A arte feita voz da revolução, que se vê e sente efémera!

 


Quantas vezes já dissemos,…”Não aprendemos nada com o passado!”

A arte feita voz da revolução, que se vê e sente efémera!

 

 

Quantas vezes já dissemos e ou pensamos, que não aprendemos nada com o passado, e quase que inevitavelmente quando dizemos e ou pensamos isto, criamos a imagem de guerras, no meu caso a segunda grande guerra, mas depois e porque somos seres mutáveis, quando queremos aprender mais, quando desejamos olhar o mundo com outros olhos, de diferentes ângulos daqueles que nos brindaram imediatamente após o berço, se bem que esse batismo tem a sua antestreia ainda no ventre das nossas mães quando escolhem mais que a roupinha da nossa vagina, os sonhos e os percursos de vida que devemos sem faltar realizar.

 

"A canção é como um grito de revolta, é como uma forma de dar voz aos que não têm."

(Victor Jara – cantor, poeta e ativista chileno)

 

Mas e depois, os nossos neurónios gritam por mais que aquilo que nos é colocado no prato, já não apreciamos mais o prato requentado, queremos mais, queremos algo fresco, que nos exalte, nos arremesse em caminhos novos, novas sensações, e nesse desejo encontramos a música, essa linguagem universal, que tantas vezes mesmo sem saber uma letra da música sentimos o seu sentido, o seu propósito, a sua mensagem tantas vezes reivindicação.

Para completar temos depois os próprios vocalistas que tantas vezes representam metade da letra, pelas suas expressões, pelo seu “dress code”, pela sua identidade.

Quem da minha geração não recorda Bono dos U2 e as suas letras, e telediscos reivindicativos gritos de alerta, pedidos de reflexão perante um mundo em constante conflito e vítima da fome.

Lamento não recordar qual era a música que usava como “teledisco” (sou mesmo antigo) imagens da fome na Somália, e memorizei umas dessas imagens, uma mãe que rasgava a veias do seu braço para dar de beber ao seu filho, e o mundo hoje não tem mais memória, mesmo com partes do mundo ainda a morrer de fome, mas como alguém comentou aqui no nosso país:

“- Tem que mostrar estas coisas á hora da refeição?” (qualquer coisa assim), porque parece que o desespero e a morte têm hora marcada, e nunca poderá ser à hora da refeição.

 

Em particular os anos 80 foram ricos de imagens e letras quem gritavam de pleno pulmão que o mundo em que vivíamos estava em sofrimento. Uma dessas imagens que faz parte da minha adolescência é a imagem de Boy George, dos Culture Club, uma imagem andrógena, quase expressão dos cantores de opera chinesa, quando surgia pálido num conjunto de roupas que mesmo para os anos 80 ultrapassava os costumes. A sua imagem era por si só uma mensagem, a sua imagem reclamava respeito, aceitação da diversidade, gritava que cada um de nós pode ser um mundo de cores e cortes.

 

"Ver chega antes das palavras. A criança olha e reconhece antes de poder falar."

("Ways of Seeing", John Berger,1972)

 

Esta afirmação do critico e escritor britânico serve que nem uma luva na descrição de Boy George cuja imagem andrógina e visual ousado desafiaram normas de género e estéticas convencionais, tornando-o não apenas um ícone pop, mas também uma figura revolucionária na cultura visual e identidade queer dos anos 80.

Não esqueço que o meu pai, na época com uma visão retrograda sobre as pessoas LGBT+, diria até uma visão nazi, porque foram algumas as vezes que fraseou que pessoas assim deviam ser encostadas à parede e “mete abaixo”, adorava a música “The War Song”, muito graças ao tal do teledisco, que como diz Berger, a imagem chega primeiro que a palavra, e para um homem que não sabia uma palavra de inglês, a imagem de destruição e as crianças com trajes de esqueleto, e fardas em movimentos de guerra, diziam ao meu pai que a música era sobre a guerra, e o mal que ela causava ao mundo, uma música que para ele era mais uma imagem, fazia que ele desligasse o crivo infernal do fascismo, e assim deixava passar Boy George com toda a sua imagem “controversa”.

