Quem foi que disse que viver é fácil!? (1ª parte)
Quem foi que
disse que viver é fácil!?
Nascemos de um parto que nem
sempre é a melhor das imagens. A mulher que nos carrega por nove meses, em
alguns casos menos, outros mais, naquele momento de parir sofre, e é um
sofrimento que só é mitigado pelo desejo de ser mãe, quando esse desejo é de fato
uma realidade e não se é mãe de uma posição machista, ou a exibição da
virilidade de um macho com problemas de autoestima. Dar à luz, parir um ser,
pode ser penoso o bastante para se poder marcar a partir daí que viver não é
fácil. Como afirmou Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher: torna-se
mulher." O papel da maternidade, muitas vezes imposto socialmente,
pode ser tanto uma escolha quanto uma obrigação construída dentro de um sistema
patriarcal.
Poderemos até equacionar que
quando nascidos em berço de ouro as coisas sejam mais simples, mas lamento
discordar de quem assim pensa. Os atos de violência dos homens sobre as
mulheres são, nessa classe, por vezes muito mais violentos, mesmo que nem sempre
seja física essa violência. É uma violência psicológica, que nem sempre tem
apenas uma direção, mas é antes um processo, uma espécie de fila para as
promoções da loja X, em que as pessoas se empurram na expectativa de que é
agora que vão abrir a porta. Os maridos são empurrados pelos pais e pelos avós
a criar prol, e as esposas empurradas pelas mães e avós a serem mães, melhor
dizendo, progenitoras, dando à família novos elementos que farão seguir a prol
dessa família alargada que vai muito além do casal. Como Pierre Bourdieu
observou: "A dominação masculina se impõe como algo natural e vai além
da violência física, manifestando-se nos símbolos e estruturas sociais."
E nestes casos de berço de ouro,
essa pressão ultrapassa a linhagem sanguínea, ela vem também da bolha dos
restantes milionários, que, como qualquer “bully”, procura fraquezas naquele
que será a sua próxima vítima – “pode ter mais dinheiro que eu, mas é
frouxo, nem filhos sabe fazer!” Aqui podemos recordar Erving Goffman, que
descreve como as interações sociais são estruturadas por performances de status
e papel social: "A vida social é como um teatro, e todos desempenham
papéis conforme as expectativas que lhes são impostas."
Quando o problema de
infertilidade reside no homem, venha de que berço vier, quase que
invariavelmente (atualmente menos, acredito), nunca se saberá, porque um homem
que não produz filhos não é homem, é outra coisa. Vulgarizam os outros homens
em volta comentando mais ou menos em surdina que o gajo dá “tiros de pólvora
seca”, e o gajo melindrado igualmente e invariavelmente aponta o dedo para a
esposa, dizendo que é ela que tem um ventre tão árido que não germina a melhor
das sementes, mesmo que ela se dobre em esforços para saber por que não
consegue corresponder aos seus “desejos” e às expectativas do marido. Michel
Foucault já apontava que "os corpos são moldados e disciplinados pelo
poder" e a masculinidade hegemônica impõe aos homens a necessidade de
provar a sua virilidade através da reprodução.
Este último, certo de que não é
ele o problema, não raras vezes invade as vaginas em volta, sendo cada tiro
cada salva de uma vida que não existe.
Ainda sou do tempo onde esta
“artesanal” forma de o marido constatar que os seus tiros são secos levava,
posteriormente, por um lado, a tornarem-se alcoólatras e, ou em separado ou
não, violentos para com as suas esposas. E quando ela era o problema, também
não poucas vezes acabavam com um bebé nos braços de uma outra mulher, da
criada, ou de uma outra pobre que, a troco de duas moedas, se calava na
presença da “felicidade” alheia. Como Karl Marx bem pontuou: "A
história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de
classes." Mesmo nos mais íntimos detalhes da vida pessoal, vemos como
a estrutura social impõe hierarquias e desigualdades que moldam os
comportamentos individuais.
Estou aqui a dizer “problema” de
um ou de outro, mas na verdade não é bem um problema, é uma condição anatómica,
biológica se quisermos. Diria que, a ser um problema, sê-lo-á para um Deus que
se diz perfeito, mas que, afinal, acumula umas quantas imperfeições. O problema
só é assim chamado porque é uma construção social, inicialmente uma questão de
sobrevivência – mais elementos na família, mais força de trabalho, isto mais na
classe média e baixa – e que depois se tornou status nas classes altas, onde
ter muitos filhos era um manifesto de prosperidade. Karl Marx já refletia sobre
essa relação entre economia e estrutura familiar, afirmando que "as
ideias dominantes numa época são as ideias da classe dominante."
