Vergonha de viver uma depressão!? ...Porque?

 


Hoje vi um recorte do programa de Daniel Oliveira, “Alta Definição”, com a atriz maravilhosa Cristina Oliveira, que nesse recorte nos fala da falta de uma tal vergonha em falar-se de que tomamos antidepressivos, e ou que frequentamos psicanálise e profissionais que lidam com esta coisa da depressão, …não entendo eu, porque haveríamos de ter vergonha, mas curiosamente entendo-a, entendo ainda que no caso especifico dos homens, declarar que está a ser acompanhado, por um profissional porque sofre de depressão, seja ainda mais complicado que nas mulheres, porque os homens na nossa sociedade, (nossa do mundo), são educados que homem não chora, mesmo no século XXI (21), e mesmo que esta mensagem de que homem não chora, não seja transmitida desta forma, ela tem outras formas de estar presente, e exigir dos homens posições, comportamentos que nada tem a ver com o estar-se de forma saudável em sociedade porque os homens como toda a gente, precisam também de chorar, de abraçar, e por vezes de serem acompanhados por profissionais de saúde mental, para que consigam enfrentar espaços temporais de menor equilíbrio emocional.

 

Este recorte do programa levou-me até mim, e à minha dificuldade de pedir ajuda, não é feitio meu, sempre fiz por resolver os meus contratempos sozinho, e a partilhá-los de for o caso apenas e só depois de resolvidos, e nunca antes. No meu caso não o faço porque alguma vez tenha sentido algum tipo de pressão mesmo que dissimulada para não chorar, ou ser homem de resolver os meus problemas sozinho, bem pelo contrário, mas sempre tive uma urgência de não preocupar os outros com os meus problemas, são meus, e essas pessoas à minha volta seja os meus pais ou até o marido, já tem os seus contratempos, não precisam dos meus para nada.

 

Recentemente foi público que pedi ajuda, e na minha cabeça foi uma festa acreditem, eu pedi ajuda, uau …, estive em consultas com a Srª Drª Psicóloga, e descobri que eu me enganei a mim e aos outros, porque eu gritei por ajuda sim, procurei ajuda sim, tive ajuda, mas lá, eu falei de um roteiro que não incluía todas as escadas do meu calvário   ---   lá descobri que como sempre, eu guardo nos recantos do ser coisas que não conto a ninguém, dores, mágoas, impedimentos que me tem limitado na minha organização cognitiva, social e familiar.

A minha principal preocupação é manter-me calmo, o mais possível, porque sei que se perder essa calmaria (como fala Bethânia), eu, posso ser um perigo para mim e ou para quem estiver comigo, mais ainda se quem estiver comigo for a causa dessa erupção intelectual.

 

Quase como um mantra, repito várias vezes ao dia, de mim para comim, que tudo se resolve, que amanhã é outro dia, e nada como um dia depois do outro, e agarro-me a esta ideia como quem se agarra a uma boia em alto mar, este pensamento é a minha boia de salvação, para manter capacidade de continuar a correr atrás. O Mestrado é para ser feito, as compras, as arrumações, o acompanhar os pais, estar ao lado da irmã e do sobrinho, o ser presente e disponível para o maridão, são, funcionam, para mim como “guidelines” de sustentação de um dia-a-dia minimamente equilibrado.

 

Estes dias fui com o marido passear o nosso pequeno ao parque, no caminho conversávamos tranquilamente, e ele reparou que eu estava a sorrir, e como a conversa não era para ter piada ele questionou, e num desses momentos raros, eu disse o que ia na minha cabeça, porque normalmente a resposta é “nada”, “coisa minha”, “os meus pensamentos loucos”, …então disse:

- Estás a ver, estamos a ter uma conversa supertranquila e a minha cabeça só me diz que quer chorar!

 


Gente vontade de chorar é quase uma constante, e porque eu me observo constantemente, já dei conta que tenho esse sentimento mais vezes quando estou em paz, tranquilo ou até a experienciar um momento de felicidade, do que quando estou macambuzio. Quase como se eu sentisse que não tenho esse direito de estar bem ou feliz, tendo em conta tanta miséria em volta, ou a certeza subjetiva de que sei que este sentir de bem-estar e ou felicidade vai terminar, …se fosse a linha de um osciloscópio ou um eletrocardiograma estes momentos representariam picos elevados na minha adrenalina, para depois se apresentarem como depressões profundas, e isso tem sido a minha vida de uns anos a esta parte.

 

Não estou a apelar à simpatia de ninguém, estou apenas a partilhar a minha condição convosco para que outras pessoas que se estejam mais ou menos a sentir da mesma forma não se sintam sozinhas, gente somos muita gente que pelas mais variadas razões vivem sensações e ou quadros depressivos, e está tudo bem, porque sabemos que vamos conseguir ultrapassar um qualquer dia destes.

 

Entre outras razões, as tais que não conto a ninguém, está as mortes de pessoas que me eram próximas, e que não consegui compreender a sua ida   ---  o nosso amado António (tó); a Semminova; a Lara, são alguns desses exemplos; junta-se a perda dos meus companheiros de quatro patas, que alguns partiram de uma forma bruta, e essa partida nunca curou   ---   mas também as guerras, a situação do mundo e do nosso país numa curva acentuada à direita como se as pessoas vivessem alienadas da história, ou fossem incapazes de ler nas costas dos outros aquilo que as espera se a curva se fecha, …eu saber que meus antigos utentes continuam ao mercê da caridade, e saber que tantas famílias vivem de marmita doada ou do banco alimentar, para não “morrer” de fome, eu saber que de fato milhares de crianças, e pessoas no geral morrem de fome em cenários de guerra e de indiferença, tudo isso me afeta, tudo isso sempre me afetou, mas a morte destes seres derrubou as minhas defesas, e hoje lidar com esses enfermidades sociais e humanas, não é tão fácil.

 

Por isso gente boa, sim os homens choram, e choram muito, apenas se escondem porque alegadamente é suposto não o fazerem em público, tirando eu, que simplesmente me estou a cagar para aquilo que alguns acham ser o melhor para mim, ou deva ser o meu melhor comportamento.

O meu melhor comportamento eu digo-vos qual é, e tem sido ao longo da vida   ---  não subir a calcar ninguém; apoiar em tudo que possa; estar disponível para quem me solicita, mesmo nesta condição; e distribuir abraços, montes de abraços, porque na verdade vamos morrer todos amanhã, e o que fazemos nesta vida é o que conta, é o que vai falar de nós depois de nos irmos!

 

Dito isto, feito o desabafo, façam favor de serem felizes, e havemos de conseguir, se não for hoje, amanhã talvez seja!


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