“The privilege of a lifetime is to become who you truly are.”
Já faz algum tempo que falei por alguma das vias que costumo usar para comunicar com os demais, que me irrita de sobremaneira certo tipo de pessoas que acha violento o enredo do AVATAR, por exemplo, que acha interessante, fantástico, o futuro, a diversidade existente em muitos filmes tipo Star Trek, mas que depois, hoje mesmo, a diversidade para eles não é aceitável.
"Ninguém
nasce a odiar outra pessoa pela cor da pele, ou por sua origem, ou ainda por
sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a
odiar, podem ser ensinadas a amar." (Nelson Mandela; Long Walk to
Freedom, 1994)
Embora
discorde em parte com a afirmação de Nelsom Mandela, não posso deixar de
aceitar essa afirmação, porque é certo que é com a aprendizagem de determinadas
normas sociais, regras que vieram sabe-se lá de onde (até sabemos, mas isso é
outo texto), que enquanto seres humanos começamos a colocar barreiras, muros,
margens sobre aquilo que podemos e não podemos fazer e ou aceitar como certo, e
se preferirem não reprovável pelo todo.
Discordo
em parte, porque nós nascemos a amar, com as devidas e raras exceções, para uma
criança não existe cores de pele, estratos sociais ou amores impossíveis. Por
isso mais que aprender a amar, nós precisamos montar uma espécie de rede
protetora desse amor com que nascemos, impedindo que o ódio tenha espaço no
nosso crescimento.
"Não se nasce mulher: torna-se mulher." (Simone de Beauvoir;
Le Deuxième Sexe, 1949)
Esta
frase de Beauvoir que serve em muito o movimento feminista, devia ser um mantra
da humanidade, que mais que falar da mulher, devia ser algo do género “Não se
nasce homem ou mulher, tornamo-nos um deles ou outra coisa qualquer”, isto
porque nós enquanto seres humanos somos matéria em construção, somos um
“flubber” que se adapta, molda, assume as formas que no momento o definem,
naquele momento da vida, a mágica das pessoas, “flubbers”, é essa mesma, termos
a oportunidade no decurso da nossa vida de sermos o que bem entendermos, sendo
que esse ser seja aquele que nos define, e naquele momento da vida, porque não
temos de ser o que quer que seja toda a vida. Os elementos que nos são
oferecidos no dia-a-dia são posteriormente “mastigados” por nós, e se alguns
tem que apreciamos o seu sabor, outros serão apenas um snack, nada mais que
isso, como uma informação que armazenamos na estante, enquanto informação, ou substância
que poderemos algum dia revisitar, e quem sabe entendê-la como sendo também
nossa.
É
aliás esta fluidez possível que assusta os velhinhos do restelo, ou melhor que
isso, os seguidores da idade das trevas, onde tudo passou a ser pecado, onde pessoas
com virtudes várias foram queimadas na fogueira e apelidadas de bruxas.
"É a falta de amor que é o
problema. Não a diferença entre as pessoas."
(Toni
Morrison; Beloved, 1987)
Nós vivemos numa
sociedade, diria, mundial, em que somos convidados ao individualismo, somos
empurrados em diversas estruturas da nossa vida a chegar primeiro, e a chegar
sozinho, não a chegar com. O problema é que esse “empurrão” depois tem reflexos
no nosso dia-a-dia, onde tudo nos surge como uma corrida onde temos de
conseguir a medalha de ouro, e essas corridas evoluíram exponencialmente com o
advento da WEB, das redes sociais.
Passamos a estar ligados
a todo o tempo, na busca de encontrar caminhos, meios, instrumentos de nos
colocar no pedestal do socialmente desejável. Temos as melhores férias do
mundo, tantas vezes sem sairmos da aldeia dos nossos avós, mas que graças aos
suportes vários nos colocamos no topo do Burj Khalifa sem por vezes saber que
nem poderemos estar assim tão despidas nessa geografia. E se poderíamos pensar
que estes comportamentos eram uma coisa de género, que pressiona apenas as mulheres
a serem seres prefeitos, só que não, essa pressão cibersocial é imposta a todos
os géneros e em diversas dimensões do ser e da vida.
São já alguns estudos que
apontam que jovens com baixa renda, muito influenciados pela dinâmica publicitária,
mas também pela partilha que os seus ídolos fazem de determinados artigos
considerados de luxo, abdicam de determinados bens essenciais, e ou pressionam
os seus familiares, e em ultimo caso, empreendem em atividades ilícitas com o
objetivo de conseguir adquirir esses bens, o i-phone é um bom exemplo desse
desespero junto dos jovens de baixa renda, que observam eles e os seus pares,
como uma manifestação de status, de ascensão social ou dentro do seu grupo de pertença.
