham mudado muito, mesmo muito, e para melhor, a vida de um polícia não é esse paraíso que podem pensar que seja quando os veem parados algures numa rua qualquer a fazer nenhum, estão por vezes apenas e só a relaxar a fazer por baixar a adrenalina, depois de turnos seguidos.

Se acharem que a vida policial é mesmo esse mar de rosas, como explicam que não há quem queira preencher as vagas existentes, e por isso continuamos com um défice de policias!?

Não vai assim há muito tempo que policias dormiam em cobertas frias e com ratos, ou nas suas viaturas particulares entre turnos.

 

Jovens agentes da PSP dormem em carros e pensões "mal frequentadas"

(Público; 15 de Março de 2004)

 

Polícias estão a dormir em cartões e sacos-cama.

(RTP; 19 Maio 2013)

 

O presidente do Sindicato Independente dos Agentes da Polícia (SIAP), Carlos Torres, alertou para as condições precárias da PSP nos Açores, acusando o Estado de falhar nas suas obrigações.

(Açoriano Oriental; 21 de Out de 2024)

 

Seja, esperamos todos que estes operacionais estejam em perfeitas condições emocionais, cognitivas, até físicas para o exercício das suas funções que é a manutenção da ordem pública e a paz de TODOS sem distinção de cor de pele, classe social, ou profissão/cargo.

 

Mas estamos no caso a falar de um outro tipo de PSP, uma espécie que é treinada (pelos vistos) para com base num julgamento, numa avaliação racista, xenófoba, classista, porque é na verdade uma guerra de classes, a atuar com toda a violência, e não sou eu quem fala, são as imagens presentes nas redes sociais. Eu vivo rodeado de bairros sociais, tem pessoas do conflito?, tem, mas uma grande maioria são pessoas de trabalho, dedicadas a sobreviver do seu trabalho como aliás a maioria de nós. É porque eu tenho conhecimento dessas outras pessoas ligadas a comportamentos de conflito que eu vou julgar o bairro como um todo?, quem o fizer mais que um bruto, não passa de um ignorante, preconceituoso.

 

O risco de cometermos diversos falsos juízos é elevado, e quando culpamos os operacionais das autoridades estamos a fazer o mesmo que nós enquanto espetadores, vimos esses operacionais fazer a determinados grupos sociais, mas o que esquecemos é que esses operacionais são elementos de uma força policial, que respondem a ordens vindas de cima, primeiro dos seus comandantes, e estes dos políticos colocados em escada, desde as Camaras Municipais até ao Governo. Pegando na sétima arte que eu aprecio muito, e no filme “Tropa de Elite” a personagem Capitão Nascimento, na sua audição no parlamento brasileiro diz uma coisa muito interessante, diz ele explicando porque é que as intervenções policiais com resultados de perda de vidas o seguinte “Eu prendo o marginal, mas o sistema é f*da e manda soltar. A culpa não é só minha, não. [...] Quem matou esse cara fui eu. Mas eu não puxei o gatilho sozinho, não. Quem matou esse cara foi o sistema.”, esse bicho papão composto por um conjunto de protocolos, normas institucionalizadas, que NUNCA tiveram como prioridade o cidadão comum, mas um grupo bem mais acima, uma elite distribuída por não sei quantas camadas da sociedade, que adora uma venda de Natal para ajudar os pobrezinhos, desde que eles fiquem bem lá arrumadinhos nos seus cantinhos, aos quais foram destinados.

 

Como antes não estou a encontrar desculpas para o que aconteceu no Zambujal perpetrado pelo policial, como antes estou apenas a debater que as coisas não surgem do abstrato, as coisas tem explicações que mesmo sabendo que não agradam a quem está a sofrer, e no caso, não apenas à família que perdeu um dos seus elementos, mas a TODAS as pessoas que são vitimas de ostracização a vários níveis e desde sempre, a verdade é que os/as policiais são pessoas, que também eles sobrevivem em contextos muitas vezes insuficientes para galvanizar o stress diário e a pressão institucional existente, que repito não é desculpa para o sucedido, mas uma de muitas variáveis que terão colaborado para o desfeito que conhecemos.

 

 ---------------------  Discussão -------------------------

 

 Assim a pintura está errada não nesta ou naquela cor, ela está errada logo no tipo de tela que decidimos pintar este quadro.

 

Por um lado, temos um conjunto de bairros sociais que foram abandonados à sua sorte, e digo isto porque as autarquias nomeadamente, sabem que lá reside, são as autarquias que destinam as pessoas aos bairros por candidatura aos mesmos, ou por terraplanagem de habitações precárias, realojando essas pessoas em bairros sociais. Por isso as autarquias em primeira instância sabem das potencias limitações dos habitantes desses bairros, bairros que no passado os reis do chão eram reservados a projetos de sociabilização, esses mesmos reis do chão hoje são habitações, porque talvez haja escassez, porque se calhar deixou-se de investir na habitação social. De novo as autarquias e as policias sabem dos focos potenciais de conflito existente nesses locais, mas ao invés de intervir numa postura proativa de sociabilização e de contenção de potenciais conflitos, não, ficaram todos de tocaia aguardar que os conflitos se dessem, conflitos que servem os intervenientes, camara e polícia. A autarquia porque ao enviar a polícia ganha a simpatia dos habitantes alheios ao conflito, e por isso votos. As autoridades, que no desenrolar das suas ações lamenta a falta de meios eficazes para esta ou aquela ação, obrigando a uma maior atenção sobre a sua precariedade laboral, e assim ganhar financiamento, mesmo que pontual, na aquisição desses materiais, tivemos esse exemplo no passado com a obtenção de coletes à prova de bala, que se recordarem direitinho, deu inclusive confusão porque alguém super entendido, esqueceu que os coletes para as mulheres policias não podiam ser iguais, porque não são, ao que usam os homens policia.

 

Da mesma forma as nossas forças de segurança foram igualmente abandonadas, e abandonadas a diversos níveis, logo à partida pelo acesso a cuidados de psicologia, as nossas forças de segurança deviam ser obrigadas a, em determinados espaços de tempo efetuar uma visita a serviços de psicologia afetos à força, no sentido de garantir que os nossos operacionais de segurança estão APTOS ao exercício das suas funções. Mas que o psicólogo que atende o policial não seja o mesmo que atende o delinquente, para que os dois não tenham de se encontrar na sala de espera, isso não pode acontecer.

E a admissão e continuidade na força policial, mais que uma avaliação física precisa ser uma avaliação psicológica séria e profunda, porque estes elementos vão lidar com pessoas, em quadros por vezes de grande stress, e precisam estar aptos a gerir o seu e o stress dos outros nesse momento, uma arma deve ser sem sombra de dúvida o ultíssimo recurso.

 

Seja, e em jeito de conclusão, como dizem os brasileiros, “o buraco é bem mais em baixo”, mais que refazer grupos sociais, ou forças policiais, precisamos reconstruir toda uma sociedade, no sentido de cumprir os votos que alegremente fazemos constantemente, de termos um mundo melhor, e um mundo melhor, é um mundo onde TODOS sem exceção cumpramos e façamos cumprir as regras que nos servem para uma convivência harmoniosa e multicultural, porque o mundo que vivemos é cada vez mais um só, onde para que essa harmonia exista, o ódio não tem lugar!


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