O Suicídio segundo João P. Paulo - um ato em construção, o resultado de todas as operações!

 


 

Falar deste tema sem falar de Émile Durkheim, é o mesmo que não falar de nada, pois este sociólogo debruçou-se sobre o tema em profundidade e desenvolveu considerações valiosas na análise do fenómeno, tendo identificado quatro tipos de suicido, e embora não queiramos aqui fazer nenhuma espécie de trabalho académico sobre o tema, penso que devo no mínimo abordar esta parte do seu trabalho descrevendo o melhor possível cada um deles, até para quem não teve oportunidade de estudar estas coisas, ter uma noção próxima do que se está a falar.

 

Assim Émile Durkheim, um dos fundadores da sociologia moderna, analisou o suicídio como um fenómeno social no seu livro O Suicídio (1897). Ele identificou quatro tipos principais de suicídio, baseados no nível de integração e regulação social dos indivíduos.

1. Suicídio Egoísta  -  que ocorre quando um indivíduo se sente excessivamente isolado da sociedade, com fraca integração nos grupos sociais. Pessoas que não possuem fortes laços familiares, religiosos ou comunitários podem sentir-se sem propósito e cometer suicídio. Um exemplo clássico seria alguém que vive em solidão extrema e não encontra sentido na vida.

2. Suicídio Altruísta  -  este ocorre quando a integração social é tão forte que o indivíduo se sacrifica pelo grupo. Aqui, a identidade pessoal é quase anulada em favor do coletivo. Exemplos incluem os kamikazes japoneses na Segunda Guerra Mundial ou suicídios motivados por lealdade extrema a uma causa ou crença.

3. Suicídio Anómico  -  Resulta da falta de regulação social, ocorrendo em momentos de grande crise ou mudança abrupta, onde as normas sociais se tornam confusas. Um exemplo seria uma pessoa que perde repentinamente toda a sua fortuna ou um desempregado que não consegue reestruturar sua vida após uma crise econômica.

4. Suicídio Fatalista  -  É o oposto do suicídio anómico e ocorre quando há regulação excessiva na vida do indivíduo, impondo um controle sufocante. Indivíduos submetidos a regimes extremamente opressivos podem ver o suicídio como a única saída. Um exemplo pode ser uma pessoa que vive sob um regime de escravidão ou num ambiente prisional extremamente rígido.

 


Todas estas dimensões e análise sobre o suicídio são perfeitamente compreensíveis nesta lógica de Durkheim e, diria até facilmente observáveis a olho nu, contudo eu observo este fenómeno mais com olhos de Shneidman, que descreve o ato como resultado de um sofrimento mental extremo como a principal força motriz para o ato suicida. Para ele, o suicídio não acontece apenas por um fator isolado, mas sim como o resultado de um acúmulo de experiências, traumas e dificuldades emocionais.

Outro autor, Thomas Joiner, apresenta o resultado do ato suicida como resultado da combinação de três fatores, o primeiro “Sentimento de pertença frustrado”, que vejo como uma análise próxima do “Suicídio Egoísta” de Durkheim, se bem que não concorde inteiramente com esta definição, porque se para Durkheim o suicídio é egoísta e ocorre quando o indivíduo vive isolado, sem grandes laços familiares e sociais, e se a definição de egoísmo, se refere a algo que o individuo apenas vê o seu interesse, não o descreveria como egoísta, porque este nada subtrai ao outro em seu proveito único. Se não existem laços, não existem perdas do outro lado, apenas o individuo se perde de si mesmo.

Joiner descreve então este sentimento de pertença frustrada, como alguém que não se sente parte de um determinado grupo ou da comunidade como um todo, e que esta falta de pertença retira ao individuo significado em ser, em estar. O segundo fator apresentado por Joiner é o “Sentimento de ser um fardo”, e eu olho este segundo fator como uma breve reunião de dois ou três dos suicídios de Durkheim, mas não nos deixemos absorber pelo sociólogo, e olhemos apenas o psicólogo.

Este segundo fator surge na análise de Joiner, como o individuo que se sente um fardo para terceiros, a sua existência, e a sua condição nessa existência representa aos seus olhos, um peso que prejudica a vivencia das pessoas á sua volta, sejam cuidadores ou não, dependendo dessa condição vivida pelo potencial suicida.

O terceiro fator apresentado por este autor é a “Capacidade adquirida para cometer suicídio”, que por vezes será talvez um dos grandes fatores limitadores da consumação do ato. O individuo pode ter por exemplo ao seu dispor uma corda para se enforcar, uma faca para se cortar, ou até um revolver para disparar sobre si mesmo, mas o não querer acumular mais sofrimento, desejar partir em paz, afastá-lo-á da corda e da faca, e o tiro dado com a inclinação errada pode resultar num sofrimento maior, que poderá efetivamente resultar no óbito, mas também numa situação de grande sofrimento ou uma vida dependente, o que nos levaria ao fator anterior o de “fardo”, e por isso este ultimo fator, a acessibilidade aos meios, e o saber sobre como usar é definitivamente o fator talvez mais importante, para a consumação do ato, pois mais que ter acesso, é o saber de como usar esses materiais, no sentido de um resultado efetivo.