Assim, a reprodução, que antes era vista como necessidade produtiva,
transformou-se em símbolo de poder.
Duas posturas que mostram que os
livros não se leem todos da mesma forma, porque mais prol para uns é
subsistência, para outros é status, mas o elemento comum é o mesmo: mais
filhos. Assim, o tal do problema é social, e não mais do que isso. Não há problema
algum em que um casal não seja, por si só, capaz de fecundar, e para
ultrapassar essa condição, que pode ser traumatizante, apenas deve haver AMOR e
compreensão de parte a parte. Como Erich Fromm escreveu: "O amor não é
algo natural. Requer disciplina, concentração, paciência, fé e a superação do
narcisismo." Para lá das quatro paredes da nossa casa, cada um que
guarde as suas expectativas sobre as nossas vidas, porque são as deles, e nem
sempre as nossas. E quando são nossas, é a nós que compete encontrar o caminho,
seja ele qual for.
E ainda aqui vamos, e já podemos
concluir que viver não é mesmo nada simples. Assim, no imediato, diria que essa
dificuldade reside no fato de vivermos em sociedade, e numa sociedade que
parece mais viver o outro do que a si mesma. Como Jean-Paul Sartre afirmava: "O
inferno são os outros." Não porque as relações humanas sejam um mal em
si, mas porque a pressão social, os julgamentos e as expectativas externas
moldam a nossa existência de maneira opressiva.
Para não falar de ninguém, falo
de mim como exemplo (como se eu fosse exemplo para alguém). Isto porque,
olhando em volta, no que a expectativas diz respeito, não sou muito diferente.
Apenas terei caminhos distintos de uma grande maioria e muito próximos de
outra, e completamente distintos de outra.
Nascido numa família da classe
trabalhadora, o meu pai era motorista de uma empresa de vinhos, e a minha mãe
ajudante de cozinha numa cantina. Salários magros permitiam viver na linha da
sobrevivência, ambos com educações castradoras e revestidas de princípios
machistas e subservientes – depende de quem estamos a falar. Ambos herdeiros de
ambientes de fraco AMOR e afeto, onde esses gestos só se viam nas películas da
televisão do vizinho, porque essa coisa era de ricos, mesmo que hoje muitas
casas tenham uma em cada divisão. Como Pierre Bourdieu destacou: "A
estrutura social molda os indivíduos antes mesmo que eles percebam."
Crescemos dentro de um sistema de normas e valores que muitas vezes naturalizam
desigualdades e limitam as nossas escolhas.
Cuidar dos filhos (embora seja o
mais velho, tenho uma mana) era o importante. E ter pelo menos dois, porque um
poderia ser uma fatalidade – “vamos que aconteça alguma coisa” –, pelo menos
havia outro para compensar essa perda, se ela existisse. E depois, um casal é
tão giro, o orgulho da maioria das famílias dessa classe: um casal de filhos...
Não comento por agora!
Inserida na educação está a
oportunidade de estudar, mas mais do que oportunidade, diria incentivo, que, a
meu ver, pode vir de duas ou três fontes. Uma, e a mais urgente, dos nossos
progenitores, que, nesse alegado amor incondicional, nos empurram no sentido de
estudarmos e sermos, por essa via, alguém nesse mundo competitivo, mesmo que
eles, nossos progenitores, estejam completamente alienados. Nessa época (hoje
não estou certo), não bastava ter um canudo. O apelido cravado nesse diploma
era o polimento da chave que abriria, ou não, as portas que dariam acesso ao
sucesso.
Então, aqui encontramos uma nova
nuance do quanto difícil pode ser – diria que é – viver neste mundão. Não
bastará o quanto te esforças, mas antes o apelido com que nasceste. Max Weber,
ao analisar a estratificação social, já falava disso ao destacar que "o
status social pode ser ainda mais determinante do que a riqueza na construção
do poder e das oportunidades."
