A Televisão é uma montra gigantesca, onde o que vale é o share e eu passei por lá!

 


                                                    (imagem by: Wikipedia)


A televisão é como uma montra gigantesca onde está exposto sempre um artigo de interesse público, seja esse público composto por 10% ou 100%.

Quem está sentado no lugar do entrevistado, é um produto, que pelo seu papel na atualidade, ou por relevância, na sua vida passada, presente e ou continua, tem algo que para quem dirige os conteúdos televisivos, é motivo de interesse, que mercantilizando a coisa, é mais uma questão de audiências que uma questão de partilha ou conhecimento.

 

Houve um tempo que fui algo requisitado para essa montra, e por isso decidi aqui partilhar convosco alguns desses momentos, mas também momentos que recusei ser foco, porque achei que o foco deviam ser outras pessoas, não eu, não era de mim que deviam ouvir o verbo do momento, um desses momentos foi na primeira Marcha do Orgulho LGBT+ do Porto.

 

                                                    (photo by: Portugalgay.pt)

Estava eu com outras pessoas a percorrer as ruas da Invicta, numa marcha manchada de sangue e luto. Como era no momento um rosto do movimento LGBT+ conhecido, os/as jornalistas vinham ao meu encontro para eu dizer alguma coisa, responder às suas questões, mas eu “empurrei-os” na direção daqueles menos conhecidos, mais jovens, e que eram os reais organizadores daquela que foi a primeira Marcha do Orgulho LGBT+ do Porto.

Hoje mudaria o meu comportamento?, …não! A menos que fosse em direto, se fosse em direto, talvez dissesse algo, terminando com a indicação de que deviam falar com A; B ou C, outras pessoas que talvez tivessem outras formas de descrever o sentimento, de afirmar a luta, de reivindicar a rua.

 

Sou aquilo que uma amiga que já não se encontra entre nós descrevia a seu respeito sobre determinadas coisas da sua vida, dizia ela: “Está feita, está morta!”, que é como quem diz, que não ficava a “matutar” nisso, no que fez ou deixou de fazer. Sou um tanto ao quanto como ela, porque que interessa o que foi dito, o que foi dito está dito, e falo por mim, se disse determinada coisa num determinado momento, o que disse foi com base no que vivia naquele momento, e segundo a informação que dispunha, verdade que no momento seguinte poderia fazer diferente, mas no momento seguinte eu já teria outra informação, mais que não seja o possível fracasso do momento anterior, e perante isso, e mesmo assim, não significa que será uma melhor prestação, é e será apenas a possível, de novo, naquele momento.

 

Isto para dizer que, os eventos que vou descrever não tem uma cronologia certa, escrevo de memória e essa é como se fosse uma pilha de papeis numa secretária, vou tirando uma folha depois da outra, sem regra.

 

                                    (photo by: recorte de monitor, imagem do canal televisivo)

Houve uma vez que não recordo qual foi o tema, que estive com a Júlia Pinheiro na TVI, depois de me entrevistar, ela pediu que eu ficasse porque ia entrevistar um jovem que estava visivelmente nervoso, e que ela acreditou que me tendo ao seu lado (ao lado do jovem) ele ficaria mais descontraído.

Não sei se o jovem ficou mais descontraído, mas acedi como seria de esperar ao pedido da Júlia. Por vezes é uma coisa que me irrita, esta juventude atual achar que tudo está conquistado, ou que é simples dar-se passos em frente, esquecendo que cada atitude nossa tem consequências, e que nem todos estamos aptos a arcar, ou a responder às mesmas de forma positiva. Essa dificuldade à época era ainda maior, e as consequências desses passos poderiam ser devastadoras, como ainda hoje podem ser, dependendo do meio onde estamos inseridos.

