Nascemos a morrer…
(image by: O Segredo)
Nascemos a morrer, mas tarde percebemos esse mistério.
Não, não estou a ser pessimista,
bem pelo contrário, estou a ser bastante otimista, e ou pelo menos a desejar
que olhemos esta realidade de que, nascemos a morrer, para sermos melhores
seres humanos nas nossas vivencias nas nossas interações uns com os outros, mas
para não haver dúvidas aqui fica algumas considerações sobre esta minha teoria.
Juro mesmo que pensava que estava
a ser inovador, mas quando escrevemos convém olhar o mundo, e descobri a confirmação
de uma outra teoria minha, de que está “tudo” inventado, o que atualmente podemos
e talvez o façamos é inovar essas representações, essas ideias, dando-lhe uma
nova roupagem, um novo ponto de vista, ou apenas uma dimensão mais atual, e
digo isto porque, muito antes de mim, Schopenhauer já dizia que “A vida é
uma perda continua, e o destino final é a morte: ela não é o oposto da vida,
mas o seu resultado.”, e Sêneca, um filosofo romano, nas suas cartas a
Lucílio, por outras palavras dizia o mesmo que hoje uso de titulo a esta redação,
que “Desde o momento em que nascemos, começamos a morrer”, e é disso
mesmo que falo quando digo que “nascemos a morrer” só não temos, e talvez ainda
bem, consciência disso mesmo.
Este pensamento surgiu durante a
viagem de regresso de um momento de despedida eterna a uma pessoa de família. Olhar
os presentes naquele momento de luto, a sua variedade etária, profissional, e
outras que poderemos percepcionar e ou interpretar por meio de um conjunto de indumentárias
e comportamentos, levou-me nesta questão de estarmos num processo de partida,
sempre que chegamos a este mundo, como estamos sempre que chegamos a algum lugar.
Quando nascemos e durante um período,
algo longo, de tempo, temos um esquadrão de cuidadores que nos vigiam numa
quase total permanência, não podemos cair que nos podemos magoar, não podemos
atravessar a rua sozinhos que podemos ser atropelados, não podemos ter facas e
tesouras à mão, porque podemos nos ferir de forma irremediável, e por aí vai,
uma constante proteção da vida, ou num constante processo de nos afastar da
morte.
Posteriormente, chegados à adolescência, e pré-adultos, achamos que somos invencíveis, eternos, nada nos afeta, galgamos os tojos do monte, certos de que a dor dos seus espinhos é suportável o bastante, e capaz de exteriorizar em nós, força, e capacidade de vencer a adversidade. Ao mesmo tempo que choramos o primeiro amor, a primeira derrota, a primeira frustração, …para na recuperação deste desalento ou dos vermelhões do veneno que o espinho dos tojos nos provoca, uma vez mais nos iludirmos com a nossa invencibilidade. Nós somos seres melhores que os outros, mais fortes que os mais novos, seguramente mais sábios que os mais velhos, a quem acusamos, não poucas vezes de não saberem nada, sendo que eles na sua alegada ignorância, construíram o mundo antes de nós, conceberam-nos, criaram-nos e permanecem ali ao nosso lado.
Mas depois chega a fase adulta,
uma fase que almejamos quando somos esses “Teenager” inconscientes sobre a
nossa ignorância do mundo e da vida, mas que quando lá chegamos descobrimos a
dureza do compromisso, para connosco, com a família, com a sociedade.
Descobrimos que a criação do
mundo está repleta de imperfeições que mais que serem imperfeitas, são
perfeitas no sentido de nos impulsionar para a frente, na descoberta de
soluções, na idiotice de acharmos que somos capazes de resolver, sem nos darmos
conta, que as nossas alegadas soluções afinal também elas, criam novas
imperfeições, que mesmo podendo não o ser naquele instante, se vão revelar na
geração seguinte, empurrando-os agora a esses, a encontrar novas soluções, num
processo arqueologicamente constante.
