O Retorno à Idade das Trevas: Violência, Preconceito e o Caminho da Autodestruição!
Os últimos tempos tem-se revelado obscuros, violentos, como se em vez de estarmos a caminhar em reverso, já lá estivéssemos, na era medieval, na era dos medos vários onde uns e outros se impunham aos demais segundo os seus preconceitos, e exigia desses outros comportamentos que não aqueles que os libertava, mas antes aqueles que não sendo seus, os tornava cativos numa “jaula” de uma infelicidade que mata lentamente como uma torrente de lava, que aparenta morta, mas num continuo caminho de destruição.
A bestialidade
e a ignorância andam hoje de mãos dadas, tão próximas que poderíamos dizer que
se trataria de irmãos gémeos.
Poderíamos
até imaginar que essa ignorância e bestialidade seriam coisa de gerações mais
antigas, mas a verdade é que os nossos jovens estão presos em filtros que não
os deixa envelhecer, e acreditam sem escrutínio na primeira coisa que lhes
dizem, assim como os outros menos jovens, mas presos nesta coisa da Web deliram
com alegadas informações, pois ainda com maior facilidade que os anteriores, acreditam
num design que lhes parece legal, lógico, legitimo, aliado a um discurso que
fala de estudos que são eles mesmos vómitos de alguém mal amado, inconsciente, mas
talvez com tantos seguidores que difunde a sua OPINIÃO como uma conclusão
cientifica.
Toda esta turbulência
social, cria aqui e ali atos de violência, comportamentos medievais, que atiram
anos de evolução para o lixo, onde pessoas que num momento aplaudiram cada passo
dado em frente, agora apontam o dedo a grupos historicamente perseguidos e
punidos pelo preconceito.
Facilmente
assistimos ao espanto e repudio sobre as guerras entre a Rússia e a Ucrânia, ou
Israel e a faixa de gaza, líbia…, mas essas mesmas pessoas esquecem que a
guerra começa aqui, no nosso dia-a-dia, nos nossos ismos e fobias, nos nossos
julgamentos “morais” sobre os demais, porque deviam fazer dieta para não serem
gordos, deviam ter o ultimo i-phone para serem in, deviam ser héteros porque
serem gays é pecado, …um conjunto de pressupostos que depois não se aplicam a
nós mesmos, porque cada um que julga está sempre acima do julgado, porque o
julgador pode, o julgado não!
Recordo quando
da discussão extensa demais sobre o alargamento da lei do casamento permitindo
que casais do mesmo sexo acedessem a ele, um dos argumentos da ICAR era o
pecado da coisa, como se porventura a lei fosse uma coisa canónica, e os cidadãos
do nosso país fossem seguidores e ou obrigados a seguir tais desígnios. Num desses
milhentos debates onde o clero presente enunciou a bíblia como o guião que
todos seguem (só que não), eu ironicamente mudei de assunto, levando a conversa
para a gastronomia, e questionando quem ali presente não apreciava umas boas
lulas recheadas, ou um maravilhoso arroz de polvo, e quais miúdos incautos, o
clero presente ficou todo excitado em particular com o arrozinho de polvo. Retorqui,
…senhores não é mais coisa menos coisa, que uma página antes, do mesmo livro que
os senhores nos querem impor, que diz:
“De todas as criaturas que vivem nas águas do mar e dos rios, vocês poderão comer todas as que possuem barbatanas e escamas. Mas todas as criaturas que vivem nos mares ou nos rios, que não possuem barbatanas e escamas, quer dentre todas as pequenas criaturas que povoam as águas quer dentre todos os outros animais das águas, serão proibidas para vocês. Por isso, não poderão comer sua carne e considerarão impuros os seus cadáveres. Tudo o que vive na água e não possui barbatanas e escamas será proibido para vocês.” (levítico 11)
A conversa
acabou ai mesmo, esse debate foi subitamente interrompido. A destruição do mundo
representa o fim dos sonhos, as culturas diversas de cada nação e a esperança
desses povos de dias melhores. Podemos usar o tempo que temos para evoluir como
civilização, mas temos desperdiçado esse precioso tempo com preconceito e ódio (Sagan),
que resultam
inicialmente nos confrontos diários, e terminam nas guerras (todas) sem
sentido.
Somos alegadamente
seres pensantes, alegadamente racionais, e com base nisso passamos de bater
pedra com pedra para acender uma fogueira, para a coleção de isqueiros como
artigos de luxo, passamos de sacrificar os cavalos para os exibir como troféus,
enquanto passamos a nos deslocar e cultivar a terra com as mais sofisticadas
máquinas, fomos capazes de aprender a voar quase como os pássaros, nadar como
os peixes, mas não aprendemos a simples arte de viver como irmãos, (M.L.King), de diferentes pais e mães,
culturas e geografias, e veja-se, até de credos ou ausência deles.
Tudo começa
porque eu, sou melhor que tu, tudo começa por impor a minha visão das coisas
porque sim, como se eu fosse tua propriedade, barro que pudesses moldar numa
escultura tão imperfeita de mim.
Eu sei
porque esse tipo de pessoas tendem a impor sobre os outros as suas correntes e
barreiras, porque “O inferno são os outros.” (Sartre) a felicidade dos outros são um tormento
para os que vivem acorrentados a julgamentos do olhar da vizinha entre as
cortinas da sala, ou empoleirada na janela a abanar a cabeça perante a tua
loucura, a tua felicidade.
Isaac
Asimov disse, e eu subscrevo faz tempo, que a violência é o ultimo refugio do
incompetente, apontando a violência e o preconceito como barreiras ao verdadeiro
progresso da humanidade, quando até estávamos no bom caminho, mesmo que
imperfeito, era é o caminho, …que foi que nos aconteceu, para esquecermos os
resultados nefastos de uma segunda guerra mundial, e de todos os dramas sociais
que derrubaram a nossa sociedade uma e outra vez?
A nossa
capacidade de esquecer é, paradoxalmente, um dos nossos maiores dons e um dos
nossos maiores perigos. Com isso, a história volta e meia lembra-nos, de
maneira trágica, do que já sabíamos: que a paz, o respeito, a LIBERDADE e a cooperação são
sempre conquistas frágeis, que precisam de um esforço coletivo para se manterem
vivas, e nos últimos tempos parece que andamos ou esquecidos ou distraídos com
os filtros das APP’s.
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