Da morte ao abuso de Diddy, estamos a perder chão, envoltos numa anomia de Durkheim ou Merton

 


No intervalo dos estudos porque os exames estão aí, e embora perturbados, o tico e o teco precisam dar tudo o que tem para o seu vaso continuar em frente porque a estrada mantém-se aberta.

Então num desses intervalos surgiu no pensamento a questão de Diddy, e com ela as perdas inestimáveis que tivemos não faz na verdade assim tanto tempo, e que juntas poderão ter o poder de derrubar sonhos, ideais de juventude, levando aquilo que o nosso querido Durkheim e também Merton identificam como anomia, e que neste cenário me parece ajustar-se na perfeição as reflexões de cada um dos autores.

Freddie Mercury – 1991

Michael Jackson – 2009

Whitney Houston – 2012

Prince – 2016

George Michael – 2016

David Bowie – 2016

Tina Turner – 2023

Há uma geração inteira que perdem as suas referências musicais, (estas são apenas algumas) que no meu caso começou com Freddie e olhando o calendário até parece que não foi assim tão seguido, que provocasse qualquer tipo de disrupção, mas a verdade é que por exemplo 2016 levou com ele três nomes fortes de noites de loucura, de amores vividos, de aventuras que nunca mais se repetem, e se uns encolhem os ombros outros haverá, como eu, que sentem falta de nunca mais poderem repetir um concerto, acústico que fosse, de nenhuma destas vozes, salva-nos a memória musical que como cimento ou cola, liga letras e ritmos a momentos, pessoas, amores e desamores. Sem dúvida a música tem um poder extraordinário de nos acoitar por um lado as memórias, e por outro nos arrancar os pés do chão e colocar-nos a cantarolar cada silaba, acredito mesmo que não haverá linguagem mais universal que a música, podemos não entender uma letra do tamanho de um avião, mas por meio da batida, do ritmo, envolvemo-nos uns com os outros numa contorção física, por vezes aparentemente ridícula, mas que exterioriza sentimentos, estados de espírito, energias.

 

“A música desempenha um papel fundamental na socialização humana, facilitando a comunicação, a integração e a cooperação entre indivíduos e grupos sociais.” (O papel da música na sociabilização) e Norbert Elias já argumentava que a música está intrinsecamente ligada ao tipo de sociedade e à época em que é produzida. (Mozart: Sociologia de um Gênio)

 

Desta forma penso que poderemos mesmo que inconscientemente perder amarras sociais que nos mantinham num determinado estado de espirito, numa certeza incerta de que eles, as nossas referencias estavam ali, já não produziam, mas permaneciam, e quem sabe um destes dias, faziam uma espécie de “revival” em que todos juntos sentados nas rugas do tempo, exceto a nossa amada Tina, nos brindariam com uma produção acústica de um tempo que não volta, mas só que não, estas referencias partiram e deixaram-nos com as cassetes, os vinil e os CD para mais tarde recordar, não apenas as músicas de cada um, mas as pessoas, os espaços, os humores, os sentimentos, a nossa juventude, vivida numa loucura tão saudável quanto possível, já que alguns se perderam embriagados no intenso “meaning” desta ou aquela letra, ou apenas no que ela rasgava no sentir de cada um.

 

(photo by: Expresso)

O caso Diddy tem um reflexo oposto, não existe um sentimento de perda, mas se calhar ainda mais impactante, um sentimento de desilusão, sentimo-nos defraudados nas nossas suposições das personalidades dos nossos artistas mais ou menos favoritos.

Verdade que muita especulação tem feito correr “tinta” sobre alegados envolvimentos de figuras da música e do cinema, que terão feito parte de uma enorme trama de abusos perpetrados por Diddy, mas não só. Estas alegações, mesmo que rumores o sejam, provocam nas pessoas uma descrença nos seus ídolos, nas suas referências musicais e cinematográficas, que destroem o mais importante do ser humano, a capacidade de sonhar, sobre aquilo que achamos ser as vidas e personalidade das pessoas que admiramos.

Quando um artista morre, nós podemos ficar feridos, sentirmo-nos mais pobres, mas os nossos sonhos, as nossas projeções sobre esse individuo mantem-se intocáveis, mesmo que não o fosse, ele/ela será sempre o que sobre esses imaginamos, idealizamos, fantasiamos. Mas quando nos dizem que as pessoas que admiramos não são afinal NADA do que pensávamos serem, são esses sonhos e ideais que caem por terra, e mais uma vez as análises de anomia ganham corpo, ou tem espaço para tal, sendo que aqui neste caso seria mais a análise de Merton.

 

Para Merton, a anomia ocorre quando há um descompasso entre os objetivos culturais valorizados, (que aqui seria o caso), mas que ele adianta que esse sentimento de anomia, ocorre por que os meios legítimos para alcançar esses objetivos estão também eles desfasados, alterados no caso, porque pensará o comum dos mortais perante toda esta algazarra, que por exemplo, para “A” ser bem sucedido no mundo da música tem que se deitar com Diddy ou outro produtor qualquer, que na descrição do caso é mais que deitar, é ser-se vitima de abuso a qualquer nível.

 

Penso que será um sentimento comum à maioria das pessoas de que estamos a atravessar um momento de transição intenso, ainda não estamos certos de como essa transição acontecerá, não sabemos se será algo lento ou mais imediato, não sabemos se será suave ou abrupta, mas sabemos que o mundo como o conhecemos caminha para uma nova etapa, que vai muito além do que gente da minha geração viveu, como foi passar do analógico para o digital, vai mesmo muito mais além, este “Shift” apresenta-se em muitos casos mais que humano, ele grita-nos que toda uma natureza pode desencadear a revolta do que achamos inerte, quieto, de uma vida estacionada, …e esse sentimento de um “frisson”, parece estar a alterar comportamentos, como se estivéssemos paulatinamente a perder referencias de todo o tipo, e essa perda nos deixa num estado de desorientação absurda, nesse tal estado de anomia.

Aguardemos pois então, devemos todos, tanto quanto possível, manter a calma e a sanidade mental possível, para ver se chegamos mais que vivos, sadios ao futuro, seja ele qual for!


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