(photo by: JPaulo2k1)
Um amigo imigrado na Bélgica, Bruxelas, passou com a esposa e o filho pela zona LGBT+ e ficou impressionado, e trouxe as suas impressões à minha pessoa, questionou ele em jeito de conversa, versos, comentário, o seguinte:
"...Eu não percebo qual o problema ou a confusão que causa - O que cada pessoa faz na sua vida privada - Confusão e o que me faz chorar - É ver um pai e uma mãe - Com o filho morto ao colo - Na Ucrânia - Pessoas normais que levam com bombas - Agora confusão com pessoas gays???? Qual o stress? Se nao roubam, se nao matam. Se nao violam, se nao invadem a liberdade dos outros porque ser uma rua de cada vez? Ou um quarteirão?..."
Deste recorte da nossa conversa que ia longa, eu respondi algo, que depois de lido e relido, decidi usar aqui como texto e com o titulo "Porquê que ainda é assim?" porque mudaram-se leis, criaram-se espaços, eventos, marcas, mas a meu ver nunca conseguimos mudar de fato a mentalidade coletiva. Temos, é verdade, cada vez mais aliados, e o mundo responde hoje melhor que aquilo que responderia alguns anos atrás, mas a verdade é que como podemos ver mesmo perante esses alegados avanços, o retrocesso é eminente e parece dizer-nos, diz-nos na verdade, que todas as conquistas havidas até hoje, seja LGBT+ ou outras, são peças de cristal num lego social de calhaus.
Eis aqui então a minha resposta, onde adicionei apenas alguns teorias no sentido de reforçar aquilo que quis, e quero dizer, ...como sempre espero que gostem, comentem se acharem que sim, mas sempre, partilhem para que sejamos cada vez mais a refletir e se possível atuar por um mundo onde de fato caibamos tod@s:
Resposta -
O mundo não é e duvido venha a ser alguma vez um lugar bom para o ser humano, não porque a Natureza nos reprove, nos persiga, nos castigue, mas porque a natureza humana foi moldada por uns, bem lá atrás, para ser competitiva, mas também para ter normas que esses alguns, mesmo que herdeiros dos primeiros, possam continuar a controlar os restantes. (Como escreveu Michel Foucault, "onde há poder, há resistência, e no entanto essa resistência jamais está em posição de exterioridade em relação ao poder" — ou seja, as normas existem para perpetuar o controlo sob o disfarce de ordem.)
Uma sociedade só é controlável com normas, específicas e fechadas, e porque quem as pensou eram homens, acredito heterossexuais, decidiram que quem não fosse como eles, não seria digno de direitos iguais, de igual respeito, de igual trato, e começou por atribuir essa ideia de inferioridade sobre a mulher, mesmo sendo ela a expressão maior da vida, ela foi apontada como fraca, por isso arremessada para lides ditas de menor esforço, por isso não iam à guerra, a razão que eu acredito é porque não que eles homens não acreditassem que elas não seriam capazes de lutar, mas porque eles sabem que sem elas não há continuidade… (Como afirmou Simone de Beauvoir, “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos” — e é precisamente ao retirar à mulher o poder reprodutivo e simbólico que se perpetua a sua submissão.)
Por isso o mesmo ser humano que despromoveram, desprezaram, é na verdade a “galinha” dos ovos de ouro da sociedade que eles, homens, controlam.
Porque achas tu que os alegados homens não apreciam as lutas feministas, porque achas tu que eles os alegados homens não querem pagar igual a quem trabalha igual? Por que isso seria por um lado reconhecer que SEMPRE estiveram errados, e por outro é uma forma de empoderamento da mulher… (Nancy Fraser alerta que “o feminismo institucionalizado pode ser absorvido pelo neoliberalismo”, justamente porque o reconhecimento sem redistribuição económica mantém a desigualdade intacta.)
