Carta a um amigo!

 


Carta a um amigo!

 

Foi a tua mãe que me empurrou para te escrever. A minha psicóloga achou que seria bom escrever-te, e dizer-te o que me vai na alma, ou talvez na cabeça apenas, porque depois da tua partida foi difícil, e quando pensava que me tinha despedido de ti, tu voltas com a força toda no final de 2023, grande merda amigo, se precisas de algo de mim, basta que me fales e farei a volta ao mundo se preciso for!

 

Num post que recentemente fiz, a tua mãe disse “…compreendo porque o meu filho o idolatrava.”, e eu fiquei arrepiado jovem, sabia que havia de ti para comigo um respeito mas daí a idolatrar-me, se calhar exagero da tua mãe, se calhar apenas falavas muito de mim, …tu rebentaste comigo, a tua partida faz eco até hoje, e não estou a conseguir evitar de o escutar,…vejo-me sentado no chão de uma casa de banho em Paris, quando recebi a tua chamada, e a dizer-te, sem que me ouvisses, …”este c…ralho é maluco, quem é que liga a alguém ás quatro da madrugada?...agora não dá amigo”, e mais uma vez vomitei.

 

Foi uma noite complicada amigo, entre a sanita e o chão em frente dela, foi o meu pouso, alegadamente uma intoxicação alimentar deixou-me de rastos e não tinha condição de te dar atenção, por isso te peço desculpa, nunca pensei que fosse urgente, porque sempre te vi como um ser estouvado, a ponto de a tua loucura me assustar, de tão louco que és,…um desses momentos em que me assustaste foi numa reunião da Marcha havida na sede do PS Porto que tu te sentaste na beira da janela, puto estávamos penso no terceiro andar, nunca pensei que precisavas mesmo de mim, devia tê-lo feito, pois mesmo enfraquecido para ti teria forças, porque embora a tua loucura me assusta-se o teu coração nunca me meteu medo, bem pelo contrário, sempre soube onde ele estava, e sinto falta dele até hoje.

 



Irrita-me esta merda de nunca termos tido nem a sede de um beijo, não ser o teu amigo das loucuras, dos copos, ter tido apenas uma refeição na tua casa com a Cláudia, lembras-te, e a tua partida arrastou-me pelo cascalho mais aguçado, dói demais, até hoje, não ter atendido aquela chamada, mesmo tendo consciência que não resolvia, apenas talvez adiasse.

 

Os nossos amigos, quando nos encontramos depois, todos disseram que ligaste para todos eles, uns atenderam e tu tiveste uma fala desequilibrada e caótica, outros como eu não atenderam, porque é isso quem é que liga a alguém ás quatro da madrugada, só mesmo o louco do nosso amigo, esse FDP adorado por todos, e mesmo com eles a dizerem o obvio, eu não deixo-te de te pensar, de te ver nos caracóis dourados de outra cabeça, outro rosto, …por vezes até parece que tenho a plena certeza que tudo não passou de uma cena dramática de teatro, esse palco que também era teu, e te vou encontrar a sair de um comboio, do metro ou a caminhar pela rua saído de um bar com esse sorriso e dares-me um abraço, que ambos gostávamos, mas não, não és tu e a angustia vota de novo.

 

És mesmo um FDP, adorado, mas um FDP, que te deixaste levar pela loucura, pelo desespero dos teus pensamentos, e nos deixaste a todos sem chão, de mãos vazias, e o coração cheio de lamento.

 

Sabes por vezes gostava que me visitasses de noite, nesse mundo dos sonhos e falasses um pouco comigo, me dissesses o porquê, mas mais importante me perdoasses por achar que quem me ligou foi a loucura não o suicídio, preciso chorar contigo, mais que chorar por ti, acredites ou não, trocava de lugar contigo, primeiro porque este é o meu ponto egoísta, seja, para não sentir esta dor, depois porque és uma criança, com uma vida à tua frente, com tanto caminho por fazer,…

 

Se calhar esta não será a última vez que te escrevo, se calhar voltamos a nos encontrar nas linhas do verbo, como tantas vezes nos encontramos nas viagens de carro solitárias ou nas minhas remadas onde só as ondinas me escutam e as fadas que habitam as margens.

 

Até breve meu amigo, até breve meu FDP adorado, até…


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