E acreditem ou não, eu senti
tanto isso que houve um tempo que escavei, mesmo que ao de leve, a linhagem da
família. E do lado do meu pai, encontrei uma ligação a um nome sonante da nossa
praça intelectual e, como disse, mesmo que ao de leve, questionei mudar o meu
nome, o meu apelido para esse outro nome cuja chave mestra abre mais portas do
que aquela que possuo.
Continuando a ter-me a mim como
exemplo neste percurso, e nesta redação sobre o quanto difícil, nada simples,
talvez complicado, é viver, entramos numa contradição entre aquilo que os meus
progenitores diziam e aquilo que dispuseram em meu favor na possibilidade de
alcançar esses tais objetivos nobres da educação.
A senhora minha mãe não poderia
ser grande ajuda. Enjeitada pela sua família, a viver um casamento, por esses
indesejado – com direito a novela mexicana no dia do casamento –, é uma mulher
que apenas tinha a terceira classe, com dificuldade até para escrever o seu
nome, mesmo com uma letra lindíssima. A sua disponibilidade sobre a minha
formação era amor, e um sentimento de impotência. Simone de Beauvoir disse uma
vez: "Não se nasce mulher, torna-se mulher." A história da
minha mãe parece ilustrar isso à perfeição. Forçada por circunstâncias, moldada
pelas limitações impostas pela família e pela sociedade, encontrou na
maternidade um papel ao qual se agarrou com amor, mas sem ferramentas para me
ajudar academicamente.
O meu pai, embora com mais um
grau que a minha mãe – a quarta classe –, amante da escrita, mesmo sendo o
exemplo prático em alguns pormenores da letra de Carlos Paião, "mais
erros que palavras, o que conta é a intenção", era um ávido leitor
daqueles livrinhos pequenos de cowboys e tinha queda para a poesia. Tinha um
conhecimento decorado dos rios de Portugal e das linhas férreas, até das
antigas colónias (valha-me o santíssimo, seja ele quem for, aquilo que se
ensinava nas escolas). Mas depois… não tinha mais nada. Era o velho macho do
Restelo. Porque trabalhava, os seus limites contributivos no lar e na educação
dos filhos terminavam mais ou menos uma hora depois de sair do emprego.
Exercidos após esse tempo, não estavam longe da violência, fosse ela verbal ou
física. Não esquecendo que essas coisas da casa, do lar, dos filhos, eram
"coisa de mulher" – mesmo que essa mulher também tivesse saído do trabalho
apenas por curiosidade à mesma hora. Só que o seu extra seguia até um minuto ou
dois antes de se deitar, para no dia seguinte repetir a rotina de
sobrevivência.
Quem foi que disse que a minha
vida é fácil e/ou simples? Pois está redondamente enganado quem o disse ou
pensou. Porque eu, como todos nós, sou o acumular de vivências, experiências
que antecedem o dia de hoje, mas que eventualmente se refletem hoje com um
atraso vasto, mas tão real como ontem. Como Friedrich Nietzsche dizia: "Torna-te
quem tu és." Mas para nos tornarmos quem somos, precisamos de
ferramentas, de oportunidades – e nem sempre elas estão disponíveis para todos.
Então, temos uma mãe com medo até
da própria sombra (hoje menos, mas ainda) e um pai ausente, mesmo que ali ao
lado. Já que este usava a casa para comer, dormir e pouco mais, a sua
residência era fixa no trabalho e no café com os amigos. Perante isto, que me
adiantava a mim ter dúvidas sobre a tabuada ou um problema, se não havia em
volta espaço para, mesmo na ignorância do saber responder, haver espaço para
debater, e quem sabe encontrar no debate a resposta? Como Paulo Freire
defendia: "Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as
possibilidades para a sua produção ou a sua construção." E se esse
espaço de construção não existia, como poderia eu aprender além do básico?
Resultado, depressa aprendi que
era no vil metal que residia o poder. O poder de ter e fazer coisas idênticas
àquelas que queria seguir e que observava na descrição do que haviam sido as
férias dos colegas da escola, no que fazia parte do seu dress code, ou
dos materiais que apresentavam. E se não fossem os coleguinhas, era a minha
eterna companhia, a sétima arte e aquilo que ela me fazia viajar. Ainda hoje é
assim, apenas hoje com os pés assentes no chão, porque a realidade nos
esbofeteia a cara a cada segundo. Guy Debord falava da sociedade do espetáculo,
e eu vivia dentro dela: "O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas
uma relação social entre as pessoas, mediada por imagens." E que
imagens eram essas? As dos outros a viver vidas que eu não podia ter.