Quando a comunidade LGBT+ começou a surgir, no sentido de se tornar visível — e essa visibilidade já vem bem de lá de trás, muito antes da revolução de Stonewall Inn — as mulheres lésbicas foram sempre menos combatidas que os homens gay, porque elas tornaram-se a fantasia dos tais alegados homens, dos herdeiros do controlo, mas os homens gay, porque eram penetrados, representavam o lado fraco, porque quem é penetrado, as mulheres, razão pela qual por décadas ouviste, ou terás ouvido, “quem é a gaja do casal?”, porque esse é o fraco… (Judith Butler argumenta que “a heterossexualidade compulsória depende da exclusão sistemática da homossexualidade como algo abjeto”, reforçando a ligação entre identidade sexual e dominação.)
Quantos gays encontrei eu no meu percurso com a ideia de que porque tinham um papel de activo (referência para quem possui, penetra), diziam que não eram gays — melhor deixa colocar o nome dos bois como os escutei — eles não eram paneleiros, paneleiros era A, B ou C que eles tinham comido… (Pierre Bourdieu explicaria esse comportamento como parte do “habitus” masculino: os códigos internalizados que moldam a percepção do que é aceitável ou vergonhoso, segundo estruturas de poder e dominação simbólica.)
Sim, meu amigo, infelizmente tem de ser uma rua de cada vez, um quarteirão de cada vez, porque muita coisa mudou sim, mas muitas mentalidades continuam bem lá atrás, prova disso é esta virada à total extrema — seja de um lado ou outro — ambas as extremas se comportam da mesma forma, embora a viragem que estamos a viver seja para a direita…
Porque uns esqueceram o que é não poder falar em público sem pensar, outros nunca souberam o que é não poder sequer pensar diferente, e deixam-se levar por miseráveis vendedores da “banha da cobra” que tudo cura, e para curar a sociedade basta procurar uns quantos bodes expiatórios e seguir por aí… (Hannah Arendt escreveu que “em tempos de crise, os seres humanos são tentados a abandonar a liberdade pela segurança” — e aí surgem os tiranos, os extremistas e os mitos redentores.)
Depois em 1933, primeiro foram os judeus, depois os ciganos, depois os pretos, depois os gays, deficientes… e mais que alguém um dia sonha-se,…
Hoje são os imigrantes, os árabes, os pretos de novo, os gays de novo e por aí se vai, porque o povo é uma massa formatada para ser acrítica… (Theodor Adorno já alertava para a “personalidade autoritária” como terreno fértil para o fascismo moderno: “os que não pensam tornam-se os mais perigosos”.)
E por isso, quando alguém é bem pago, ele, o povo, comenta que essa pessoa devia ganhar o que o povinho ganha, e não o seu contrário, seja, se ele ganha bem, porque é que eu não ganho melhor?… o povo não sabe puxar para cima, só sabe empurrar para baixo… (Guy Debord diria que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” — o povo vive aquilo que vê, e o que vê é competição e escassez.)
Para terminar, que já vai longo… e tenho de tratar do almoço, por decisão entre os dois, não por nenhum papel de género específico (uma postura que falta a muito casal hétero)… gosto de ver filmes como AVATAR — se bem que só aparece no início o que uso para o discurso — logo no início tem uma amálgama de pessoas todas diferentes, altamente estranhas no dress code, que estão a atravessar a rua…
E, sempre que alguém comenta ao meu lado “altamente, muito à frente”, e eu conheço a postura conservadora que eventualmente tenha, chamo na hora de HIPOCRITA…
Porque é que é altamente aquela variedade de “fauna” humana no filme, num filme, como representação de uma evolução que está na REALIDADE a acontecer, mas depois quando é no teu tempo, na tua rua, na tua porta, até mesmo na tua família, já não é altamente, nem muito à frente, passa a ser ofensivo, abuso…??? (Como diria Zygmunt Bauman: “a diferença é um valor cultural até se aproximar demais da nossa porta.”)
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