Porque o que se celebra é isso mesmo: AMOR.

 



As coisas que uma simples mensagem de parabéns no sentido de celebrar o amor de duas pessoas, fez desencadear na minha massa cinzenta, (cinza-escuro, que isto está um caos em determinadas dimensões do pensamento e cognitividade), não apenas pelo que escrevi (que aqui vos deixo), mas também por resposta ao comentário de uma das pessoas que me leu.

 

Mensagem de parabéns:

“O amor é uma bênção com a qual todos nascemos.

Depois, uns escolhem pô-lo em prática.

Mais do que vivê-lo — respiram-no.

Essas pessoas não sabem viver sem amor.

E por isso amam. Sempre. Mesmo quando não são amadas de volta.

Outras, amarguram.

Escondem esse sentimento numa caixa-forte, fechada a sete chaves,

como se amar só fizesse sentido se for recíproco.

Mas não tem de ser.

Amar é um ato único.

Podemos amar sem ter amor de volta.

A magia acontece quando há reciprocidade.

E, mesmo aí, ela não precisa vir na forma que esperamos.

Deve vir na medida do outro —

porque não há duas pessoas que amem da mesma maneira.

A beleza de amar está, talvez, na capacidade de reconhecer esse sentimento no outro,

ainda que ele venha travestido, ou transparente como a água da nascente.

Quando se ama e se é amado, vale a pena continuar.

E celebrar.

Não por vaidade, mas por exemplo.

Porque quem sabe, ao ver a alegria da celebração do amor,

outros se inspirem... e escolham amar também.

(João Paulo 13052025)”

 

 

De fato, acredito que nascemos todos com essa capacidade única de amar, porque amar alguém, ou a todos como um todo, é acima de tudo amarmos a nós mesmos — sem a síndrome de Narciso, claro está. Amarmo-nos porque amamos a vida, porque amamos a natureza, porque nos amamos uns aos outros desde tenra idade, sem amarras, sem questões. Talvez, como sugere Donald Winnicott, aprendamos a amar já no espaço transicional entre nós e o outro, entre nós e a progenitora que nos trouxe ao mundo, esse primeiro "ambiente de amor" que nos dá segurança para existir (Playing and Reality, 1971). Como seres humanos, precisamos sentir-nos ligados por afetos — afetos de vária ordem — afetos que nos completam como seres gregários, sociáveis que somos.

Somos colocados no mundo, e como qualquer animal primitivo, tentamos agarrar algo, sentir o calor de um corpo colado ao nosso. Clamamos por proximidade. Quando as nossas pernas nos levam de um lado para o outro, elas aproximam-nos de outros como nós — que abraçamos, beijamos, com quem queremos estar. Ainda nessa altura, a nossa paleta de cores é tão diversa como o nascer e o pôr do sol — abraçamos cobras como quem abraça peluches. Porque em nós não existe maldade, perigo, cuidado com isto ou aquilo.

Quantos de nós tivemos tendência de meter tudo para a boca, desde um copo de vinho esquecido na beira da mesa, até um marcador vermelho — porque é da cor dos morangos, e nós já provamos morangos. Naquela idade, associamos a cor ao sabor — até descobrirmos que nem todos os sabores das cores têm o mesmo palato.

Bem na verdade, somos ensinados a separar: o preto do branco, o menino da menina, o rico do pobre, o lápis de cera vermelho carmim dos morangos. Ambos pintam a roupa, mas têm sabores diferentes. E é neste momento que começamos a aprender que esse sentimento chamado AMOR tem limites neste mundo a que chegamos. Meninos(as) com meninos(as), não. Isto é de menino, aquilo de menina.

E então, se somos homens, ficamos escravos de condutas de virilidade tão absurdas como misturar óleo com água — e temos de responder a esse absurdo ou somos outra coisa que não meninos, que não homens. Como se, sendo meninas, nos enformam em definições standard — temos de vestir isto, só podemos fazer aquilo. Houve tempos em que nem estudar podíamos, porque construir pensamento crítico era coisa de homens. Beauvoir dizia que “não se nasce mulher, torna-se mulher” (O Segundo Sexo, 1949), numa sociedade que sempre limitou o papel do feminino a um lugar de função, nunca de autoria.

Assim, quando já queremos escolher o que vestir, porque nos foi incutida a vaidade e a nossa construção com base no olhar do outro, perdemos a inocência. Iniciamos a construção da nossa individualidade, mesmo que na escola nos peçam para apresentar trabalhos de grupo.

Acho piada quando escuto as batalhas políticas sobre a educação, de que uma alegada esquerda quer introduzir nos manuais escolares “ideologias de género”, seja o que isso for. Essas coisas são alegadamente negativas. Só que, normalmente, quem atira essas pedras esconde a mão. Porque não é capaz de perceber que essas “ideologias de género” já estão plasmadas nos manuais escolares — e não da melhor forma.

