"O que significa ocupar o espaço público? Significa reivindicar o direito de existir." (Butler)

 

Este ano a Marcha do Orgulho LGBT+ do Porto faz 20 anos,...

Marchar é EXISTIR: A Importância das Marchas, das Ruas e da Luta LGBT+

 

As ruas sempre foram palco da história. Foi nelas que os trabalhadores ergueram seus punhos no 1º de Maio, que povos inteiros se libertaram da tirania, que vozes antes silenciadas se ergueram contra regimes opressores. E foi também nelas que a comunidade LGBT+ encontrou, e continua a encontrar, espaço para existir, para resistir e para celebrar.

As marchas nunca foram meros desfiles, nunca foram meros festejos vazios. Elas são, (e devem continuar a ser) antes de tudo, uma afirmação de existência, uma ocupação do espaço público por corpos que, por muito tempo, foram empurrados para a margem da sociedade.

No entanto, hoje, há um murmúrio de desinteresse, um certo descrédito, que se alastra entre alguns, inclusive dentro da própria comunidade LGBT+. Há quem diga que já conquistamos muito, que não precisamos mais marchar, que "isso já não faz diferença". Esquecem-se, talvez, que se não fosse por aqueles que marcharam antes, sequer poderiam gozar do direito de ignorar a luta. Se não fossem as marchas, as revoltas, as reivindicações, o armário de onde vieram ainda seria um caixão, e amar livremente seria crime.

 


As Marchas: Um Ato Político e Histórico

 

A história ensina-nos que nenhuma LIBERDADE foi concedida por mera benevolência dos poderosos. Como escreveu Angela Davis: "Não aceito mais as coisas que não posso mudar. Estou a mudar as coisas que não posso aceitar." Foi com essa mentalidade que negros marcharam contra o racismo, que mulheres saíram às ruas exigindo direitos, que operários desafiaram o capital. E foi com essa mentalidade que, em 1969, em Nova York, um levante mudou para sempre a história LGBT+, com a Revolta de Stonewall.

Naquela noite, cansadas da repressão policial, das batidas constantes e das prisões arbitrárias, drag queens, pessoas trans, lésbicas, e gays reagiram. Lideradas por figuras como Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, desafiaram o medo, enfrentaram a violência do Estado e deram início ao que hoje conhecemos como o movimento moderno pelos direitos LGBT+. Como disse Marsha: "Ninguém nos vai libertar além de nós mesmas."

Foi daquele ato de coragem que nasceu a primeira Parada do Orgulho LGBT+, um ano depois, em 1970. E desde então, cada marcha, cada ocupação das ruas, cada bandeira levantada no meio da multidão é um eco daquele levante inicial.

 

Marchar é Ocupação, Marchar é Resistência

 

Ocupar as ruas não é um detalhe, não é um capricho. É um ato político. Judith Butler, teórica da filosofia e do gênero, afirma: "O que significa ocupar o espaço público? Significa reivindicar o direito de existir." E essa reivindicação é urgente porque a violência ainda persiste.

Em dezenas de países, ser LGBT+ ainda é crime, e em alguns, a pena é a morte. Mesmo em nações onde conquistamos direitos, o preconceito e a violência ainda fazem vítimas diárias. O Brasil, por exemplo, é um dos países onde mais se mata pessoas trans no mundo. Na Europa e nos Estados Unidos, vemos o avanço de políticas que tentam apagar anos de progresso.

E ainda assim, há quem diga que as marchas não são mais necessárias.

Porquê o Descrédito? (na minha modesta opinião)

 

O conforto é perigoso. Quando as conquistas se tornam parte do cotidiano, quando a violência parece menos visível (ainda que continue a existir), quando se pode segurar a mão de alguém mesmo que apenas em algumas ruas sem medo, surge a ilusão de que "a luta acabou". O privilégio de não precisar lutar todos os dias anestesia muitos, deixa uns quantos alienados da realidade de milhares (se não milhões) no nosso país e no mundo.

