Quem tem amigos? O que é ter amigos? O que é um amigo?

 



Quem tem amigos? O que é ter amigos? O que é um amigo?

 

É perfeitamente normal para qualquer um de nós, em conversa dizermos “o meu amigo isto”, “tenho um amigo que”, ou mais corriqueiramente e desde crianças, falamos os nossos amigos da escola, e somos até estimulados a isso, pelos nossos tutores que nos falam dos que fazem parte dos nossos ambientes escolares como, “os teus amigos da escola”.

Crescemos, e seguimos utilizando essa imagem de que quem se relaciona connosco no nosso trabalho, no lazer, chamamos amigos disto ou daquilo, mas será que essas pessoas são de fato nossos amigos?

O que é um amigo?

Segundo o dicionário da “Pribam” amigo é o:  Que ou quem sente amizade por ou está ligado por uma afeição recíproca a

Mas basta isso para sermos amigos?




Se calhar para alguém ser nosso amigo, nós teremos de ser vistos pelo outro lado da mesma forma, seja, temos de ser olhados como amigos dessas pessoas. Porque só assim se verifica a tal dita da reciprocidade, mas a verdade é que mesmo essa reciprocidade pode, nem sempre será, uma reciprocidade havida na mesma proporção, seja, eu posso sentir-me mais amigo de alguém e para esse alguém eu serei apenas “amigo”. Estão a ver aquela coisa que vulgarmente dizemos de amigos com A grande, amigos com letra pequena, e os outros, que são colegas e ou conhecidos, e muitas vezes sobre este último quando nos referimos a essa pessoa dizemos “o meu amigo disto ou daquilo”, por exemplo “o meu amigo do bar”, o sítio do costume, onde todos os dias vamos beber um café, e despejamos conversa de circunstância, e por vezes aqui e ali um detalhe mais intimo, mas faz dessa pessoa nossa amiga, faz de nós seu amigo?

Então será que ser-se amigo, é só trocar dois dedos de conversa e já está somos amigos desse alguém?

E então aquelas pessoas que falam dos amigos como de uma carreira profissional, seja, “somos amigos desde a primária”, ou “somos amigos desde que nos conhecemos” (mais vago, podem ter-se conhecido no mês passado), …será que essas amizades são as tais com letra grande?


Mas se forem, e não havendo letras maiores, onde ficam aqueles amigos, que estão na cabeceira da cama quando vamos ao hospital, ou que sem falta estão à porta na hora da visita quando nos damos menos bem com a justiça, que tipo de amigos são esses, os de carreira, os de letra grande, as duas coisas, ou há um outro nível de amizade que precisamos ter em conta? Será que podemos chamar esse amigo de “irmão”!? Se sim, que tipo de irmão? Isto porque tem irmãos mais distantes na relação que amigos, até amigos de letra pequena!

 

Aristóteles descreveu a amizade em três dimensões, uma delas chamou de amizade, ou amigo perfeito, que para ele a relação existe não pelo que ela pode oferecer, diz que "A amizade perfeita é a amizade dos homens bons e semelhantes em virtude", sugerindo que a verdadeira amizade exige um compromisso moral e um reconhecimento mútuo da excelência. Os teus amigos são isso? Será que tenho amigos, e esses meus amigos são isso, …perfeitos?

 


Cícero não está muito longe de Aristóteles, diz que a amizade é "um acordo em todas as coisas divinas e humanas, acompanhado de benevolência e afeição". Montaigne, apresenta nos seus ensaios, uma outra relação, uma espécie de amizade próxima do amor segundo o nosso entendimento comum, para mim ele descreve a amizade como aquela que pode existir entre dois militares em tempos de guerra, cumplicidade, proteção mútua, cuidado, uma espécie de amizade tão profunda que observada de longe em determinados casos pode ser confundida com uma relação afetiva, uma relação amorosa. Ele há amigos assim, mesmo sem a pressão da guerra, mas com a necessidade do contacto, do sentido, do fazer parte e ser parte de …Jacques Derrida, um filosofo franco-magrebino, explora a amizade como um campo onde a alteridade se manifesta, permitindo que o outro seja realmente outro, sem necessidade de absorção ou fusão identitária, assim Derrida sugere que a amizade autêntica permite que cada indivíduo permaneça irreduzível ao outro, ou seja, em vez de transformar o amigo em um reflexo de nós mesmos ou numa relação de dependência, a amizade deve preservar a diferença, permitindo que cada um exista de forma única.

