A Hipocrisia dos outros animais!
Fico com a noção
séria de que por vezes, o jornalismo é uma espécie de partido politico, na
medida que lançam umas quantas noticias que ficam bem exibidas no escaparate (significado
de escaparate para quem não conhece: 1. Manga ou redoma de vidro (que cobre ou
resguarda objectos ). 2. Montra (de lojista). 3. Fuso de uma escada de caracol) de qualquer tabacaria, mas que na
verdade, escondem quase sempre um dano maior, havido, ou por acontecer.
Sempre tive animais de muita espécie, uns não diretamente,
eram animais do meu falecido avô, como vacas, cabras e porcos, ou gatos, mas
sempre tive cães, e sim é verdade que os animais – que não só os de estimação,
ou de trazer por casa – são mais sensíveis a sons fortes, e também agudos, é
verdade sim, mas também é a mais pura das verdades que tudo se aprende, e no
caso dos nossos pets, nomeadamente os cães (não me sinto com qualquer nível de
autoridade para falar de gatos), aprendem que o tal do fogo de artificio não
tem nada de mal.
Para os nossos dogs aprenderem precisam de muito carinho –
uns mais que outros – e paciência, precisamos inicialmente estar com eles numa
situação de conforto, logo, longe de multidões, a ouvir e ver o fogo de
artificio, e acariciá-los e ou realizar brincadeiras que os descontraia, para
que eles realizem e insiram na sua biblioteca de sons e imagens que aquele
ruido com luzes não lhes faz mal.
Contudo e porque o seu sistema auditivo é de fato mais sensível, não devemos estar no centro da ação mesmo quando eles já ignoram o ruido, isto porque determinadas frequências podem de fato danificar o seu sistema e ou sensibilidade ao som. Aliás nada de novo se lembramos que algumas crianças precisam usar abafadores de ouvido pelo mesmo motivo, e que quando bebes, deviam usar sempre que o ruido for muito (tem tempo para destruir o seu aparelho auditivo).
Fazer isto dá trabalho, claro que dá, mas fazer filhos
também dá trabalho, se bem que seja um ato prazeroso, como dá trabalho criá-los e, no entanto, dedicamos uma vida a essa ação, para no futuro muitas vezes nos
ignorarem quando somos velhos, um dog NUNCA nos vai ignorar nem quando nós
somos velhos, nem quando eles são velhos, …mas isso são outros quinhentos!
Agora esta conversa lida no rodapé da notícia no
instagram de que é “Uma boa notícia para quem tem animais de estimação, já que
estes são muito mais sensíveis ao som do que as pessoas.”, é só, e na minha
opinião, ser-se hipócrita, porque aparte da sensibilidade por exemplo canina, o
que há é muito show off, ter o cão A, B ou C é muitas vezes um escaparate
social para ficarmos bem na foto, mas depois não temos a mínima noção de como
educar os nossos “filhos” de quatro patas, porque para mim os meus pequenos,
são nossos filhos.
E não poucas vezes essa incapacidade de sabermos sobre os
nossos pequenos tanto do que eles carregam como história genética e também por
isso de comportamento, faz que cães agridam donos, ou sejam um terror na rua
com outras pessoas e outros animais, e por ai vai…tal como um filho, ter um
animal de estimação, e no caso um cão, tenha ele a dimensão que tiver, é coisa
para ser levada muito a sério, e não um showzinho para a vizinhança.
Mas onde afinal se encontra a hipocrisia da coisa
noticiada?
Aqui!
Em Portugal temos uma lista de festivais ao ar livre que
invadem espaços “naturais” transformando esses espaços numa espécie de “sandbox”
para um grupo grande privilegiados, e para os cofres de uns quantos sem escrúpulos, que agora devem assinar por baixo do título da SIC, a importância do barulho para
os animaizinhos.
Não são apenas os nossos pets que são sensíveis a decibéis
elevados, TODOS os animais, muito mais evoluídos que nós, nomeadamente no que
ao aparelho auditivo diz respeito, são sensíveis a esses decibéis, TODOS eles
SOFREM com essas aberrações sonoras, no entanto e porque tal como contamos a
história da humanidade, somos seres egocêntricos, e por isso apenas estamos
preocupados com os nossos pets, os demais animais que habitam o espaço isso na
interessa nada, eu pessoalmente tenho maior preocupação com as gaivotas, andorinhas
do mar, mergulhões, guarda-rios, garças, lontras, javalis, águias, raposas e
esquilos, (animais que observo nas margens do rio douro onde faço normalmente
stand up paddle), que com os nossos pets, que nos tem a nós para os abraçar e
acalmar se preciso for.