Mas é também nesta fase que nos
damos conta da finitude, uma consciência que poderá nos surgir por dois caminhos
distintos. Um, pelo sentimento de que poderemos não estar cá para criar os
nossos filhos, para os apoiar no seu caminho evolutivo, enquanto pessoas, profissionais
e sociais. Outro quando vemos partir as pessoas que amamos, ou nos relacionamos
nas mais diferentes esferas, e esse sentimento de finitude é ainda mais
presente quanto mais próxima for a nossa relação com quem parte. Uma relação
que pode ser de convivência, mas também de pertença, o nosso amigo da escola,
da profissão, das nossas práticas lúdicas, aquelas espécies de “muletas” que amparam,
apoiam, connosco caminham ou correm, e que de repente ficamos meio que
desamparados, e que mesmo que encontremos novos apoios, novas muletas, estas
nunca serão o que as anteriores foram. Mais que não seja porque quem parte leva
com eles uma história que também é nossa, e os novos é uma redação digital, que
não mais manuscrita como as anteriores.
Mais acima faço referência de que
talvez ainda bem, não temos consciência durante muito tempo da finitude das
nossas existências, porque ao contrário do que diz Jean-Paul Sartre, na sua
obra de 1943, “O ser e o nada”, de que "Desde que nascemos,
carregamos em nós o peso de nossa morte.", eu acho que é a ausência
desta consciência do peso da morte, da finitude, que nos permite caminhar
soltos, inconscientemente conscientes de sermos capazes de coisas
extraordinárias, e que mesmo que elas se nos apresentem como algo impossível,
temos a plena certeza de conseguir transpor essa impossibilidade tornando-a possível,
verdadeira, um fato, e graças a isso o mundo dos nossos avós, em nada se
compara ao nosso mundo novo.
No meio desta minha reflexão com
muitos quilómetros e horas de condução, com vislumbres de paisagens de uma beleza
simples e por isso deslumbrante, num regresso tido pela nacional um, alargou-se
além dessa inconsciência de fim, e questionou-se: Será que se tivéssemos essa
certeza de fim, seriamos melhores seres humanos?
Eu quero acreditar que sim, que
se houvesse uma consciência mais precoce dessa finitude, o ser humano
exploraria muito mais as questões da justiça, e com essa justiça construiria a
paz e a harmonia entre os povos, entre os seres humanos.
"A
verdadeira paz não é apenas a ausência de tensão; é a presença de justiça." (Martin Luther King Jr)
A solidariedade de que nos fala
por exemplo Émile Durkheim, a solidariedade mecânica, que reforçava os elos
entre as pessoas, no sentido de que cada um dependia do outro na sua sobrevivência,
é para mim uma das consequências dessa necessidade de haver uma consciência do
fim de tudo, da própria vida, que tornaria o mundo em que vivemos num espaço de
maior harmonia. Como diz Rousseau, precisamos encontrar essa associação ao
outro, sem que para isso percamos a nossa individualidade, mas conscientes de
que só nessa associação, fortalecemos laços, as sociedades onde vivemos, estas
o país de pertença e desta forma o mundo, permanecendo livres.
"Encontrar
uma forma de associação que defenda e proteja de toda a força comum a pessoa e
os bens de cada associado, e pela qual cada um, unindo-se a todos, só obedeça,
contudo, a si mesmo, e permaneça tão livre como antes." (Jean-Jacques Rousseau)
Mas parece que ainda não
encontramos o caminho para a tomada dessa consciência antecipada de que um dia
partimos, e que aquilo que deixamos, é a continuidade de nós. Uma continuidade
que pode ser dos nossos genes, mas mais que isso dos nossos testemunhos como
seres humanos, das nossas práticas, da nossa obra, como expressão do que
queremos para o mundo. O processo civilizador é um processo demasiado lento, precisa
por vezes de mais que uma geração para se enraizar, e de muitas mais para
alterar raízes daninhas que continuam a contaminar esse processo civilizador,
promovendo conflitos, guerras, e com isso a fome, a miséria e a morte.
