O Óscar de pancarta, …mas tímida!
O Óscar de pancarta, …mas tímida!
A noite dos Óscares é por norma um espaço aberto a lutas várias, palco de declarações, reivindicações por um mundo melhor, gritos de revolta. Este ano não foi diferente, mas, e em contraponto com outros anos, achei que essas manifestações foram mais tímidas que em anos anteriores, parecia haver uma espécie de desalento, uma vergonha alheia que ninguém queria expor. Senti isso, por exemplo, com o premiado com o Óscar de “Melhor Actor”, Adrien Brody, que por um lado queria fazer ali uma declaração forte e sentida sobre a situação que o mundo se encontra, silenciou até a orquestra, mas depois um travão na língua, um emaranhado de ideias, vontades, diria até que se houvesse aquelas nuvens da banda desenhada estaria cheia de hieróglifos sem sentido.
"O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas a ilusão do conhecimento." – (Stephen Hawking)
Por sua vez, o Óscar de “Melhor Actriz”, Zoë Saldaña, que no seu discurso meio que desorganizado, foi muito mais emotivo, dando realce à questão da imigração, numa oposição, para mim clara, aos muros políticos, como aquele que deixou pendurado um dos premiados que tiveram visto para entrar nos EUA à última da hora, mas fazer o quê? O mundo, mais que dividido, está de costas voltadas, quando devíamos estar a celebrar AMOR, AMIZADE, UNIÃO. O mundo parece, político e social, querer voltar às cavernas, ou mais certo ao medievalismo.
"A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar." – (Martin Luther King Jr.)
A frase dos realizadores do documentário No Other Land, dos realizadores Yuval Abraham, Rachel Szor, Basel Adra e Hamdan Ballal, dois israelitas e dois palestinianos, foi brilhante, quando disse algo do género, “juntos somos melhores”, e aqui quer o palestiniano quer o israelita apontaram críticas sobre o que se está a passar no conflito Israel/Palestina, Faixa de Gaza. A sua intervenção desencadeou um conjunto de reações a nível internacional, críticas dirigidas ao presidente dos EUA, quem mais!?
"Não há caminho para a paz. A paz é o caminho." – (Mahatma Gandhi)
Seja, senti que este ano os Óscares foram um reflexo muito real do que o mundo está a viver neste momento, uns e outros vivem uma vergonha alheia, de um lado Trump e os EUA, do outro Putin e a Rússia, e pelo meio um mundão imenso de pessoas alienadas da sua força, incapazes de se unirem na luta por um mundo melhor, mas prontas a responder na mesma moeda da vergonha que sentem, por outras palavras, prontas a esconjurar bodes expiatórios de um sistema falido, ao invés de os desconstruir e apanhar o foco, que devia ser a luta pacífica pela harmonia, pela paz, pela diversidade que nos assiste a TODOS sem qualquer exceção.
"O preço da apatia em relação às questões públicas é ser governado por homens maus." – (Platão)
O mundo em que vivemos neste preciso momento está envolvido naquilo que sempre foi, um conjunto de indivíduos medievais que ainda procuram estabelecer (restabelecer) fronteiras, uma espécie de coisa animalesca, de seres irracionais, que quais leões andam a mijar aos cantos, e a rosnar o mais alto que podem, para dizer este é o meu pedaço, indivíduos que ainda não perceberam que essa coisa de sermos seres racionais, não passa de uma máscara de carnaval, porque na verdade nunca deixamos, pelos vistos, de sermos primatas.
"O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é." – (Albert Camus)
Estava eu ainda no ciclo, faz mesmo muito tempo, quando uma professora disse dentro de um determinado contexto, que o que foi gasto com a Segunda Grande Guerra dava para acabar com a fome no mundo inteiro, e mais coisas que dava para se fazer, e então recordando essa fala, fui procurar:
Então, a Forbes Brasil dita que estima-se que foram gastos 4,1 triliões de dólares, valores de 1945, e com esse valor era possível atribuir uma casa modesta a cada família, um automóvel, colocar uma escola e um hospital em cada cidade, e mesmo assim sobraria dinheiro (Wikipedia; pcsda.org; chsantacasa.org,br). Então, a pergunta que me coloquei a seguir foi: e então, qual o valor do armamento atual? Gente, não foi fácil, mas uma notícia de cada vez, acabamos chegando a um número, mas que antes de o revelar, vou adiantar que só em 2024, segundo a CNN Brasil, investiu-se em bens militares mundialmente algo como 2,46 triliões de dólares. Seja, em 2024 investiu-se na guerra ou para a guerra mais de metade do valor gasto na 2ª Guerra Mundial.
