TRIBECA, uma receita sem ovos nem farinha!

 


                                                                                                        (photo by: Tribuna do Cinema)


Tribeca, uma receita sem ovos nem farinha!

 

Não é a primeira vez que vejo o nosso país a embarcar em manobras de grandeza, e que depois surgem aos olhos de malta como eu, por exemplo, como fiascos. Imagine-se que se inscreveu a criança que ainda mal sabe gatinhar, a correr a meia maratona, ou os 500mts barreiras, e crentes de que vamos ganhar.

Estão a ver aqueles bolos sem farinha nem ovos, e que se espera seja uma delícia e ou tenha consistência, só que não, por muito açúcar que se lhe ponha nunca será um bolo.

 

É assim que se me surge o festival de cinema Tribeca, nos diversos comentários e noticias que encontrei até ao momento.

 

Outro pormenor é a posição do beija-mão, do deslumbrado que se apaixona pelas personagens mais que pelo artista, (ator ou atriz), e que confunde depois uns e outros, mas não satisfeitos quando estão na presença deles fazem todas as vénias e mais uma, sério, gente, que tal terem alguma vergonha na cara e muita, que tal entender esta coisa de artistas sejam eles de que área forem!?

 

Seja qual for a área de cultura, os seus protagonistas vivem do valor que nós lhe damos.

Explicando melhor, imaginem que eu, para não envolver ninguém, surjo no mercado cultural como pintor (por um acaso até pinto), e apresento o meu trabalho numa exposição, o resultado dessa minha exposição não depende de seu eu pinto bem ou menos bem, mas do reflexo das pessoas à minha pintura. Imaginemos outra arte mais fácil de entender, imaginem que me apresento como cantor, nem que eu pareça a Maria Calas ou o Pavarotti, o sucesso da minha carreira depende mais de quem me ouve do que de mim mesmo, porque mesmo revestido de grandes qualidades vocais e letras muito bonitas, se as pessoas não comprarem os meus discos e não forem aos meus concertos, eu sou apenas mais um que canta bem, mas que apenas o chuveiro está interessado em me ouvir.

 

Dito isto a postura dos artistas da nossa praça mundial, deviam por vezes ser mais gratos pelo seu sucesso e protagonismo, e nós menos sanguessugas e ou parolinhos que nos vergamos na sua presença como se essas pessoas fossem uma espécie de deuses do olimpo.

 

Vou contar-vos um episodio que se passou comigo e com uma figura pública da nossa praça que à época era só a figura pública, (não vou dizer o nome precisamente porque não sou sanguessuga, e muito menos ele é um deus do olimpo). Eu trabalhava numa determinada loja, e ele tinha encomendado uma coisa especifica ao meu patrão. Eu no balcão, essa pessoa entra pela loja dentro, cumprimenta-me, eu retribuo o cumprimento, e depois de perguntar pelo meu patrão indiquei-lhe o caminho, e pronto, tudo sem sair de trás do balcão. Essa pessoa comentou com o meu patrão a minha passividade com ele, e eu só respondi que fui educado como era com todos os nossos clientes, e olha que havia alguns que não apetecia nada ser educado.  Não ficamos os melhores amigos, entretanto, mas durante um tempo até por causa desse meu trabalho, tivemos alguma relação, e depois disso manteve-se um conhecimento, o mesmo conhecimento que tenho com outros artistas do nosso panorama musical, temos de nos respeitar, sem nos inferiorizarmos, porque especial, especial somos TODOS.

 

Dito isto voltemos ao Tribeca, então, parece que o festival foi uma coisa de feira de Custoias, tipo arraial lá da terrinha. Aproveitamos uns armazéns das raves colocamos um lençol e o projetor da Barbyie projetamos um filmezinho que por sinal até tinha ganho a palma de auro em Cannes, sentamos a malta numas cadeirinhas desdobráveis a preço de saldo no IKEA todos juntinhos, quem até pagou uns módicos 130€ juntamente com mais uns quantos que entraram por convite que vistos de cima as cabeças do “people” todas juntinhas, tal a densidade, devia parecer o mercado da laranja, ou da maça, quem sabe.

