A Televisão é uma montra gigantesca, onde o que vale é o share e eu passei por lá!
A televisão é como uma montra
gigantesca onde está exposto sempre um artigo de interesse público, seja esse público
composto por 10% ou 100%.
Quem está sentado no lugar do
entrevistado, é um produto, que pelo seu papel na atualidade, ou por relevância,
na sua vida passada, presente e ou continua, tem algo que para quem dirige os conteúdos
televisivos, é motivo de interesse, que mercantilizando a coisa, é mais uma
questão de audiências que uma questão de partilha ou conhecimento.
Houve um tempo que fui algo
requisitado para essa montra, e por isso decidi aqui partilhar convosco alguns
desses momentos, mas também momentos que recusei ser foco, porque achei que o
foco deviam ser outras pessoas, não eu, não era de mim que deviam ouvir o verbo
do momento, um desses momentos foi na primeira Marcha do Orgulho LGBT+ do
Porto.
Estava eu com outras pessoas a
percorrer as ruas da Invicta, numa marcha manchada de sangue e luto. Como era no
momento um rosto do movimento LGBT+ conhecido, os/as jornalistas vinham ao meu
encontro para eu dizer alguma coisa, responder às suas questões, mas eu “empurrei-os”
na direção daqueles menos conhecidos, mais jovens, e que eram os reais
organizadores daquela que foi a primeira Marcha do Orgulho LGBT+ do Porto.
Hoje mudaria o meu comportamento?,
…não! A menos que fosse em direto, se fosse em direto, talvez dissesse algo,
terminando com a indicação de que deviam falar com A; B ou C, outras pessoas que
talvez tivessem outras formas de descrever o sentimento, de afirmar a luta, de
reivindicar a rua.
Sou aquilo que uma amiga que já
não se encontra entre nós descrevia a seu respeito sobre determinadas coisas da
sua vida, dizia ela: “Está feita, está morta!”, que é como quem diz, que não
ficava a “matutar” nisso, no que fez ou deixou de fazer. Sou um tanto ao quanto
como ela, porque que interessa o que foi dito, o que foi dito está dito, e falo
por mim, se disse determinada coisa num determinado momento, o que disse foi
com base no que vivia naquele momento, e segundo a informação que dispunha,
verdade que no momento seguinte poderia fazer diferente, mas no momento
seguinte eu já teria outra informação, mais que não seja o possível fracasso do
momento anterior, e perante isso, e mesmo assim, não significa que será uma melhor
prestação, é e será apenas a possível, de novo, naquele momento.
Isto para dizer que, os eventos
que vou descrever não tem uma cronologia certa, escrevo de memória e essa é como
se fosse uma pilha de papeis numa secretária, vou tirando uma folha depois da
outra, sem regra.
Houve uma vez que não recordo
qual foi o tema, que estive com a Júlia Pinheiro na TVI, depois de me
entrevistar, ela pediu que eu ficasse porque ia entrevistar um jovem que estava
visivelmente nervoso, e que ela acreditou que me tendo ao seu lado (ao lado do
jovem) ele ficaria mais descontraído.
Não sei se o jovem ficou mais descontraído,
mas acedi como seria de esperar ao pedido da Júlia. Por vezes é uma coisa que
me irrita, esta juventude atual achar que tudo está conquistado, ou que é simples
dar-se passos em frente, esquecendo que cada atitude nossa tem consequências, e
que nem todos estamos aptos a arcar, ou a responder às mesmas de forma
positiva. Essa dificuldade à época era ainda maior, e as consequências desses passos
poderiam ser devastadoras, como ainda hoje podem ser, dependendo do meio onde
estamos inseridos.