 


Em debates informais sobre este tema, tive oportunidade de apresentar a razão do suicídio como algo que aos olhos de quem observa parece fútil, porque olha apenas um dos pontos da soma ou multiplicação que tem como resultado o ato. Disse-o, uma criança, adolescente, pode suicidar-se porque partiu a orelha do dálmata de louça comprado na feira, e isto porque a sua mãe terá sobre este adorno grande estima, e se a condição económica não for também ela a mais favorável, o jovem olha aquele acidente como limite de um copo que já estava cheio, e que esborda com o saber que vai desiludir a sua mãe, e esta razão é tão válida como para quem se suicida porque tem uma doença incurável, porque a dimensão do peso, da carga emocional atribuída depende apenas e só do individuo.

 

E chegados aqui diria que esta minha visão se ajusta com a de Sigmund Freud, que relacionou o suicídio com a teoria das pulsões, e assim relacionou o ato com a pulsão de morte (Thanatos), como resultado de tensões internas, um conflito entre o ego e o superego na busca de resposta, de resolução, por exemplo de estados depressivos e ou lutos mal resolvidos.

 

Este breve "ensaio", se assim se poderá classificar, pretende de alguma forma lançar o debate de que o Suicídio é muito mais que o olhar de Durkheim, embora seja inegável o seu trabalho em volta do tema, mas o ato é muito mais que aquilo que ele apresenta, é um conjunto de fatores que podem resultar na consumação do ato. Não é a simples falta de integração ou a mesma vivida em excesso que atira o individuo nesse abismo, mas antes um conjunto de condimentos vários, de diferentes procedências, sociais, profissionais, familiares, e cognitivas, porque como diz Viktor Frankl, um psiquiatra que foi sobrevivente do holocausto, precisamos ter firme no nosso ser, um sentido de vida, encontrar o “Eros” (Freud), porque mesmo em situações de uma forte disrupção da condição de vida do individuo, tendo o foco num propósito de vida, pode ser a chave para se afastar do suicídio, mesmo perante circunstancias mais extremas.

 

Acrescentaria em modo de conclusão de que, se o mundo fosse um espaço de construção, livre de parâmetros rígidos, de protocolos castradores e opressivos, poderíamos evitar a existência de sofrimento ao nível do psi, fazendo as pessoas abraçarem muito mais Eros, afastando-se de Thanatos, sendo dessa forma mais um elemento na construção de um mundo mais harmonioso.

 

Numa perspectiva mais pessoal e menos teórica ou académica, o suicídio é sempre um ato de desespero, uma ausência absurda de respostas para o que quer que seja, que nos atormenta. Pessoas que sofrem diariamente com sentimentos de depressão, diagnosticados como depressivos crónicos, saltam constantemente esta barreira, sendo que entre estes e demais pessoas as há, com instintos autodestrutivos, mais ou menos controláveis graças a terapias várias.

O desespero do suicida, pode ser comparável ao desespero de quem fica órfão, que na ausência de despedidas, de notas que pretendam justificar o ato, passam a atormentar esses órfãos, com a ideia a sensação de que poderiam, gostariam, desejavam ter feito algo no sentido de travar essa demanda para o salto do precipício, só que não.

Comecei por dizer que não apreciava o determinismo de Durkheim, estando a minha reflexão mais próxima de outras teorias, que consideram o ato como resultado de acumulações, como se essas pessoas sofressem do “Transtorno de Acumulação”, só que ao invés de acumularem coisas, acumulam sentimentos negativos, provindos de experiências menos positivas das suas vidas. Que, tal como o acumular de coisas, mais tarde ou mais cedo tornam a sobrevivência dessas pessoas incomportável, salobra, tanto que resulta nesse ato de desespero.

Perdermos alguém nessas circunstâncias NUNCA é uma coisa boa, pois esse sentimento de vazio, uma espécie de anomia, dado que ficamos sem saber o que pensar, o que sentir para além da dor de perda, consome-nos de alguma forma.

 


O nosso dia-a-dia está assoberbado com coisas e coisinhas, coisas de valor e coisas que atribuímos valor, e acabamos por esquecer de cumprimentar mais, de parabenizar mais, abraçar mais, e acima de tudo de escutar e observar, para não sermos surpreendidos com os silêncios, com as euforias estremas, onde os decibéis são incontáveis. Precisamos sorrir mais, precisamos aprender a gerir o nosso tempo, de forma a termos todos mais tempo uns para os outros, na verdade para nós, porque ninguém é feliz sozinho.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

30 Anos, não são trinta dias!

Entre o Arco-Íris e o Esquecimento, num banho de Pinkwasshing

Democracia! Será que vivemos em democracia?