Em comunidades de baixa
renda, a posse, e a posse de artigos de luxo pode ajudar a obter respeito ou a
fazer parte de grupos sociais que valorizam esses bens. Jovens em contextos
economicamente vulneráveis muitas vezes enfrentam um cenário onde a exibição de
marcas de prestígio proporciona um sentimento de empoderamento e aceitação,
mesmo que depois falte conteúdo intelectual a envolverem esses bens materiais. Mas
diria que na mesma proporção temos seres intelectualmente evoluídos, a viver
nesses meios menos favorecidos, e que lhes atribui logo à partida conotações simbólicas
depreciativas por parte da sociedade, que servem como arame farpado no caminho
de qualquer ascensão, onde a aquisição de artigos vários, como o ultimo
i-phone, ou qualquer outra marca atualizada, o ultimo modelo, abre caminhos
sociais que resultam algumas vezes em caminhos profissionais antes inacessíveis,
resultam em fazer parte de determinadas turmas, que por sua vez resultam em
contatos, e contatos que resultam em oportunidades que antes não existiam, …não
poucas vezes esses jovens decididos por uma ascensão, digamos, dentro das
normas socialmente estabelecidas, apresentam como sua morada, outra, de outro
familiar ou amigo, que não a do seu bairro, porque a do seu bairro, tempos
atrás nem os táxis aí paravam.
“Na sociedade de consumo,
o que importa não é apenas o que se possui, mas o que se exibe. Ser parte do
grupo significa participar da corrida por status, marcada pela ostentação de
bens de consumo.” (Zygmunt Bauman – "Vida
Líquida" 2005)
E já onde vamos com esta
divagação, quando queremos mesmo é falar dessa intolerância que alguns velhinhos
do restelo, ou de onde quer que seja, mas também por contaminação, outros menos
jovens, parecem não querer entender essa diversidade, por que mesmo sabendo que
“O consumo de bens não
é apenas econômico, mas também social, pois reflete as relações de poder e o
capital simbólico que se busca acumular. O indivíduo consome para se distinguir
e se afirmar em relação aos outros.” (Pierre Bourdieu – "A
Distinção”1979), insistem em julgar as pessoas
mais pelas suas aparências diversas dos próprios e do que ostentam, que pelos
seus atos, capacidades e saberes, uma velha afirmação do ditado “julgar o
livro pela capa!”.
“A
verdadeira ameaça do totalitarismo não é apenas o controle físico, mas o
controle das ideias e a eliminação da pluralidade de pensamento.” (Hannah Arendt – "Origens
do Totalitarismo" 1951)
Verdade
que poderemos não estar a falar de totalitarismo, e digo penso, porque não olhei
o fenómeno sobre outras perspetivas, mas o restante é o comportamento de toda
uma sociedade gerida por poderes vários que no seu exercício nos limitam enquanto
cidadãos no pensamento, nas expectativas, e em tantas outras dimensões das
nossas vidas, sendo uma delas na nossa diversidade identitária.
Adoramos
o Star Trek com todas aquelas sociedades de diferentes aparências, mas depois somos
incapazes de entender gays e lésbicas, criticamos e julgamos pela negativa
pessoas que não se identificam com o género atribuído à nascença, ou se
identificam de forma não consonante ao que os nossos olhem veem, e eu pergunto
e que têm vocês a ver com isso? Então, a diversidade retratada na sétima arte é
gira, harmoniosa, mas hoje aqui e agora, na nossa sociedade mundial, e na nossa
tuga em particular, a diversidade incomoda!? Esse “double standard” faz lembrar
a leitura da bíblia.
“O Cristianismo tem sido
usado como um jogo de poder e controle, onde as Escrituras são torcidas para
justificar os interesses de cada era e grupo.”
(Søren
Kierkegaard – "Temor e Tremor" 1843)
“Os textos sagrados, em
especial a Bíblia, têm sido lidos de múltiplas formas, frequentemente para
servir a fins políticos ou teológicos.” (Karen
Armstrong –"Uma História de Deus" 1993)
Lemos a sociedade com o
jeitinho que desejamos, no sentido que nos dá mais jeito, desde que essa leitura
encubra quem realmente somos, mas que nos esforçamos incessantemente por
ocultar, porque queremos fazer parte do grupo, e não como os outros, aqueles
que apontamos o dedo desesperados para os olhem, ao invés de repararem na nossa
miséria humana, de seres infelizes nas peles que vestimos.
Invejamos a coragem
alheia, perante a nossa cobardia!
Para terminar, e tendo em
conta tudo o que acima descrevo como reflexão, sugeria que nos olhássemos despidos
no espelho, marquemos com um marcador bem grosso os nossos defeitos, e depois
os olhemos não como tal, mas como propriedade daquilo que somos, e assumamos
cada uma das características que nos definem como pessoas, brancas ou negras,
como gays ou héteros, como ricos ou pobres, ou qualquer uma de todas as demais variáveis
que nos definem, melhoremos aquelas com que não nos sentimos bem, porque por
nós queremos ser diferentes, não porque alguém do lado vos sussurrou no ouvido,
ou vos gritou escondido atrás de um PC que és isto ou aquilo. Consciencializa que somos todos
diferentes, ninguém é igual a ninguém biologicamente e ou intelectualmente. Não
podemos ser todos magros, nem inteligentes, nem ter corpos que respondem de
forma excelente ao exercício, porque muitos somos do ócio, preferimos um libro
a um alter, da mesma forma que outros conseguem sustentar o livro com uma mão e
o alter com a outra e obtém resultado dos dois, é assim que somos, e é nessa
diversidade que nos devemos olhar e respeitar, abraçar, e impulsionar no
sentido daquilo que cada um quer para si, e não no sentido daquilo que achamos
ser o certo para os outros, porque os outros não somos nós.
“The privilege of a lifetime is to
become who you truly are.”
(Carl Jung – "O
Desenvolvimento da Personalidade" 1953)
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