"O que significa ocupar o espaço público? Significa reivindicar o direito de existir." (Butler)
Marchar é EXISTIR: A Importância das Marchas, das Ruas e
da Luta LGBT+
As ruas sempre foram palco da história. Foi nelas que os
trabalhadores ergueram seus punhos no 1º de Maio, que povos inteiros se
libertaram da tirania, que vozes antes silenciadas se ergueram contra regimes
opressores. E foi também nelas que a comunidade LGBT+ encontrou, e continua a encontrar,
espaço para existir, para resistir e para celebrar.
As marchas nunca foram meros desfiles, nunca foram meros
festejos vazios. Elas são, (e devem continuar a ser) antes de tudo, uma
afirmação de existência, uma ocupação do espaço público por corpos que, por
muito tempo, foram empurrados para a margem da sociedade.
No entanto, hoje, há um murmúrio de desinteresse, um
certo descrédito, que se alastra entre alguns, inclusive dentro da própria
comunidade LGBT+. Há quem diga que já conquistamos muito, que não precisamos
mais marchar, que "isso já não faz diferença". Esquecem-se, talvez,
que se não fosse por aqueles que marcharam antes, sequer poderiam gozar do
direito de ignorar a luta. Se não fossem as marchas, as revoltas, as
reivindicações, o armário de onde vieram ainda seria um caixão, e amar
livremente seria crime.
As Marchas: Um Ato Político e Histórico
A história ensina-nos que nenhuma LIBERDADE foi concedida
por mera benevolência dos poderosos. Como escreveu Angela Davis: "Não
aceito mais as coisas que não posso mudar. Estou a mudar as coisas que não
posso aceitar." Foi com essa mentalidade que negros marcharam contra o
racismo, que mulheres saíram às ruas exigindo direitos, que operários
desafiaram o capital. E foi com essa mentalidade que, em 1969, em Nova York, um
levante mudou para sempre a história LGBT+, com a Revolta de Stonewall.
Naquela noite, cansadas da repressão policial, das
batidas constantes e das prisões arbitrárias, drag queens, pessoas trans, lésbicas,
e gays reagiram. Lideradas por figuras como Marsha P. Johnson e Sylvia
Rivera, desafiaram o medo, enfrentaram a violência do Estado e deram início
ao que hoje conhecemos como o movimento moderno pelos direitos LGBT+. Como
disse Marsha: "Ninguém nos vai libertar além de nós mesmas."
Foi daquele ato de coragem que nasceu a primeira Parada
do Orgulho LGBT+, um ano depois, em 1970. E desde então, cada marcha, cada
ocupação das ruas, cada bandeira levantada no meio da multidão é um eco daquele
levante inicial.

Marchar é Ocupação, Marchar é Resistência
Ocupar as ruas não é um detalhe, não é um capricho. É um
ato político. Judith Butler, teórica da filosofia e do gênero, afirma: "O
que significa ocupar o espaço público? Significa reivindicar o direito de
existir." E essa reivindicação é urgente porque a violência ainda
persiste.
Em dezenas de países, ser LGBT+ ainda é crime, e em
alguns, a pena é a morte. Mesmo em nações onde conquistamos direitos, o
preconceito e a violência ainda fazem vítimas diárias. O Brasil, por exemplo, é
um dos países onde mais se mata pessoas trans no mundo. Na Europa e nos Estados
Unidos, vemos o avanço de políticas que tentam apagar anos de progresso.
E ainda assim, há quem diga que as marchas não são mais necessárias.