Uma outra vez foi quando fui eu e
o Paulo Corte-Real, na altura presidente da Ilga Portugal, novamente com a
Júlia Pinheiro, mas desta vez na SIC, falar dos alegados divórcios entre pessoas
do mesmo sexo. Desta vez o maridão foi comigo, ficou atrás das câmaras a
assistir. Não tenho, penso eu, registo disso, talvez uma foto. Sei que no meio
do meu discurso embora defendesse o divórcio, porque ele faz sentido, também
falei do bom que é amar e ser amado, e apontei para o maridão, e foi giro
perceber os suspiros na plateia, …
A maioria das minhas aparições
foram excertos, em reportagens onde havia mais intervenientes, uma delas sobre
a questão Gisberta, onde fui entrevistado sentadinho num dos bancos de jardim
da Velasques.
Haverá sempre repórteres com quem
nos identificamos mais, seja, que até gostamos da sua postura e posteriormente
com o produto final, com o que fez da entrevista. Confesso que tenho tido sorte
com os excelentes profissionais que tenho encontrado.
Muitas das participações foram
por quanta da alteração da lei no seu
artgº1577, que se refere ao casamento. Aliás por conta dessa luta, a TV foi uma
das solicitações, a outra foram as escolas.
Professores mais progressistas,
mais envolvidos com as questões dos direitos sociais, que convidaram representantes
da comunidade a irem às suas aulas darem palestras que informassem sobre a importância
da mudança da lei. Mas foram também os alunos que dentro e fora de uma disciplina
conhecida como “Área projeto” elaboravam debate, palestras, intervenções efetuadas
por eles e por convidados que iam às escolas esclarecer.
Nessa época as escolas e televisões
competiam entre si sobre a requisição dos préstimos dos ativistas.
Falar das vezes que estive como convidado
e não falar das vezes que convidei, não seria justo, e olhem que meti o
microfone na boca de muita gente, e outras vezes apenas sentei-as frente ao
microfone, isto num programa que desenvolvi na Rádio Manobras aqui no Porto,
intitulado “Também Somos Gente”.
(a minha primeira entrevistada: https://www.youtube.com/watch?v=wmECDRVaR9E&ab_channel=PortugalGay.pt)
Para além da rádio, estive nas
Marchas a tentar captar emoções, declarações, pontos de vista, posturas.
Esta é aliás uma área que muito
me atrai, a de fazer entrevista. Claro que umas há um tema, uma razão que me
aproximou das pessoas das quais pretendia obter reflexões, respostas, sentidos
sobre esse tema, mas na rádio muitas vezes mais de 90% das vezes o que me
interessava é as histórias de vida das pessoas, conhecer o seu percurso, e
muitas vezes não fazia mais pesquisa que saber quem eram, as letras gordas do
que tinham feito ou faziam, e partíamos dai para 50 minutos de conversa, amei a
experiência da rádio. Histórias de vida, histórias da vida, é o meu foco, quase
um sofá psicológico onde o entrevistado(a) se sinta capaz de se apresentar através
das suas aventuras e desventuras.
Neste momento embrenhado tanto
quanto possível no mestrado de criminologia, o meu ativismo é mais discreto,
passa aqui pelo blog, pelo meu FB e pouco mais.
Estou no mercado em busca de
trabalho, estou na vida disponível para o que ade vir, mas sempre pronto para
partir, isto porque estou feliz com o meu percurso, gostaria de ter feito mais,
claro, tenho ainda muitos projetos em carteira, mas a vida é um percurso de
cascalho e pedrinhas, de relvados tratados e prados selvagens, e por isso mesmo
nem sempre conseguimos chegar a tudo que queremos, …sempre,…
O bom deste percurso, é que
olhando para trás, assumo que tudo que fiz, foi de coração, o bom e o menos
bom, como disse uma vez a minha amiga Fabiola Cardoso, sobre mim, “o bom e
menos bom vem tudo do mesmo sitio, …do coração”, porque esse sou eu, faço e digo
o que sinto, e não faço ou não digo de todo, só para te agradar.
Quem sabe um destes dias ainda nos vemos por ai !
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