(image by: Threshold Magazine - Festival Paredes de Couora)
Um concerto pode debitar entre a 110 a 120 decibéis (dB),
que se tivesse a duração de um fogo de artificio talvez até o dano não fosse
grande, mas sendo algum já é mau o bastante. Contudo estes duram entre horas a
dias.
Vamos do princípio, não sei se tem mais, e já fiquei surpreso, porque não tinha ideia de haver tantos festivais e festivaizinhos, mas de forma
resumida e do que encontrei temos de norte para sul:
Paredes de Coura – 4 dias x 120dB – impacto económico elevado
NOS Primavera sound – Parque da Cidade, Porto – 3 x 120dB
- impacto económico elevado
Laurus Nobilis Music Famalicão – 3 x 120dB – impacto moderado
na economia local
Festival dos canais – Aveiro – 4 x 110 a 120dB - impacto moderado
na economia local e turismo
RFM Somnii – Figueira da Foz – 3 x 120dB - impacto económico
elevado
Vagos Metal Fest – 3 x 120dB - impacto moderado na
economia local
Rock in Rio Lisboa – 4 x 120dB (mais fogo de artificio) –
impacto económico elevadíssimo
Super Bock Super Rock – Meco – 3 x 120dB – impacto económico
moderado, forte no turismo
NOS Alive – Oeiras – 3 x 120dB – impacto económico
elevado
MEO Sudoeste – Zambujeira do Mar – 5 x 120dB - impacto económico
elevado
Festival Terras Sem Sombra – vários dias vários meses – benefício
no turismo local
Rolling Loud Portugal – Portimão – 5 x 120dB – impacto no
turismo local internacional
Tremor Festival – S. Miguel – 5 x 120dB – impacto significativo
no turismo
Funchal
Summer Opening – 2 x 120dB – impacto turístico
Olhando as descrições de todos estes festivais, parece que os impactos quanto ao ambiente só é feito no que se prende com estruturas e resíduos, apenas um aborda a questão do ruido, e não todos mas quase, tem voluntariado para diminuir o impacto com resíduos, em evento que rendem ás suas organizações entre 100 mil e 20 milhões de lucro.
Já um fogo de artificio talvez porque são normalmente eventos
de minutos, concentram nele uma maior explosão de som, podendo no seu pico
chegar aos 150dB, mas estamos a falar de um pico, até lá chegar andará entre o
máximo de um concerto (120dB) e os tais 150dB.
Ainda muitos destes festivais incluem sessões de fogo de
artificio, nomeadamente no seu encerramento, e agora ficamos todos contentes
porque o fogo de artificio não vai ter som e isso é bom para os nossos pets, e
então TODOS os demais pets que habitam a natureza que durante dias são
obrigados aos decibéis da fantasia de que está tudo bem, e venha mais uma
cerveja!?
Não sejamos hipócritas por favor! Apenas os tempos permitem novas formas de animação, menos disruptivas do meio natural e do nosso, o que é muito positivo, e isso tem eventualmente pesos numa balança económica desequilibrada, porque quando uns sobem outros descem e muitos morrem pelo caminho por não terem capacidades várias, que os permite acompanhar o evoluir dos tempos, o velhinho ditado de que "não bela sem senão!"
Sendo eu um aficionado das caminhadas pela natureza, não
raras vezes na época de festas, até a mim os decibéis muito abaixo dos 110dB
me incomodam, imagine-se o que eles fazem à fauna em volta. Já alguém se
perguntou porque é que quase só vemos aves no nosso meio natural, não será
porque esses se podem afastar de meios ruidosos enquanto eles existem? Porque é
que não vislumbramos quadrupedes de nenhuma espécie,… e olhem que já caminhei
por sítios bem remotos do nosso país,…
Que não seja pela preguiça de educarmos os nossos pets, mas por todos os pets, enclausuremos esses festivais em espaços designados enquadrados entre 4 paredes, e encontremos sim fogos de artificio onde o ruido não seja mais que um jato de ar, sem que olvidemos que até esse pode assustar os animais, mesmo sendo menos invasivo.

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