Como observa Butler, o género é uma performance reiterada e imposta pelas normas culturais que o fixam como binário e hierárquico (Gender Trouble, 1990). E o que os manuais fazem, muitas vezes, é perpetuar um mundo medieval e classe média, que empurra para a existência de apenas dois géneros: ele e ela. Como se, entre um ponto e o outro, não possa haver um ondular largo de variações — e, quem sabe, até algo para além de cada ponto.

Esse raciocínio arcaico, obtuso, faz-me voar até à sétima arte. No universo de fãs e entusiastas de “Star Wars”, ninguém se ofende que Twi’leks, Wookiees, Cereanos ou Togrutas convivam com humanos. Aceitamos, celebramos. Achamos natural o amor entre Gamora e Star-Lord, nos Guardiões da Galáxia. Tudo é possível. Tudo é normal. Mas, depois, acham que os manuais escolares devem apagar a diversidade. Que hipocrisia demagógica.

Esquecem que as “crianças” não têm filtros ideológicos: elas têm os seus cinco sentidos em alerta. Tudo veem. Tudo sentem. E, sobre tudo, têm vontade de tocar — e, em alguns casos, experimentar.

— JP, mas isso são filmes, é fantasia! — dizem.

Acreditam mesmo nisso? Quando foi que tiveram consciência de que dois homens não se podem beijar ou amar? Foram vocês que intuíram isso, ou alguém vos disse que estava errado?

E nos casos do pensamento masculino, por que razão dois homens “está errado”, mas duas mulheres povoam fantasias eróticas? Eu sei porquê. Porque este mundo que vivemos, repleto de preconceitos, foi construído e pensado por homens e para homens.

O sociólogo Michael Kimmel diz que, “o privilégio masculino é invisível para aqueles que o têm” (Guyland, 2008). Neste mundo, as mulheres ainda são objeto de objetivação. Servem para. Não são. Porque os homens que pensaram esta sociedade mascoheteronormativa nunca pretenderam aceitar a mulher como parceira — apenas como ferramenta conveniente ao projeto masculino de poder.

Por isso, quando falamos de AMOR, temos de nos despir de preconceitos ancestrais. Despir a farda. Lançar por terra as “armas” que nos foram impostas desde que começámos a andar. Desde o primeiro beijo a alguém do mesmo sexo — quando ainda éramos apenas isso, sexo. Meninos não dão beijos aos meninos. Muito menos na boca.

E só nus dessas premissas, desses grilhões sociais e políticos, podemos — mais que falar de AMOR — estar disponíveis para o viver em toda a sua amplitude.

Quantos amigos héteros tenho que me cumprimentam com um beijo — e nem eles viraram gays, nem eu virei hétero. Mesmo que eu hoje acredite que as nossas orientações sexuais possam ser fluidas, a todo tempo ou por algum tempo. Uma fluidez que, como explica Anne Fausto-Sterling, é parte do espectro natural da experiência humana (Sexing the Body, 2000).

Essa fluidez não é contagiosa. É simplesmente a possibilidade de sentir estímulos variados. Os mesmos que, em crianças, nos impediam de rejeitar alguém diferente de nós pela cor ou status, e que nos aproximavam dos nossos iguais — que beijávamos e abraçávamos. E dizíamos, por assimilação, que gostávamos muito — que A ou B era o nosso namorado(a), um sentimento realmente sentido, independente da descrição física do outro.

Diz uma amiga minha, que viveu anos numa relação heterossexual e hoje é casada com uma mulher: “Mais importante que o nome das coisas, é o que fazemos com elas.”
E dito isto, complemento: mais importante que saber com quem te relacionas na intimidade, é saber se essa relação é feita de AMOR, respeito e dignidade.

E quanto ao nome que damos a isso? Se tiver esses três ingredientes — AMOR, respeito, dignidade — então o nome é este: relações saudáveis.

Por isso, AMAR é também um ato político. Se não o fosse, quando inventaram o casamento ele não teria sido escrito com a lacuna que vedava o acesso a casais do mesmo sexo/género. Como disse Foucault, o poder “passa pelos corpos”, e o controlo dos afetos e da sexualidade sempre foi um instrumento desse poder (História da Sexualidade, 1976).

Levámos milhares de anos até aqui — e mesmo assim, ainda hoje, continuamos a questionar o AMOR.

“O casamento, como conhecemos hoje, não foi inventado num único momento. Ele evoluiu e tornou-se uma instituição social e religiosa ao longo de milhares de anos. O registo mais antigo de uma cerimônia de casamento remonta a cerca de 2350 a.C., na Suméria, atual sul do Iraque.”

Acreditando na evolução da espécie, acreditando que não estamos sozinhos no universo, quem sabe um dia assistiremos a uma cerimónia que una Cereanos e Nautolanos, ou Togrutas e Gungans — e veremos nascer outra espécie, sem traumas, ou preconceitos.

E nesse momento, só precisamos de aplaudir — com entusiasmo.

Porque o que se celebra é isso mesmo: AMOR.


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