Porquê o Descrédito? (na minha modesta
opinião)
O conforto é perigoso. Quando as conquistas se tornam parte do cotidiano, quando a violência parece menos visível (ainda que continue
a existir), quando se pode segurar a mão de alguém mesmo que apenas em algumas
ruas sem medo, surge a ilusão de que "a luta acabou". O privilégio de
não precisar lutar todos os dias anestesia muitos, deixa uns quantos alienados
da realidade de milhares (se não milhões) no nosso país e no mundo.
Há também o desgaste da luta. Como afirmou Audre Lorde: "Transformar
o silêncio em linguagem e ação é um ato de sobrevivência." Mas nem
todos estão prontos para carregar essa responsabilidade. A luta cansa, e alguns
preferem acreditar que está tudo resolvido, que o sistema já nos aceitou. Mas o
sistema não nos aceitou — ele apenas nos tolera na medida em que não representamos uma ameaça à sua estrutura.
Além disso, o próprio capitalismo cooptou muitas marchas,
transformando-as em eventos lucrativos, despolitizados, esvaziados de sua carga
revolucionária, como é caso maior os “EuroPride”. Há empresas que estampam o
arco-íris em junho, mas que financiam políticos e grupos que atacam os nossos
direitos o resto do ano, oprimem colaboradores LGB e jamais contrataram um T. Esse esvaziamento gera frustração, gera críticas, mas
a solução não é abandonar as marchas — é retomá-las. Torná-las novamente
combativas, políticas, revolucionárias.
Conheço algumas das Marchas do nosso país, mas é de fato com a do Porto que estou mais familiarizado, e se tem coisa que esta Marcha sempre foi, é combativa, revolucionária, e se faltassem exemplos, podemos recordar apenas um. 2018 quando a Marcha como um todo, e um grupo específico enfrentou o autocarro da Variações, que pretendia tomar de assalto uma Marcha que sempre foi política, combativa, revolucionária, e não o escaparate capitalista, há outros espaços para isso. Onde aquele que hoje é investigado pelo MP por ilegalidades várias, ignorou os "nãos" da MOP, e qual opressor, talvez psicopata e por isso indiferente à existência do outro, por isso se sente no direito de se impor a ele.

Se Não Fossem as Marchas…
É preciso lembrar a quem descredibiliza a luta: se não
fossem as marchas, tu não estarias aqui livre para desprezá-las. Se não
fossem aqueles que ousaram levantar sua voz, tu ainda estarias a viver no medo, no silêncio, no anonimato
imposto do sistema opressivo.
Se não fossem as marchas, um conjunto de direitos hoje
inscritos na lei, não seriam realidade como:
- O
casamento igualitário ainda seria um sonho distante.
- A
adoção por casais do mesmo sexo seria uma miragem.
- Não
teríamos leis que protegem contra discriminação.
- Pessoas
trans ainda estariam invisíveis, sem direitos mínimos.
- Expressões
de afeto em público ainda seriam motivo de prisão ou violência.
Como disse Harvey Milk, um dos primeiros políticos
assumidamente gays a ocupar um cargo nos EUA: "Os direitos não são
ganhos por pessoas que pedem de joelhos. Eles são tomados por aqueles que se
levantam e lutam."
E essa luta nunca é apenas sobre um grupo específico. Quando
marchamos, marchamos por todas as minorias, por todas as pessoas oprimidas.
Porque quando abrimos um caminho, ele torna-se trilha para muitos outros que virão
a seguir.
E por tudo isso temos ORGULHO, orgulho como contraponto à vergonha que ainda nos querem impor.

