Adolescência, …quantas vezes quiseste voltar atrás, ou não!?
A adolescência é esse tempo de passagem, um intervalo entre o já não e o ainda não, onde os dias se consomem com intensidade e os sentimentos, tantas vezes contraditórios, transbordam do corpo e da mente em mutação à procura de respostas. É uma fase de descobertas e dúvidas, de confrontos com o mundo e consigo próprio, onde, "o principal desafio é alcançar uma identidade coerente" — ainda que tudo pareça fluido, instável, como areia entre os dedos.
Para muitos, é um tempo de saudade, guardado a sete
chaves: os primeiros amores, ardentes e ingénuos; as amizades que pareciam
eternas; os sonhos desmedidos que, naquele momento, não cabiam nos limites do
possível. Há uma beleza nessa liberdade, mesmo quando cercada pelos muros da
casa ou pelas regras da escola. Como dizia Zygmunt Bauman, na modernidade
líquida, a identidade é uma "bricolage", e o
adolescente é o artesão que experimenta, desfaz, reconstrói — um pintor de si
mesmo, ainda sem saber que cores escolher.
Mas há também os que não querem revisitar essa etapa.
Para eles, a adolescência é sinónimo de angústia, da sensação aguda de não
pertença, da pressão social que sufoca o que mal começou a germinar. O
corpo, em transformação, torna-se um campo de batalha: será demasiado gordo,
demasiado magro, demasiado diferente? As redes sociais amplificam essa
comparação constante, minando a autoestima, hoje adultos sabemos que "entre
o estímulo e a resposta, há um espaço" — e é nesse espaço que o
adolescente luta para encontrar a sua voz, entre o impulso e a ação, entre o
medo e a coragem.
Na verdade "não somos o que fazem de nós,
mas o que fazemos com o que fizeram de nós". E a adolescência é,
precisamente, esse laboratório de escolhas decisivas: os primeiros nãos à
autoridade, os primeiros sims arriscados, as primeiras vezes
que negociamos com os nossos limites e os dos outros. Autores tem que veem esta
fase como uma "segunda nascença", e a metáfora é
perfeita: é como se o adolescente tentasse nascer de novo, não pelas mãos dos
pais, mas pelas suas próprias, rasgando a pele da infância para tentar caber
num futuro ainda incerto.
Há, claro, uma luz neste tempo. O riso fácil, a fé
inabalável de que tudo é possível, a energia que parece infinita. Há a música
que salva, os livros que abrem mundos, os amigos que se tornam família. Mas há
também sombras: a solidão que ninguém vê, o bullying que cala, a ansiedade que
corrói. Beauvoir dizia que "não se nasce mulher: torna-se" —
e o mesmo se aplica a todas as identidades que se forjam na adolescência. Não
se nasce adulto: torna-se. E essa travessia é muitas vezes profundamente
dolorosa.
Por isso, quando perguntamos "quantas vezes
quiseste voltar atrás?", as respostas dividem-se. Há quem suspire
pelos dias em que o mundo parecia uma tela em branco, cheio de possibilidades.
E há quem estremeça ao lembrar os dias em que se sentiu perdido, inadequado,
invisível. Podemos acreditar que "sou aquilo que escolho me
tornar", e a adolescência é o primeiro grande terreno onde essas
escolhas são semeadas — um solo fértil para algumas almas, árido para tantas
outras.
No fim, mesmo quando não queremos revivê-la, a
adolescência nunca nos abandona. Ela ecoa nas nossas decisões, nos nossos
medos, na forma como amamos ou como fugimos. Ficam as cicatrizes, mas ficam
também as sementes do que virá a ser. Porque, "a
vida só pode ser entendida olhando para trás, mas deve ser vivida para a
frente" (Kierkegaard ) — e a adolescência é, afinal, a primeira
grande curva nesse caminho.
Voltar atrás? Talvez não. Mas esquecê-la? Impossível.

Para mim,a adolescência,foi,fui,vivi e brinquei numa descoberta de mim própria a cada dia que passava e me ia tentando "encaixar" numa sociedade que eu não compreendia mas que também não fazia nada para me compreender e isso só me trouxe sofrimento...conforme ia crescendo e conhecendo o mundo em que vivia,passei por várias adolescências nas minhas diferentes fases de "criação" e adaptação á sobrevivência de um ser humano diferente entre muitos iguais mas também muitos diferentes como eu e consegui guardar todas essas adolescências e ás vezes... só ás vezes...lembro de algumas...a que eu gosto mais de lembrar, é a minha passagem de adolescente para o mundo dos adultos, já mulher feita e feliz...foi o melhor presente que a vida me deu e eu todas as horas, agradeço o privilégio 🫶🙏🙌💖😘
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