Há também o desgaste da luta. Como afirmou Audre Lorde: "Transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de sobrevivência." Mas nem todos estão prontos para carregar essa responsabilidade. A luta cansa, e alguns preferem acreditar que está tudo resolvido, que o sistema já nos aceitou. Mas o sistema não nos aceitou — ele apenas nos tolera na medida em que não representamos uma ameaça à sua estrutura.

Além disso, o próprio capitalismo cooptou muitas marchas, transformando-as em eventos lucrativos, despolitizados, esvaziados de sua carga revolucionária, como é caso maior os “EuroPride”. Há empresas que estampam o arco-íris em junho, mas que financiam políticos e grupos que atacam os nossos direitos o resto do ano, oprimem colaboradores LGB e jamais contrataram um T. Esse esvaziamento gera frustração, gera críticas, mas a solução não é abandonar as marchas — é retomá-las. Torná-las novamente combativas, políticas, revolucionárias.

Conheço algumas das Marchas do nosso país, mas é de fato com a do Porto que estou mais familiarizado, e se tem coisa que esta Marcha sempre foi, é combativa, revolucionária, e se faltassem exemplos, podemos recordar apenas um. 2018 quando a Marcha como um todo, e um grupo específico enfrentou o autocarro da Variações, que pretendia tomar de assalto uma Marcha que sempre foi política, combativa, revolucionária, e não o escaparate capitalista, há outros espaços para isso. Onde aquele que hoje é investigado pelo MP por ilegalidades várias, ignorou os "nãos" da MOP, e qual opressor, talvez psicopata e por isso indiferente à existência do outro, por isso se sente no direito de se impor a ele.

Se Não Fossem as Marchas…

 

É preciso lembrar a quem descredibiliza a luta: se não fossem as marchas, tu não estarias aqui livre para desprezá-las. Se não fossem aqueles que ousaram levantar sua voz, tu ainda estarias a  viver no medo, no silêncio, no anonimato imposto do sistema opressivo.

Se não fossem as marchas, um conjunto de direitos hoje inscritos na lei, não seriam realidade como:

  • O casamento igualitário ainda seria um sonho distante.
  • A adoção por casais do mesmo sexo seria uma miragem.
  • Não teríamos leis que protegem contra discriminação.
  • Pessoas trans ainda estariam invisíveis, sem direitos mínimos.
  • Expressões de afeto em público ainda seriam motivo de prisão ou violência.

Como disse Harvey Milk, um dos primeiros políticos assumidamente gays a ocupar um cargo nos EUA: "Os direitos não são ganhos por pessoas que pedem de joelhos. Eles são tomados por aqueles que se levantam e lutam."

E essa luta nunca é apenas sobre um grupo específico. Quando marchamos, marchamos por todas as minorias, por todas as pessoas oprimidas. Porque quando abrimos um caminho, ele torna-se trilha para muitos outros que virão a seguir.

E por tudo isso temos ORGULHO, orgulho como contraponto à vergonha que ainda nos querem impor.

Que ORGULHO é esse

 

O "Orgulho" nas Marchas do Orgulho LGBT+ vai muito além do ato de resistir. Para teóricos e ativistas, ele representa múltiplas dimensões que desafiam séculos de opressão e apagam a vergonha imposta às identidades dissidentes. Aqui estão algumas das principais definições e perspetivas sobre o "Orgulho" nas marchas:

 

Judith Butler, argumenta que o simples ato de ocupar o espaço público com corpos LGBT+ é um gesto político. Segundo ela, "tornar-se visível é desafiar a norma que nos quer invisíveis". O orgulho, portanto, é a afirmação de que existimos e temos o direito de existir sem medo, nós e todos os demais oprimidos. Orgulho como Afirmação da Existência