 

Depois o Sr Robert De Niro isto, óh Sr De Niro aquilo, àh sim Srª Whoopi Goldberg, que engraçado, nunca tinha visto pilotos e hospedeiras negras numa só equipa, que giro, que fantástico, (pensava eu, que um de nós viajava menos que o outro, ou então anda desatento), e assim vai, um conjunto de reverencias a suas excelências, verdade nomes de referencia na arte de atuar, mas que só o são porque por um lado, vamos muitos ver os seus filmes, por outro, porque existe todo um mercado de serviçais em diversas áreas que lhes atribuem um lugar de destaque, um lugar garantido por nós, os viciados na sétima arte, porque se não, só seriam brilhantes nas festas de família lá de casa.

 

 Mas o que interessa mesmo é a estrutura, gente as cadeiras já estiveram em saldo no IKEA, cinema não se visiona num armazém, a menos que seja um evento radical da malta, e menos ainda quando temos um MEO Arena, para talks gigantescas, um S. Jorge – Tivoli ou S. Luis, e haverá outras salas que desconheço porque não resido em Lisboa, e não vou a Lisboa ver filmes, tirando quando ia toda a semana para o QueerLisboa, o então Festival de Cinema Gay Lésbico de Lisboa, seja, Lisboa tem uma lista de salas bem mais aprazíveis, insonorizadas e com excelentes condições estruturais para que se visione a sétima arte com respeito pela mesma e pelos seus amantes, mas não, tínhamos de fazer a coisa como uns desesperados, no armazém do bacalhau seco, com uns tecidozinhos da feira dos tecidos a encobrir a luz, e umas cadeiras do Avante a servir de plateia, e depois não querem o Sr De Niro de trombas (um comentário que li, que dizia que ele estava sempre de trombas), porque o Sr que será mesmo um senhor, terá observado o seu evento arrumado num armazém e uns quantos parolos a achar que aquilo estava bem.

 

 Tirando a mediocridade organizativa eu lamento a pacatez tuga perante o vivido, gente bonita, se pagaram 130€ para assistir a um festival internacional como o Tribeca, e vos colocam na antiga fábrica da conserva, nas cadeiras das reuniões dos AAA, meus amores, vocês deviam abandonar a sala e solicitar o vosso dinheiro de volta, e não se venderem à presença de estrelas como R. De Niro, Daniela Ruah ou W. Goldberg. Gostávamos de poder vê-los, questioná-los, tirar uma selfie com, talvez, com toda a certeza, mas para isso acontecer as coisas tem de funcionar com respeito integral por todos os intervenientes, os convidados VIP e aqueles que lhes conferem o estatuto de VIP, seja, nós, ou mais em especifico as pessoas que foram ao Tribeca.

  

Perante a passividade de quem se vendeu ao folclore da coisa, poderam dizer que o festival foi um sucesso, que toda a gente gostou muito, tanto que até que o porta moedas veio anunciar que para o ano tem mais, e ainda pelo que soube festivais com história no pais e no caso em Lisboa não foram (nunca são) tão apoiados como o festival do Sr De Niro e Jane Rosenthal, que decerto nada têm a ver com a parolice tuga.

 

Vou deixar-vos o artigo que me motivou a este texto meio atabalhoado, e uma sugestão a quem brinca com dinheiro público para dar o ar bacoco da D. Albertina do seculo IX a receber o padre da freguesia em casa com chazinho e bolacha maria, porque não fazem o vosso festival chamem-lhe “Cinefest in the Neighborhood” para parecer internacional, e comecem por trabalhar com a prata da casa, chamem os nossos atores e atrizes para falar do que é ser-se artista, dos seus papeis nos diferentes filmes, …espera, é complicado, o nosso apoio ás artes é vergonhoso, mas é o que temos, …melhorem!, e já agora tenham vergonha na cara!

 

Link: https://tribunadocinema.com/tribeca-lisboa-um-insulto-ao-cinema-ao-espectador-e-a-cultura-em-portugal/?fbclid=IwY2xjawGHj31leHRuA2FlbQIxMQABHc_ALqbElWdKuP2fmuwya2FcKOicO7CTl0ti5aGFUGVc8v7etpVIpCeEUg_aem_OdQCze8K90OQGcPd8aELOA


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