Que ORGULHO é esse
O "Orgulho" nas Marchas do Orgulho LGBT+ vai
muito além do ato de resistir. Para teóricos e ativistas, ele representa
múltiplas dimensões que desafiam séculos de opressão e apagam a vergonha
imposta às identidades dissidentes. Aqui estão algumas das principais
definições e perspetivas sobre o "Orgulho" nas marchas:
Judith Butler, argumenta que o simples ato de ocupar o
espaço público com corpos LGBT+ é um gesto político. Segundo ela, "tornar-se
visível é desafiar a norma que nos quer invisíveis". O orgulho,
portanto, é a afirmação de que existimos e temos o direito de existir sem medo,
nós e todos os demais oprimidos. Orgulho como Afirmação da Existência
Audre Lorde, feminista negra e lésbica, escreveu: "Se
eu tivesse que ser invisível para sobreviver, então já estaria morta."
O orgulho LGBT+ nasceu como resposta direta à vergonha imposta pela sociedade.
Ele rejeita a ideia de que há algo errado ou inferior na existência LGBT+,
transformando o que antes era visto como tabu em algo digno de celebração. Orgulho
como Recusa à Vergonha
Para muitas pessoas, eu incluído, o orgulho também é um
ato de homenagem àqueles que vieram antes e que lutaram para abrir os caminhos.
Marsha P. Johnson, ativista trans e figura central na Revolta de Stonewall,
dizia: "Nenhuma revolução acontece sozinha." O orgulho carrega
consigo a memória dos que sofreram, foram assassinados, marginalizados e
apagados da história, e a quem TOD@S nós devemos a vida de privilégio que hoje
vivemos. Orgulho como Memória e Homenagem
Angela Davis, enfatiza que "qualquer movimento
genuíno de libertação deve acolher todas as formas de diversidade". O
orgulho não celebra apenas gays e lésbicas, mas também pessoas bissexuais,
trans, não binárias, intersexo e todas as identidades que desafiam as normas
heterocisnormativas. Orgulho como Celebração da Diversidade
Harvey Milk, disse, e esse foi sempre o meu lema que "Se
eu puder dar esperança a apenas uma pessoa, minha luta já valeu a pena.",
e espero tê-lo conseguido também como ele ter feito a diferença na vida de
alguém. O orgulho LGBT+ não é apenas sobre lutar contra opressão, mas também
sobre reivindicar o direito à felicidade, ao amor, ao afeto e à LIBERDADE de
ser quem se é, sem medo. Orgulho como Direito à Felicidade
O orgulho não é apenas celebração, mas também um chamado
contínuo para a luta. Como disse bell hooks: "A LIBERDADE vem quando
nos recusamos a ser controlados pelo medo." Enquanto houver
discriminação, violência e retrocessos nos direitos LGBT+, (como em qualquer
outro direito humano) as marchas do orgulho continuarão a ser um grito coletivo
por justiça. Orgulho como Chamado para a Ação
O "Orgulho", portanto, não é um luxo nem um exagero. Ele é uma necessidade vital, um direito humano fundamental e uma ferramenta poderosa para transformar a sociedade. Ele não apenas resiste – ele ilumina o caminho para um mundo mais livre.

Marchamos Porque Não Podemos Retroceder
O avanço de forças reacionárias, conservadoras e
autoritárias é uma ameaça real. Sempre que se consegue um direito, há quem
tente revogá-lo. Sempre que a LIBERDADE avança, há quem queira puxá-la de volta
para um lugar obscuro. Por isso, a história ensina-nos que nenhuma conquista
é permanente se não for constantemente defendida, e prova disso é o direito
trabalhista, os trabalhadores hoje tem menos proteção e por isso direitos que
tinham talvez 20 anos antes.
Marchamos para lembrar ao mundo que existimos. Marchamos
porque a dor e a violência ainda são reais. Marchamos porque queremos mais do
que migalhas — queremos viver plenamente, queremos uma carcaça inteira para
colocar nela tudo que nos fizer felizes e nos der prazer. Como disse a filósofa
Hannah Arendt: "O direito de ter direitos só existe quando há quem lute
por ele."
E se a luta cansa, que
descansemos um pouco, mas nunca desistamos. Porque cada passo na rua, cada
bandeira erguida, cada voz que grita "Ainda Estamos Aqui!" é
um tijolo a mais na construção de um mundo mais livre.
E nesse mundo, que já foi escuro demais para pessoas como
nós, cada marcha é um raio de luz.
E eu enquanto cá estiver, irei Marchar com um archote
indiferente às politiquices que por vezes existem nas lutas sociais, porque a
minha luta, não é por mim, é por ti que ainda receias o ar que respiras, que o
medo ainda te trava as pernas e não te deixa Marchar ao meu lado, porque a
minha politica a minha luta são aqueles que ainda não tem voz nem para si
mesmos!
Comentários
Enviar um comentário