 

"A fotografia é a verdade. E o cinema é a verdade 24 vezes por segundo."

(Jean-Luc Godard, cineasta e teórico do cinema)

 

Esta citação expressa bem aquilo que pretendo com este texto, a questão da verdade, e não de uma verdade seja ela qual for, mas das verdades aos milhões, biliões, triliões, que é a verdade de cada um de nós, quando falamos do que nos define como pessoas.

A minha verdade não tem de ser uma verdade única, e posso até mais que uma verdade em mim, dependendo dos círculos onde me movimento, posso querer adotar diferentes verdades, em diferentes dimensões da minha vida, e como eu qualquer um. Deixem ilustrar esta minha visão com uma realidade recente na minha vida.

Quem me segue sabe que me licenciei faz pouco tempo, e estou agora a fazer mestrado, mas e ao contrário de muitas pessoas, continuo a assinar João Paulo, porque esse é o meu nome, o título que agora carrego é uma parte de mim, mas em nada me define, por isso assino Dr. João Paulo, apenas e só se o meu contacto usar os seus títulos, e ou se a minha comunicação for formal, e inserida em ambientes de trabalho e ou académicos, no demais, recuso usar o titulo por iniciativa própria. Devo aliás confessar que acho triste quando as pessoas licenciadas, mestradas ou com doutoramentos, passam a querer ser tratadas por Dr. isto ou aquilo, acho ainda mais ridículo quando isso ocorre no ambiente de trabalho onde ainda alguns dias atrás era apenas tu, o amigo, o companheiro de trabalho, a coisa surge na minha mente como um pecado mortal, já que a soberba do diploma não apaga a simplicidade das origens, mas revela a fragilidade de quem precisa de títulos para se sentir diferente, superior!

 

"A humildade é a única base sólida de todas as virtudes."

(Confúcio)

 

"O único sinal certo de um verdadeiro conhecimento é a humildade."

(Albert Einstein)

 

Vou contar aqui uma situação que se passou comigo, faz alguns anos, mas que mesmo assim não cotarei nomes.

Trabalhava eu numa empresa multinacional, quando a determinada altura foi criada a posição de vice-diretor. Esta foi ocupada por um novo elemento que nos foi apresentado como Mário (nome fictício), e pronto assim ficou. Alguns meses depois o referido Mário andou a dizer aos diferentes colaboradores das diferentes secções que não era mais Mário, mas antes Eng. Mário, hum…conhecem-me? Se calhar não tanto!

Quando soube da alteração, sei lá porquê encontrei muito que questionar o novo Dr., mas tratando o mesmo apenas pelo nome, afinal ele ainda não me tinha comunicado a alteração titular de sua excelência. A determinada altura ele chama-me ao seu gabinete para me dizer:

M – João Paulo, já falei com os seus colegas, parece que ainda não sabe, mas de hoje em diante agradeço que me trate por Eng. Mário…

JP – Sério Sr, Mário, então você entra este ano para um curso de engenharia, seja está no primeiro ano, e já quer ser tratado por Engº, não faça isso, até porque para o ser precisa primeiro acabar o curso que agora começou e matricular-se na ordem dos engenheiros.

 

Ele não sabia que assim que os meus colegas me preveniram, eu liguei para uns amigos e perguntei se podiam confirmar a titularidade do dito, e claro fiquei a saber mais que aquilo que ele queria que eu soubesse.

 