"A guerra não é mais do que um assassinato em grande escala, e o assassinato não é progresso." – (Alphonse de Lamartine)
Mas fomos então mais longe (se o meu PC estiver sob observação de alguma agência, ainda vou ter o FBI ou o CIS a bater-me à porta com tanta pergunta sobre material de guerra na web), então questionamo-nos sobre como estaria distribuído o arsenal nuclear pelo mundo, e o resultado foi: Rússia: Possui aproximadamente 5.580 ogivas nucleares, o que representa cerca de 47% do total mundial (pt.euronews.com). Estados Unidos: Detém cerca de 5.428 ogivas nucleares (es.statista.com). Outros países como China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte possuem arsenais menores, totalizando aproximadamente 12.121 ogivas nucleares globalmente (es.statista.com).
Números soltos, dispersos um pouco por todo o lado da web. O mundo investe em armamento cerca de 1,2 triliões de dólares por ano nos últimos trinta anos, seja, 1,2 x 30 = 36 triliões de dólares. Se com quatro em 1945 se resolvia a fome e as condições de vida de TODO o mundo, conseguem imaginar o que seria possível fazer com este brilhante e "very fat" número de 36T?
"A paz não pode ser mantida à força. Ela só pode ser atingida pelo entendimento." – (Albert Einstein)
Será que podemos concluir que quem pode, seja, tem poder, tem as prioridades trocadas? Por outras palavras, TODO o mundo com poder prefere gastar triliões mais com guerras do que com tudo o resto que daria qualidade de vida a mesmo toda a gente.
"Se queres prever o futuro, estuda o passado." – (Confúcio)
Olhando isto surge-me uma outra pergunta:
- Onde foi que nos perdemos como sociedade?
Uma pergunta ingénua, talvez, enquanto teremos mais ou menos consciência de que cada teórico terá uma ideia formada ou não, sobre onde se terá dado a perda da bússola moral que devia gerir toda a humanidade. Onde foi que decidimos que tinha de haver fronteiras, onde decidimos que uma ideologia é mais importante que as demais, e que por isso essas outras teriam de ser anuladas, ao invés de aprendermos a conviver uns com os outros, onde a fronteira fosse apenas a velha máxima de que a minha LIBERDADE termina no exato momento onde começa a do outro.
"A tirania totalitária não se edifica sobre as virtudes dos totalitários, mas sobre os erros dos democratas." – (Albert Camus)
Onde foi que nos perdemos, e decidimos matarmo-nos uns aos outros?
Temos já demasiados maus exemplos do que não acreditar, e não fazer, de rei Leopoldo à 2ª Grande Guerra, da Líbia à Ucrânia, da fome no Haiti aos náufragos no Mediterrâneo. Não nos faltam os tais exemplos que nos gritam desesperadamente por onde não ir, mas mesmo assim quem pode, os diferentes timoneiros do mundo, continuam a optar por oprimir, castrar as LIBERDADES de uns e outros. Aplicam sermões repletos de palavras bonitas e revestidas de uma alegada bondade, quando na verdade vertem ódio e sangue. Foi assim em 1933, tem sido assim nos últimos tempos um pouco por todo o mundo, e está a acontecer aqui em Portugal.
"Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo." – (George Santayana)
Estamos às portas de eleições legislativas e depois autárquicas, mais que ouvir os vendedores da banha da cobra, precisamos OBSERVAR o que temos, precisamos relativizar as falhas, e avaliar se vale mais perder tudo, ou manter a LIBERDADE de lutar pelos que desejamos mudar?
"Liberdade é, antes de tudo, o direito de dizer aos outros o que eles não querem ouvir." – (George Orwell)
Precisamos talvez de nos agarrar no dito popular, de que “para pior já basta assim”, não apoiemos a ignorância da opressão, mas antes sermos vigilantes com as fações democráticas e exigir delas o certo para o bem comum, e só poderemos exigir se vivermos em LIBERDADE e por isso com espaço para o fazer.
"A liberdade nunca é dada; é conquistada." – (A. Philip Randolph)
Chegou o momento de assumirmos a nossa responsabilidade coletiva e resgatarmos a dignidade que nos querem roubar. Não podemos mais ser meros espectadores de um mundo que se desfaz em cinzas de ódio, guerra e desigualdade. "A opressão só sobrevive através do silêncio." (Carmen Lucia). A nossa voz é a arma mais poderosa contra os que lucram com a miséria, contra os que nos querem divididos, enfraquecidos e temerosos. Como disse Angela Davis, "numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista." O mesmo se aplica a todas as formas de injustiça. Devemos ser contra a desigualdade, contra a indiferença, contra o medo que nos imobiliza. "Sozinhos poderemos ir mais rápido, mas juntos vamos mais longe". Juntos, unidos pelo que nos torna humanos — a solidariedade, a justiça, a liberdade —, podemos mudar este rumo. Pois, como nos lembra Eduardo Galeano, "muita gente pequena, em lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, que podem mudar o mundo."
Que não nos calemos, que não nos resignemos.
A mudança começa agora, e começa em nós!
Falta solidariedade, compaixão e generosidade.
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