"O
processo civilizador implica um controle crescente dos impulsos humanos,
promovendo a paz e a harmonia social." (Norbert Elias)
Lendo Elias, e olhando a
sociedade, o mundo, damos conta que falhamos enquanto sociedade no controle dos
impulsos, o mundo padece de uma fome e uma miséria crónicas, e conflitos em
forma de guerra, constantes. Na verdade, os conflitos atuais no mundo, na sua essência, estão profundamente ligados
à incapacidade de controlar impulsos humanos como a ganância, o ódio
e o desejo de dominação.
Norbert Elias, defende que a paz e a harmonia social só podem ser
alcançadas por meio de um controle gradual e coletivo sobre esses impulsos
primitivos, desenvolvendo estruturas sociais e culturais que promovam a
convivência pacífica. No entanto, quando o controle civilizatório falha, esses
instintos vêm à tona em formas de violência, guerras, disputas de poder e
desrespeito pelos direitos humanos. A ausência de mecanismos eficazes para
conter esses impulsos explica, em parte, os conflitos globais, desde invasões
militares até crises humanitárias alimentadas pelo egoísmo nacionalista ou
ideológico, onde inclui o fundamentalismo religioso. Quando líderes e nações
priorizam interesses próprios em detrimento do bem comum, tornam-se símbolos de
um retrocesso civilizatório, onde a falta de moderação e empatia gera
destruição em vez de progresso.
Esta ideia de Elias é reforçada
por Sigmund Freud na sua obra “O Mal-Estar na Civilização”, onde ele
explora o conflito entre os desejos instintivos do ser humano e as restrições
impostas pela civilização.
Freud afirma: "O que
chamamos de civilização é construído à custa da repressão de instintos, mas
essa repressão nunca é completa."
Quando os sistemas sociais falham
em canalizar ou conter esses instintos, a sociedade recai no caos. A escalada
de violência em regiões instáveis, os discursos polarizadores e a destruição
ambiental são exemplos claros de que os impulsos humanos descontrolados
estão novamente a prevalecer sobre o esforço coletivo de convivência
pacífica e sustentável. A lição de Elias e Freud é clara: para evitar a
destruição, é imperativo que a humanidade reencontre e fortaleça o controle
sobre suas paixões mais destrutivas, renovando seu compromisso com os valores
civilizatórios de empatia, diálogo e cooperação.
A consciência da finitude, desde
cedo e de forma plena, surge na minha reflexão como uma ferramenta
indispensável para a construção de uma sociedade harmoniosa e capaz de
transcender os conflitos que têm assolado a humanidade. Saber que somos seres
finitos deveria inspirar-nos a valorizar o tempo e a vida, promovendo ações que
deixem um legado de justiça, solidariedade e paz como aliás argumenta Martin
Luther King Jr. Essa consciência, em vez de nos paralisar, poderia impulsionar
um maior respeito pela vida humana, fortalecendo os laços entre as pessoas
e afastando-nos de impulsos destrutivos como o ódio e a ganância. Ao
compreender a efemeridade de nossa existência, seríamos naturalmente inclinados
a evitar conflitos fúteis e a priorizar o bem-estar coletivo, transformando a
sociedade em um espaço de colaboração e harmonia.
O processo civilizatório, como
descrito por Norbert Elias, "implica um controle crescente dos impulsos
humanos”, na promoção da paz e a harmonia social. No entanto, a história e os
conflitos contemporâneos demonstram o preço a pagar dessa falha no controle. O
egoísmo exacerbado, as polarizações ideológicas e a sede de poder são reflexos
de uma sociedade que negligencia essa consciência da finitude, permitindo que
instintos primitivos prevaleçam.
Assim quando falhamos em
internalizar e canalizar esses instintos de forma construtiva, emergem guerras,
desigualdades e destruição ambiental, que comprometem o futuro das próximas
gerações. Assim, a consciência da finitude deve ser cultivada como um antídoto
contra a destruição, incentivando a humanidade a renovar o seu compromisso com
o respeito mútuo, a justiça e o desenvolvimento sustentável, se não corremos o
risco de deixar para outras civilizações que venham a explorar o nosso planeta,
um testemunho de quão destrutivos somos. Um testemunho só observado por esses
seres de outras galáxias, porque nós imbuídos no vicio do ódio e do poder, vamos
conseguir destruir-nos uns aos outros, incluído os nossos filhos.
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