Desviei-me um pouco do nosso assunto inicial, talvez não, porque como tanta coisa na vida a nossa existência, as nossas lutas, são uma espécie de “marmotinha de rabo na boca” (amo), está tudo ligado, e a verdade dessas ligações é que nos define como pessoas, não os títulos académicos ou sociais, e artísticos. Embora Freddy Mercury tenha encantado milhões em todo o mundo (eu incluído) isso não faz dele boa pessoa, ou alguém dotado de outros saberes além do seu brilhante dote vocal, de cantor. Mas já a sua loucura em palco (e fora dele), a sua irreverencia, seja, a imagem que ele passava para o exterior terá servido a milhões de jovens, no sentido de através dele saírem das suas zonas de conforto, enfrentado o “mainstream” o “status quó”, isto porque como disse Berger, o ver vem antes da palavra, e por isso talvez mais que as letras das músicas o visual de Freddy, mas também de Boy George; Bowie; Prince; Grace Jones; Cyndi Lauper, e ou Annie Lennox, quebraram barreiras, destruíram (ou pensávamos nós) os muros altos do conservadorismo, pelo menos nas vidas desses milhões de jovens que deles copiaram, adotaram através deles, as suas realidades, graças aos seus visuais, atitudes, irreverencia, catalisaram vidas, existências que até ai se sentiam talvez bichos do mato, seres extraordinários porque únicos, perdidos numa selva urbana compactada de caixas e caixinhas que definiam aquilo que uns e outros poderiam ser, como se deviam comportar, que vestir, talvez que pensar ou sonhar.

 

“Os pais dos anos 60, que pregavam amor e liberdade, agora dizem aos filhos para calarem a boca e cortarem o cabelo.”

(George Carlin, comediante e crítico social)

 

Eu diria mais, os de 70; 80, que viveram todas as loucuras que foram esses anos, agora muitos deles em lugares de poder, definem regras, leis, que castram, ou pretendem castrar as novas revoluções, que será que lhes aconteceu pelo caminho? Onde foi que se perderam desses ideais libertários? Em que apeadeiro da sua viagem, vestiram esse colete de forças?

Fico ainda mais zangado quando esses exercícios de opressão vêm das mulheres, muito embora os compreenda no geral, e mais ainda em casos muito particulares. Eles e elas são pastelaria de uma fornada mais que educativa formal, das escolas nos diferentes graus, também de fornadas caseiras, onde se escuta, “não faças isto”; “não digas aquilo”; “isso é de menina”; “isso é de menino”, e por aí vai. Onde estão esses seres extraordinários que quiseram mudar o mundo, e que hoje nos enfrentam de armas em punho, quando reclamamos LIBERDADE, quando desesperamos por AMOR, por todos os AMORES, de todas as cores e feitios, desde que AMOR.

 

Vivemos num mundo onde o ser humano NADA aprende com o passado, onde ficamos com a nítida certeza que “falharam em suas revoluções anteriores agora vêm-se a repetir as opressões que uma vez combateram."  (Herbert Marcuse), não ter aprendido com a guerra, em particular porque mais próxima da minha geração, a 2ª Guerra Mundial, é para mim extraordinariamente imperdoável, Bob Dylan disse: “Quantas vezes um homem pode virar a cabeça e fingir que simplesmente não vê?", quantas retóricas usam as pessoas de poder hoje, para justificar as atrocidades do presente, ou ignorar as do passado?

Precisamos rever a história, precisamos apresenta-la nua e crua, nas televisões, nas salas de aula, nos manuais educativos vários e em todos os graus, não podemos mais engolir em seco, porque o solo está árido de saber, precisamos exigir em todos os lados a verdade inconfortável, aquela que magoa, aquela que passa à hora da refeição, ou antes de nos fazermos ao leito, para talvez darmos mais valor a esse ato, a essa posse, para percebermos que ali mesmo ao lado, tem alguém que mais que dormir ao relento, não dorme com o barulho das bombas.

 

Precisamos de novo, das vozes graves e agudas dos poetas, dos que cantam a letra da luta, dos que fazem hinos na batida de um caixote, ou de uma palma, precisamos de novo que os artistas se posicionem, e juntos gritemos a uma só voz, que embora nos digam que este é um mundo novo, na verdade nada mudou, (Nina            Simone), continuamos os mesmos neandertais do passado, apenas mais enfeitados, e alegadamente bem falantes, pois “com papas e bolos se enganam os tolos”, em prime time com conversas e imagens da treta. Precisamos de tudo isso, porque se não, a revolução das letras e das imagens de quem as contava, não serviu de muito, talvez não serviu de nada.

 

"Vocês dizem que é um mundo novo, mas não mudou nada."

(Nina Simone - "Mississippi Goddam")


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