É urgente visionar este filme (atenção possivel spoiler alert)

 




É urgente ver este filme, é urgente perceber a sua pertinência e o risco REAL que vivemos hoje em dia, perante Trumpeiras, Putins, Bolsoneiradas, e Chegadas e por ai vai, é urgente perceber de onde viemos e para onde não podemos NUNCA voltar.

 

Hoje fomos eu e o marido visionar o filme “Ainda estou aqui”, um filme de Walter Moreira Salles Jr, que para já granjeou Fernanda Torres com um globo de ouro, um filme baseado em fatos verídicos, verídicos nas histórias de vida de quem viveu a ditadura brasileira, por muito que alguns queiram negar, e esta possível negação morre na praia, com mais um produção que agita a memoria, e alerta quem hoje constrói a sua história.

 

Já fora do cinema e a caminho do carro, o marido estava visivelmente comovido, eu, desta vez não me deu para a lágrima, coisa rara, hoje deu-me para um sentimento de revolta de mau estar, de um grito vernáculo, que questiona onde anda esta gente para votar no carrasco?


(photo by: TV insider)

Mas já no carro lembrava um outro filme (uma série) intitulado “The Handmaid’s Tale”, que sugiro que quem não viu ainda procure ver, pelo menos os primeiros cinco, seis episódios, para entenderem a fragilidade daquilo que vivemos hoje.

Esta série mostra bem por exemplo o que aconteceu na Ucrânia, hoje acordamos, tomamos o pequeno-almoço e saímos para um dia normal de trabalho e amanhã acordamos ao som de munições de todos os tamanhos, e perdemos parte da casa numa das explosões, não temos mais como tomar o pequeno-almoço em casa, a nossa cozinha desapareceu.

 

Confuso tudo isto? Talvez deixe de estar a seguir, depois de visionarem o filme razão deste texto, ou a série que vos indico.

O filme mostra-nos uma família privilegiada que vive desafogadamente, numa vivenda junto à praia, é só mesmo atravessar a rua, para colocar o pé na areia, e talvez por tudo isso as crianças da casa, nem dão conta do ar que se respira, também graças a um pai que sorri perante o perigo, perante a certeza que sabe que sai acompanhado pelos senhores policias (a nossa PIDE), e não mais volta.

 

E todo aquele privilégio desaparece, permanece o saber, que constrói discursos apaziguadores e que dissimulam a realidade, o papel de Fernanda Torres, a mãe a quem foi roubado o marido, a mulher que sem ele não pode mexer na sua conta bancária, e por isso vale-lhe o rasgo de comercializar o que tem e partir para uma nova vida, longe da rua que era só atravessar para colocar os pés na areia, e saborear a água do mar.

 

Primeiro é URGENTE que TODAS as pessoas vejam este filme, e não o vejam apenas como uma produção da sétima arte, mas antes como um documentário, mesmo que adaptado, de uma realidade que não vai assim tão longe.

Depois é preciso que nós, por cá, recolhamos as histórias que quem viveu a ditadura portuguesa, de quem perdeu família na guerra do ultramar, e de quem esteve no ultramar, e viu a miséria dos corpos mutilados, vertidos no meio do capim.

Precisamos contar essas histórias, precisamos grita-las, precisamos que elas preencham as páginas das salas de aula, para que criemos jovens conscientes de onde vieram os seus visavós, seus avós, talvez seus pais, para perceberem para onde NUNCA poderemos voltar, para podermos continuar a olhar o mar de frente, despreocupados com o que se passa na nossa retaguarda, para que possamos falar sem medos de podermos desaparecer no verso seguinte.

 

Assim o Ainda Estou Aqui (2023), dirigido por Walter Salles, que retrata a história real de uma esposa em busca do marido subtraído ao lar durante a ditadura militar no Brasil. A obra traz à tona as graves violações de direitos humanos desse período e o impacto devastador que tais crimes tiveram nas vítimas e nas suas famílias. Além de ser um resgate da memória histórica, o filme serve como um alerta sobre os perigos do autoritarismo e sobre como regimes opressores podem surgir e se consolidar.

O mundo que conhecemos é visível cada vez mais os discursos autoritários que voltam a ganhar força, Ainda Estou Aqui lembra-nos que uma ditadura não apenas cerceia direitos políticos, mas destrói vidas e impõe um clima de medo e censura. Quando a liberdade é retirada, (a um grupo que seja) perde-se não apenas o direito de expressão, mas também a dignidade e o acesso à verdade. A história ensina-nos que a democracia é frágil e que, se não for constantemente protegida, pode ser corroída aos poucos, levando a retrocessos que julgávamos impossíveis.

Esse alerta também está presente na série “The Handmaid’s Tale”, que retrata um futuro distópico em que um Estado é transformado numa teocracia totalitária de Gilead. E tal como na ditadura militar retratada em Ainda Estou Aqui, o regime em The Handmaid’s Tale sustenta-se na repressão, no medo e na supressão dos direitos fundamentais. Ambos mostram que uma sociedade livre pode, de repente, transformar-se num regime opressor, seja por meio da violência do Estado, seja pela omissão ou aceitação gradual da população.

A liberdade que gozamos hoje não é garantida para sempre. Tanto Ainda Estou Aqui quanto The Handmaid’s Tale reforçam que os direitos conquistados ao longo da história podem ser perdidos se não houver resistência. As duas obras, cada uma do seu jeito, servem como um lembrete, um grito gritado mesmo que de surdina, de que a luta pela democracia e pelos direitos humanos deve ser constante, pois tudo pode mudar de um momento para o outro, levando-nos de volta a tempos sombrios que jamais podemos, ou devemos repetir.


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