Parece haver vergonha no reconhecimento, quando devia haver agradecimento sobre o caminho percorrido!

 


Esta semana fui almoçar com um amigo, que não vou dizer quem porque é uma pessoa conhecida da praça, que partilhou comigo uma história de diria “desamor”, ou se preferirem de falta de humildade, de respeito de reconhecimento.

 

“Não espere reconhecimento dos outros.

Faça o seu melhor, confie em você.

Uma hora, vai ser impossível não te notar!”

 

Depois nas navegações virtuais do espaço da web, encontrei Ivete Sangalo a contar uma história que por um acaso já conhecia, e não pôde deixar de ligar uma coisa à outra, como que de um lado encontramos uma história de genuidade e humildade pessoal, e do outro a total ausência de um caminho feito, mas que surge no desfiar do novelo como algo espontâneo como se o rebento antes de ser haste, tronco, não tivesse sido semente.

Conta Ivete Sangalo que é de origens humildes, bem humildes, e então conta como sua mãe e ela foram meninas empreendedoras vendendo “quentinha” (expressão brasileira, para comida feita e vendida para fora, como se fosse uma marmita), na rua, mas que perante o sucesso da mesma, ela queria expandir. Pediu a um amigo que ela classifica como um “anjo” na sua vida, se ele seria capaz de lhe encontrar um trabalho no shopping, e aqui a história fica deliciosa.

Na hora do almoço Ivete comia a “quentinha” de sua mãe, e as colegas que viam perguntavam porque ela comia aquele almoço e não o disponível no shopping, e ela dizia que gostava muito da forma como aquela senhora cozinhava, a comida era muito boa, e preferia essa às demais ofertas, e foi tão convincente que as colegas do shopping começaram a encomendar “quentinha” para a mãe de Ivete, que ela num esquema de marketing caseiro, nunca disse ser sua mãe.

Antes desta história já tinha escutado outra de Seu Jorge, que contou que vivia numa pobreza de arrastar a fome pelo passeio, e que houve um músico quase tão duro como ele, deixou que ele toca-se no bar onde tinha apresentação, e aí começa o parto do artista Seu Jorge que hoje conhecemos, e que aqui deixo o programa onde vi esta história de vida: https://www.youtube.com/watch?v=87xhDtNaoWs&ab_channel=EduardoRibeiro

 

Assim quando ouvi aquele “lamento” desse amigo sobre essa nossa figura pública da música portuguesa, recordei estas duas histórias e verdade, de um caminho que não nem escuro nem brilhante, mas apenas o caminho feito, que é o caminho de cada um de nós, com mais ou menos luz, com mais ou menos cor, e do qual NUNCA nos devemos afastar, no sentido que ele sirva para mantermos os pés bem assentes no chão, porque queiramos ou não o passado é tanto nosso como o presente, já o futuro é ou será outra coisa.

Também quando digo lamento e por isso coloquei entre aspas, o lamento do meu amigo é no sentido de ter pena dessa pessoa, em ela não reconhecer quem lhe abriu o portão do jardim que deu acesso à casa que hoje vive, (sentido figurado ok), que em nenhuma entrevista das muitas que já deu sobre o seu caminho como cantor(a) e onde NUNCA referiu esse portão de jardim aberto para se apresentar. Pode o meu amigo estar equivocado sobre ter sido o primeiro, vamos dar de barato que estará, houve outro(s) antes dele, mas também desses e do dele se ouviu relato.

 

“Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza.”

 

 

Parece que por cá temos vergonha ou algum tipo de embaraço em dizer de onde viemos, que portas betemos, dessas, as que se abriram para nós, que possibilitaram o caminho que fizemos e ou até apenas parte de um caminho que nos trouxe até onde estamos hoje, seja qual for esse lugar.

Vou para isso contar algo pessoal, e não, não sou nenhuma estrela em lugar algum da sociedade sou apenas eu com um percurso do qual não me envergonho em momento algum, mas que guardo alguns lamentos, que agora não interessa nada.



Queria muito fazer fotografia dos desfiles de moda, mas não sendo nós “PortugalGay.pt” uma revista ou qualquer outro suporte de moda, seria algo difícil obter acreditações para o efeito. Na época era (sou) amigo de uma figura controversa, mas muito presente na redação jornalística e não só da nossa praça, falo de Carlos Castro, de quem me orgulho ser amigo, e ter uma história de amizade com ele. Assim quando ele veio ao PortugalFashion num ano qualquer pedi se me arranjava convite para assistir com ele aos desfiles, e recordo que o meu primeiro desfile foi numa tenda montada junto do El Corte Inglês em Gaia, onde guardo também o rosto lindo do Angélico Vieira e a soneca de Bobone durante o desfile.

 

Dai e com a cumplicidade de Carlos castro passei a ter acreditação, depois transformada em acreditação PRESS, e ao contrário de muitos que conviveram e comeram muitas vezes à pala do falecido Carlos Castro, e que muito devem as suas carreiras, e reconheço que as amizades e reconhecimentos que consegui neste mundo da moda e mais concretamente aconteceram porque Carlos castro me apresentou esse caminho e com isso o abriu para mim.

Apenas um exemplo que não representa carreira de espécie alguma, ou fortuna, mas que foi importante algures nesse meu percurso nomeadamente no que à fotografia diz respeito.

 

Tem uma das nossas figuras públicas ligada ao humor, o Fernando Rocha, que em algumas entrevistas que deu no inicio da sua carreira como figura do “Stand up Comedy”, dizia que ainda guardava a mala da ferramenta penso que de eletricista, e é desta humildade, desta honestidade para com o público que falo, de nos apresentarmos despidos mostrando as marcas do passado, os brilhos e os baços de um caminho percorrido, das portas que se abriram, e se calhar de quem as abriu para nós, reconhecendo esses protagonistas mais ou menos impactantes que colaboraram para estarmos onde estamos hoje, seja esse o lugar que seja.

 

Parece piegas, meio cafona como dizem os nosso irmãos brasileiros, agradecer ao pai e à mãe, mas devemos sempre começar por ai porque sem eles nem seriamos seres vivos, e até quando eles não são responsáveis diretos por sermos gente, se calhar devemos começar por ai na mesma, porque quem sabe, não foi graças à sua rejeição, desamor, enjeitar, que corremos em frente e encontramos a família que nos queria, ou que nós escolhemos, e por causa deles somos quem somos, até como prova de que mesmo sem eles, crescemos, nos fizemos gente.

 

“As palavras de reconhecimento aquecem o coração e unem as pessoas.”

 

Termino com a sugestão, de que quando contarmos a nossa história a alguém, sendo ou não figuras públicas não escondamos de onde viemos, dos atropelos, mas também e principalmente das mãos estendidas que encontramos pelo caminho e nos puxaram para cima, …ninguém faz nada sozinho, nada mesmo, por isso sejamos honestos com nós mesmos para sermos honestos com aqueles que nos rodeiam, com aqueles que nos aplaudem.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

30 Anos, não são trinta dias!

Entre o Arco-Íris e o Esquecimento, num banho de Pinkwasshing

Democracia! Será que vivemos em democracia?