 

Uma outra vez foi quando fui eu e o Paulo Corte-Real, na altura presidente da Ilga Portugal, novamente com a Júlia Pinheiro, mas desta vez na SIC, falar dos alegados divórcios entre pessoas do mesmo sexo. Desta vez o maridão foi comigo, ficou atrás das câmaras a assistir. Não tenho, penso eu, registo disso, talvez uma foto. Sei que no meio do meu discurso embora defendesse o divórcio, porque ele faz sentido, também falei do bom que é amar e ser amado, e apontei para o maridão, e foi giro perceber os suspiros na plateia, …

 

                                    (photo by: recorte de monitor, imagem do canal televisivo)

A maioria das minhas aparições foram excertos, em reportagens onde havia mais intervenientes, uma delas sobre a questão Gisberta, onde fui entrevistado sentadinho num dos bancos de jardim da Velasques.

Haverá sempre repórteres com quem nos identificamos mais, seja, que até gostamos da sua postura e posteriormente com o produto final, com o que fez da entrevista. Confesso que tenho tido sorte com os excelentes profissionais que tenho encontrado.

 

Muitas das participações foram por quanta da alteração da lei  no seu artgº1577, que se refere ao casamento. Aliás por conta dessa luta, a TV foi uma das solicitações, a outra foram as escolas.

Professores mais progressistas, mais envolvidos com as questões dos direitos sociais, que convidaram representantes da comunidade a irem às suas aulas darem palestras que informassem sobre a importância da mudança da lei. Mas foram também os alunos que dentro e fora de uma disciplina conhecida como “Área projeto” elaboravam debate, palestras, intervenções efetuadas por eles e por convidados que iam às escolas esclarecer.

Nessa época as escolas e televisões competiam entre si sobre a requisição dos préstimos dos ativistas.

 

                                                    (photos by: PortugalGay.pt)


Falar das vezes que estive como convidado e não falar das vezes que convidei, não seria justo, e olhem que meti o microfone na boca de muita gente, e outras vezes apenas sentei-as frente ao microfone, isto num programa que desenvolvi na Rádio Manobras aqui no Porto, intitulado “Também Somos Gente”.

(a minha primeira entrevistada: https://www.youtube.com/watch?v=wmECDRVaR9E&ab_channel=PortugalGay.pt)

Para além da rádio, estive nas Marchas a tentar captar emoções, declarações, pontos de vista, posturas.

 

Esta é aliás uma área que muito me atrai, a de fazer entrevista. Claro que umas há um tema, uma razão que me aproximou das pessoas das quais pretendia obter reflexões, respostas, sentidos sobre esse tema, mas na rádio muitas vezes mais de 90% das vezes o que me interessava é as histórias de vida das pessoas, conhecer o seu percurso, e muitas vezes não fazia mais pesquisa que saber quem eram, as letras gordas do que tinham feito ou faziam, e partíamos dai para 50 minutos de conversa, amei a experiência da rádio. Histórias de vida, histórias da vida, é o meu foco, quase um sofá psicológico onde o entrevistado(a) se sinta capaz de se apresentar através das suas aventuras e desventuras.

 

Neste momento embrenhado tanto quanto possível no mestrado de criminologia, o meu ativismo é mais discreto, passa aqui pelo blog, pelo meu FB e pouco mais.

Estou no mercado em busca de trabalho, estou na vida disponível para o que ade vir, mas sempre pronto para partir, isto porque estou feliz com o meu percurso, gostaria de ter feito mais, claro, tenho ainda muitos projetos em carteira, mas a vida é um percurso de cascalho e pedrinhas, de relvados tratados e prados selvagens, e por isso mesmo nem sempre conseguimos chegar a tudo que queremos, …sempre,…

 


O bom deste percurso, é que olhando para trás, assumo que tudo que fiz, foi de coração, o bom e o menos bom, como disse uma vez a minha amiga Fabiola Cardoso, sobre mim, “o bom e menos bom vem tudo do mesmo sitio, …do coração”, porque esse sou eu, faço e digo o que sinto, e não faço ou não digo de todo, só para te agradar.

 

Quem sabe um destes dias ainda nos vemos por ai !


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