 

Eu aqui introduzia uma visão minha, sobre aquilo que chamamos “o meu melhor amigo”, esta relação nem sempre é reciproca, porque o meu melhor amigo, pode ter para ele outro melhor amigo que não eu, e por isso eu digo que por vezes tem coisas das nossas vidas que nem ao nosso “melhor amigo” podemos contar, porque ele pode ter outro melhor amigo que não nós, e por isso partilhar com esse aquilo que confidenciamos em segredo a alguém que esperamos respeite esse silêncio, porque o segredo é silêncio!

 


Esquecendo estas reflexões, permanece a questão, o que é ter e ou ser amigo, qual o nível de relação que isso implica?

Quem são amigos, aqueles que saem todos os dias connosco para os copos, aqueles com quem discutimos a ponto de trocar uns tapas, mas logo depois bebemos mais um copo, ou aqueles certinhos que agendamos tudo, almoçamos de quando em vez, e damos felicitações por darem ao mundo mais um ser!?

E poderíamos ir por ai em diante e chegaríamos ao fim a achar que somos e ou temos amigos de todos os tipos, mais de um que de outro, e seremos nós mesmos amigos de que tipo?

 

E chegados aqui, já sabemos o que é ser e ou ter um amigo?

Onde estão os amigos, quando perdemos tudo? Onde estão os amigos quando um dos nossos, parte desta vida? Já fui a muitos funerais onde o defunto antes de partir estava rodeado de “amigos”, mas na hora de lhe dizer adeus ele quase parte sozinho.

 


Olhando em volta dou por mim a ver amizades a manifestarem-se de várias formas, e enquanto as observo questiono-me sempre, que tipo de amizade é vivenciada por cada um em relação ao outro.

Da mesma forma questiono-me sobre essa relação dos amigos virtuais, temos, achamos que temos, afirmamos ter, dois, quatro, cinco mil amigos nas nossas redes sociais, mas depois porque é que o nosso telefone não toca? Porque é que os nossos aniversários vão ficando cada vez mais pequenos? Porque é que acabamos a almoçar com os de sempre, (ou sozinhos), mesmo que a nossa relação tenha intensidades diferentes,…será que somos reféns dessa necessidade animalesca de precisarmos de ter alguém, apenas porque somos animais sociais?

 

Tem ainda aqueles que por razão da terra rodar, acabam separados, distantes geograficamente, mas sempre presentes, bastando um telefonema para se fazer quilómetros sem pensar, apenas porque um Amigo disse preciso de ti.

(o meu eterno melhor amigo! BNPUF)


Eu pessoalmente já vivi isso, uma pessoa próxima, teve o namorado com problemas com a justiça, e no meio da noite estava eu a caminho de sua casa, apenas para estar com ele, para o abraçar, apenas dizer-lhe que não estava sozinho. O caminho é igual para os dois lados? Sei bem que não, mas essa é a prova do que digo antes, em forma de questionamento – o que é então ser e ou ter um amigo? Seremos menos amigos, porque as energias não correm com a mesma intensidade? Serei mais amigo dele que ele de mim? Se assim for, então me desculpem aqueles a quem chamo de amigo, e me chamam a mim, eu sou a epitome dessa energia sobre vós, sempre senti que sou mais amigo dos meus amigos que eles alguma vez foram de mim, estarei a ser injusto, do que sinto de volta, acho que não, mas não sei, porque voltamos a essa alegada reciprocidade e a sua intensidade, e a possíveis diferenças nas correntes de ida-e-volta!

 

Lendo os teóricos, olhando os outros, observando-me a mim, continuo sem saber responder, o que é ser-se ou ter-se um amigo!

 

O Amigo
(Vinicius de Moraes)

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

É um ser que não se explica,
Apenas se sente.

 


 - Que tipo de amigos terá cada um de nós, terei eu, e será que temos, será que  tenho!?


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