Audre Lorde, feminista negra e lésbica, escreveu: "Se eu tivesse que ser invisível para sobreviver, então já estaria morta." O orgulho LGBT+ nasceu como resposta direta à vergonha imposta pela sociedade. Ele rejeita a ideia de que há algo errado ou inferior na existência LGBT+, transformando o que antes era visto como tabu em algo digno de celebração. Orgulho como Recusa à Vergonha

Para muitas pessoas, eu incluído, o orgulho também é um ato de homenagem àqueles que vieram antes e que lutaram para abrir os caminhos. Marsha P. Johnson, ativista trans e figura central na Revolta de Stonewall, dizia: "Nenhuma revolução acontece sozinha." O orgulho carrega consigo a memória dos que sofreram, foram assassinados, marginalizados e apagados da história, e a quem TOD@S nós devemos a vida de privilégio que hoje vivemos. Orgulho como Memória e Homenagem

Angela Davis, enfatiza que "qualquer movimento genuíno de libertação deve acolher todas as formas de diversidade". O orgulho não celebra apenas gays e lésbicas, mas também pessoas bissexuais, trans, não binárias, intersexo e todas as identidades que desafiam as normas heterocisnormativas. Orgulho como Celebração da Diversidade

Harvey Milk, disse, e esse foi sempre o meu lema que "Se eu puder dar esperança a apenas uma pessoa, minha luta já valeu a pena.", e espero tê-lo conseguido também como ele ter feito a diferença na vida de alguém. O orgulho LGBT+ não é apenas sobre lutar contra opressão, mas também sobre reivindicar o direito à felicidade, ao amor, ao afeto e à LIBERDADE de ser quem se é, sem medo. Orgulho como Direito à Felicidade

O orgulho não é apenas celebração, mas também um chamado contínuo para a luta. Como disse bell hooks: "A LIBERDADE vem quando nos recusamos a ser controlados pelo medo." Enquanto houver discriminação, violência e retrocessos nos direitos LGBT+, (como em qualquer outro direito humano) as marchas do orgulho continuarão a ser um grito coletivo por justiça. Orgulho como Chamado para a Ação

 

O "Orgulho", portanto, não é um luxo nem um exagero. Ele é uma necessidade vital, um direito humano fundamental e uma ferramenta poderosa para transformar a sociedade. Ele não apenas resiste – ele ilumina o caminho para um mundo mais livre.

Marchamos Porque Não Podemos Retroceder

 

O avanço de forças reacionárias, conservadoras e autoritárias é uma ameaça real. Sempre que se consegue um direito, há quem tente revogá-lo. Sempre que a LIBERDADE avança, há quem queira puxá-la de volta para um lugar obscuro. Por isso, a história ensina-nos que nenhuma conquista é permanente se não for constantemente defendida, e prova disso é o direito trabalhista, os trabalhadores hoje tem menos proteção e por isso direitos que tinham talvez 20 anos antes.

Marchamos para lembrar ao mundo que existimos. Marchamos porque a dor e a violência ainda são reais. Marchamos porque queremos mais do que migalhas — queremos viver plenamente, queremos uma carcaça inteira para colocar nela tudo que nos fizer felizes e nos der prazer. Como disse a filósofa Hannah Arendt: "O direito de ter direitos só existe quando há quem lute por ele."

E se a luta cansa, que descansemos um pouco, mas nunca desistamos. Porque cada passo na rua, cada bandeira erguida, cada voz que grita "Ainda Estamos Aqui!" é um tijolo a mais na construção de um mundo mais livre.

E nesse mundo, que já foi escuro demais para pessoas como nós, cada marcha é um raio de luz.

E eu enquanto cá estiver, irei Marchar com um archote indiferente às politiquices que por vezes existem nas lutas sociais, porque a minha luta, não é por mim, é por ti que ainda receias o ar que respiras, que o medo ainda te trava as pernas e não te deixa Marchar ao meu lado, porque a minha politica a minha luta são aqueles que ainda não tem voz nem para si mesmos!


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