Em retrospetiva, este meu exemplo
foi replicado vezes sem conta por muitos que, como eu, viveram essa época e
esse tipo de ambiente. Com mais ou menos amor, com mais ou menos afeto, muitos
de nós, da minha geração, não fomos feitos – isto enquanto pessoas –,
fizemo-nos. Correndo em busca das nossas aspirações que vinham do lado de fora
das nossas casas. Como Pierre Bourdieu apontava, "a herança social pesa
mais do que a herança biológica." Não bastava ter genes inteligentes
ou talento, o meio em que nascemos determinava o nosso futuro.
Assim, comecei cedo a trabalhar.
E, se no início ainda houve a tentativa de trabalhar e estudar, rapidamente dei
conta de que, além de não ser grande estudante (sou mediano), não havia
inspiração, nem energia. Fui de tudo: ajudante de eletricista (não sei mais que
ligar uma tomada ou uma lâmpada), barman, empregado de mesa, torneiro mecânico,
lojista numa loja de animais, assistente de importação numa empresa de entregas
de encomendas expresso e, claro, professor de dança. Esta última profissão
deu-me a oportunidade de ser muito feliz e conhecer as minhas meninas – hoje
mulheres –, com quem mantenho contato até hoje e que amo!
Algumas destas profissões foram
inclusive executadas ao mesmo tempo. Por exemplo, houve quase um ano em que
entrava às 8h como torneiro mecânico, saía às 18h para entrar nas aulas de
dança às 18h30, saía às 19h30 e entrava como barman às 21h, saindo às 2h da
manhã, para no dia seguinte repetir a dose. Uma loucura que se faz quando se é
novo e se corre por gosto. Como Albert Camus dizia: "A verdadeira
generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente." E eu
dei tudo.
– Bem, JP, deves ter ganho uma
fortuna!
Meninos e meninas, as nossas
gerações são outras, e os meus progenitores não são os vossos. Mesmo a
trabalhar, eu tinha mesada e não o contrário, seja, o que ganhava fazia parte
do orçamento da casa. O outro modelo, o de eu dar uma mesada em casa, veio
depois, quando dava aulas de dança e no distrito de Viseu.
Poderíamos pensar que esta minha
descrição daquele que foi o meu caminho fosse apenas o meu, mas a verdade é que
sei que não. Com as devidas nuances, muitos da minha geração tiveram idêntico
destino. Como disse, não nos fizeram, fizemo-nos. Como Sartre defendia, "O
homem está condenado a ser livre." Não havia um roteiro predeterminado
para nós, apenas a necessidade de esculpirmos o nosso próprio caminho com as
ferramentas que encontrávamos pelo caminho.
Mas, não querendo desprezar, mas
desprezando, sou de uma geração em que as pressões sociais eram circunscritas
aos círculos em que nos movimentávamos e/ou estávamos próximos. E por isso, em
certa medida, foi mais fácil correr atrás e/ou encarar essa pressão. Até porque
nós éramos aquilo que mostrávamos no nosso dia a dia. O nosso valor era
definido por aquilo que fazíamos, pela nossa postura e, claro, pelo que
conseguíamos conquistar no mundo real.
Hoje, estas gerações ligadas na
tomada ou na bateria não têm de ser o que são. Atrás de um monitor ou na
objetiva de uma qualquer câmara, podem ser e/ou descrever-se como bem
entenderem. Poucos poderão contradizer ou apontar, até porque estão todos ocupados
a tentar ser igual ou melhor que o outro. A pressão que antes vinha dos nossos
pares, hoje vem de todos os lados. Antes, éramos formigas num grande
formigueiro. Hoje, somos formigas numa sociedade de papa-formigas. Ratos numa
sociedade de elefantes.
Bauman chamaria a isto a modernidade
líquida. Tudo é volátil, tudo pode ser reconstruído ao sabor do algoritmo,
da tendência do momento. A realidade já não é uma construção sólida e palpável,
mas um reflexo mutável de uma identidade que se molda conforme a necessidade.
E, nesse processo, a pressão nunca desaparece. Apenas se transforma.
E assim seguimos. Diferentes
tempos, diferentes lutas, mas a mesma busca incessante por um lugar no mundo.
(fim da primeira parte)

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